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Guia da Saúde

Como guardar ervas secas: nem luz nem congelador

Guardar erva seca tem quatro inimigos nomeados em documento oficial, e um deles surpreende. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa manda manter matérias-primas e produtos em temperatura ambiente entre 15 e 30 °C, com proteção contra “a umidade, o congelamento, a incidência direta de luz e o calor excessivo”. Congelamento entra na lista — não é lugar de erva seca.

Os quatro inimigos, um a um

Umidade. É o que decide se o lote apodrece. A Farmacopeia Brasileira fixa o teto por espécie: 10,0% de água na folha de melissa, 11,0% na folha de capim-limão, 12,0% na folha de hortelã-pimenta e na parte aérea de hortelã-do-brasil, e 12,0% de perda por dessecação na flor de camomila. Guardar antes de atingir esses valores é lacrar o problema junto com a erva — os números da secagem estão em temperatura para secar ervas.

Luz. A Embrapa exige embalagem que proteja da luz “para evitar alterações em suas características, principalmente a cor”, e a monografia da hortelã-pimenta manda guardar em recipiente hermeticamente fechado ao abrigo da luz e do calor. Vidro transparente em prateleira aberta é o pior arranjo possível, e é o mais bonito — daí sua popularidade.

Calor excessivo. Armário acima do fogão, atrás da geladeira ou em parede que pega sol da tarde mantém a erva num forno lento. A referência da Embrapa é temperatura em torno de 25 °C.

Congelamento. É o item contraintuitivo. A regra de armazenamento da Anvisa lista o congelamento entre as condições contra as quais o material deve ser protegido. Vale notar que isso trata de droga vegetal e produto seco — a conservação de erva fresca é outro assunto, com outra lógica, como em pode congelar manjericão e no guia de conservação de alimentos.

Guarde inteiro: a Farmacopeia mede isso

O erro mais comum é triturar tudo assim que seca, para caber melhor no pote. A Farmacopeia Brasileira mostra o custo em dois lugares diferentes.

Nas duas monografias de hortelã, o teor mínimo de óleo volátil exigido do material rasurado é 25% menor que o exigido do material inteiro — 1,2% contra 0,9% na hortelã-pimenta, 0,8% contra 0,6% na hortelã-do-brasil. O padrão oficial já conta com a perda de quem pica.

Na monografia da flor de camomila, há um ensaio dedicado a isso: “Material fragmentado. Passar 20 g de droga vegetal íntegra por tamis (710). No máximo 25,0%”. Ou seja, a camomila reprovaria se mais de um quarto dela estivesse desmanchada. Erva farelenta no fundo do pote não é detalhe estético — é parâmetro de qualidade.

A conduta que segue disso: guardar folha e flor inteiras, e rasurar apenas na hora de preparar. É também o que a monografia de preparo pede — infusão com droga vegetal seca e rasurada, rasurada naquele momento. O caso aplicado está em como secar hortelã, e as fichas das espécies em camomila, melissa e capim-limão.

Um pote por espécie e por parte

A Embrapa Rondônia é específica: as plantas colhidas inteiras devem ter cada parte — folha, flor, caule, raiz, sementes, frutos — “seca em separado e conservada depois em recipientes individuais”.

Duas razões práticas. A primeira é que cada parte tem umidade final diferente: 5% a 10% em flores e folhas, 12% a 20% em sementes, cascas e raízes. Juntar num pote só faz a parte mais seca puxar umidade da mais úmida. A segunda é de identificação: misturar espécies num mesmo recipiente é o caminho mais curto para não saber mais o que se tem — problema tratado em como identificar uma planta medicinal.

A embalagem, ainda segundo a Embrapa, não deve exalar odores capazes de contaminar as plantas. Potes que guardaram tempero forte, café ou produto de limpeza estão fora, mesmo depois de lavados.

A etiqueta é parte do procedimento

A instrução da Embrapa é literal: armazenar em embalagem hermeticamente fechada, etiquetada com o nome da espécie e a data da colheita, em local “arejado, escuro, seco, livre de insetos e roedores”. A mesma ficha acompanha o material desde a bandeja de secagem.

