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Guia da Saúde

Pode requentar chá? A norma dá um número: 70 °C

Pode — e existe um número para “requentar direito”. Reaquecer um chá é, na linguagem da RDC 216 da Anvisa, um tratamento térmico, e a norma exige que ele leve todas as partes do alimento a no mínimo 70 °C. Aquecer até ficar morno não cumpre a regra. E há um limite que o calor não vence: o reaquecimento não zera o tempo que o líquido já passou em temperatura de risco.

O número que quase ninguém conhece: 70 °C

O item 4.8.8 da RDC 216 vale para qualquer alimento que passe por calor, inclusive o que já passou uma vez:

“O tratamento térmico deve garantir que todas as partes do alimento atinjam a temperatura de, no mínimo, 70 °C (setenta graus Celsius). Temperaturas inferiores podem ser utilizadas no tratamento térmico desde que as combinações de tempo e temperatura sejam suficientes para assegurar a qualidade higiênico-sanitária dos alimentos.”

Duas palavras carregam a regra. “Todas”: não basta a superfície ferver enquanto o fundo continua morno — é exatamente o defeito do micro-ondas, que aquece por região. E “combinações”: a norma admite menos de 70 °C, mas só quando tempo e temperatura, juntos, dão conta — o que ninguém calcula numa cozinha doméstica. Na prática, o caminho seguro é levar ao ponto de fervura e mexer.

O item seguinte, o 4.8.9, diz como se avalia se deu certo: “pela verificação da temperatura e do tempo utilizados”. Ou seja, a norma trata isso como medida — não como impressão.

O que o reaquecimento não desfaz

Aqui está a parte contraintuitiva. Requentar a 70 °C reduz carga microbiana viva. Ele não desfaz três outras coisas:

  1. O tempo já gasto na faixa intermediária. A RDC 216 dá duas horas para o líquido cair de 60 °C a 10 °C, e seis horas de teto para conservação acima de 60 °C. A jarra que ficou a noite inteira no balcão já consumiu esses dois orçamentos — e reaquecer não os devolve.
  2. Toxinas já formadas. Aquecer mata organismo; não desmonta necessariamente o que ele deixou. O caso mais claro dessa assimetria é o da erva mofada, em que a fervura mata o fungo e não elimina a micotoxina — está em erva mofada.
  3. A qualidade da matéria-prima. Erva fora do teor de água da espécie, guardada errada ou vencida não melhora na panela. O limite por espécie está em validade de erva seca.

Requentar é, portanto, uma correção de temperatura — não uma correção de histórico.

Requentar não é o mesmo que continuar preparando

Do lado farmacêutico, a referência é curta e não menciona reaquecimento em nenhum momento. A Farmacopeia Brasileira define chá medicinal como “fitoterápico a ser preparado por meio de infusão, decocção ou maceração em água no momento do uso”, e o Formulário de Fitoterápicos chama essas preparações de extemporâneas — literalmente, preparações para uso imediato.

Some a isso os tempos de preparo, que vão de 5 a 20 minutos conforme a monografia. Se a erva continuou na jarra, requentar não é repetir o preparo: é prolongar uma extração que já deveria ter terminado horas antes. Se a erva foi coada, o chá requentado é um líquido aquecido de novo, sem preparo de referência publicado. Nos dois casos, o que sai da panela não é o que a dose da monografia descreve — o preparo correto está em como fazer chá.

O roteiro que funciona

  • Aqueça só a porção que vai beber. Cada ciclo de esfriar e requentar gasta orçamento de tempo nas faixas intermediárias.
  • Leve ao ponto de fervura e mexa, para atender ao “todas as partes” da norma. No micro-ondas, pare na metade, mexa e volte.
  • Não requente duas vezes a mesma porção. Não há proibição escrita, mas cada ida e volta soma travessias que a norma existe para limitar.
  • Se você não sabe há quanto tempo está ali, descarte. É a mesma lógica da etiqueta com data que a RDC 216 exige para alimento refrigerado.
  • Não requente chá com mofo, cheiro azedo, película na superfície ou aspecto turvo novo.

Onde cada situação se encaixa

Requentar é uma das três formas de reaproveitar chá pronto, e cada uma tem sua regra própria:

SituaçãoRegra aplicávelPágina
Guardar frio para beber depois5 dias a 4 °C, com resfriamento em 2 horaschá na geladeira
Manter quente o dia todoAcima de 60 °C, por até 6 horaschá na garrafa térmica
Esquentar de novo70 °C em todas as partesesta página
Quanto tempo o chá pronto dura, do ponto de vista da monografiaUso imediatoquanto tempo dura o chá pronto

E a pergunta que fica por baixo das três: o chá vale mais requentado do que refeito? Refazer custa o tempo de uma infusão — entre 5 e 20 minutos — e devolve a preparação que as monografias descrevem. Guardar e requentar resolve pressa, não fidelidade ao preparo. Antes disso, tudo depende da erva que está no pote: como escolhê-la, moê-la e guardá-la está em como moer erva seca e como guardar ervas secas.

Perguntas frequentes

Requentar chá é perigoso?

O risco não está no reaquecimento em si, e sim no tempo que o líquido passou morno antes dele. Requentar bem, levando todas as partes a 70 °C, é o que a norma pede de qualquer tratamento térmico. O que o calor não faz é apagar o histórico do que ficou horas em temperatura ambiente.

Micro-ondas serve para requentar chá?

Serve, com uma ressalva importante: o micro-ondas aquece de forma desigual, e a exigência da norma é que todas as partes cheguem a 70 °C, não só a superfície. Mexer no meio do aquecimento e voltar mais um pouco resolve a maior parte do problema.

Quantas vezes posso requentar o mesmo chá?

Cada ciclo de esfriar e reaquecer soma tempo nas faixas intermediárias de temperatura, e a norma limita justamente isso: até duas horas para cair de 60 °C a 10 °C. Requentar a mesma jarra várias vezes multiplica essas travessias. Aqueça só a porção que vai beber.

Requentar destrói as propriedades do chá?

Nenhum documento oficial descreve o chá requentado, porque a referência é de preparo no momento do uso. O que se pode afirmar é o inverso: nenhuma monografia prevê reaquecimento, então o chá requentado não tem preparo de referência, e o teor final não é o que a dose da monografia pressupõe.

Fontes

  1. Resolução RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004 (Anvisa) — item 4.8.8: a exigência de que o tratamento térmico garanta que todas as partes do alimento atinjam no mínimo 70 °C, admitindo temperaturas inferiores apenas quando as combinações de tempo e temperatura forem suficientes; item 4.8.9, sobre avaliar a eficácia do tratamento pela verificação de temperatura e tempo; item 4.8.15, com a conservação a quente acima de 60 °C por no máximo 6 horas; item 4.8.16, com o resfriamento de 60 °C a 10 °C em até duas horas; e item 4.8.17, com o prazo de 5 dias a 4 °C ou menos
  2. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume I (Anvisa, RDC nº 1.026 de 15 de maio de 2026) — glossário: a definição de chá medicinal como fitoterápico a ser preparado por meio de infusão, decocção ou maceração em água no momento do uso
  3. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a definição de preparação extemporânea como preparação para uso imediato a ser realizada pelo usuário por infusão, decocção ou maceração, e os tempos de preparo fixados monografia a monografia, de 5 a 20 minutos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026