Sem esses dois dados na etiqueta, três decisões ficam impossíveis: saber se a dose da monografia se aplica, saber se o lote já é antigo demais e descobrir o que deu errado quando um lote sai ruim. É a diferença entre horta medicinal e pote sem nome no armário — e o restante do método está em como plantar ervas em casa.

Sinais de que o lote deve ser descartado

  • Umidade visível no vidro, embaçamento na parede interna ou folhas grudadas entre si;
  • Mofo, pontos brancos, esverdeados ou pretos, e cheiro de bolor;
  • Insetos vivos ou mortos, larvas, teias finas ou pó fino no fundo;
  • Perda completa de aroma numa erva aromática — sinal de que o óleo volátil, que é o teor medido pela monografia, já se foi.

Nenhum desses casos se resolve secando de novo. A umidade que entrou trouxe junto o que cresceu nela, e a Embrapa alerta que a secagem concentra também os componentes indesejados. Descarte e recomece do ramo — colhendo no ponto descrito em quando colher erva medicinal.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma erva seca guardada?

Nenhuma das fontes oficiais consultadas fixa prazo de validade para droga vegetal guardada em casa. O que a Embrapa afirma é que uma embalagem adequada prolonga o tempo de validade do material. Por isso a etiqueta com a data da colheita importa: sem ela não há como avaliar nem descartar com critério.

Saco plástico serve ou tem que ser vidro?

A Embrapa admite sacos plásticos, vidros ou qualquer vasilhame que reduza a absorção de umidade, desde que a embalagem seja o mais hermética possível, proteja da luz e não exale odores capazes de contaminar a planta. Vidro âmbar ou vidro guardado dentro do armário resolve os três requisitos de uma vez.

Posso guardar duas ervas no mesmo pote para economizar espaço?

Não. A Embrapa determina que cada parte da planta seja seca em separado e conservada depois em recipientes individuais, e que espécies diferentes não se misturem, para evitar transferência de aroma e confusão de material. Pote misto também impossibilita identificar o que está lá dentro depois de alguns meses.

Erva que perdeu o cheiro ainda serve?

Perda de aroma em erva aromática é perda do óleo volátil, que é justamente o teor mínimo que a Farmacopeia exige para reconhecer a droga vegetal. Ela não vira tóxica por isso, mas deixa de entregar o que a monografia mede. Se além disso houver mofo, umidade no vidro ou insetos, o material se descarta.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a regra de armazenamento segundo a qual matérias-primas e produtos, quando a monografia não descrever condições próprias, devem ser mantidos em temperatura ambiente entre 15 e 30 °C, com proteção contra a umidade, o congelamento, a incidência direta de luz e o calor excessivo
  2. Embrapa Agroindústria Tropical — Documentos 161: Plantas Condimentares: Cultivo e Utilização (2013): a exigência de embalagem o mais hermética possível, que reduza a absorção de umidade, proteja da luz e não exale odores capazes de contaminar as plantas; e o armazenamento em embalagem hermeticamente fechada, etiquetada com o nome da espécie e a data da colheita, em local arejado, escuro, seco, livre de insetos e roedores, com temperatura em torno de 25 °C
  3. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume II — Plantas Medicinais (Anvisa), aprovada pela RDC nº 1.026 de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026: a embalagem em recipiente hermeticamente fechado ao abrigo da luz e do calor na monografia da folha de hortelã-pimenta; os limites máximos de água por espécie, de 10,0% na folha de melissa a 12,0% na folha de hortelã-pimenta; o limite de 25,0% de material fragmentado na flor de camomila, medido em 20 g de droga vegetal íntegra passada por tamis; e a queda de 25% no teor mínimo de óleo volátil exigido do material rasurado em relação ao inteiro nas duas monografias de hortelã
  4. Embrapa Rondônia — Documentos 91: Cultivo, uso e manipulação de plantas medicinais (2004): a orientação de que plantas colhidas inteiras devem ter cada parte — folha, flor, caule, raiz, sementes, frutos — seca em separado e conservada depois em recipientes individuais

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026