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Guia da Saúde

Temperatura para secar ervas: 40 °C ou 45 °C?

três números oficiais circulando para a mesma pergunta, e eles não se contradizem — respondem a perguntas diferentes. A Embrapa limita a estufa a 40 °C; outro documento da própria Embrapa usa 40 °C como piso; e o Formulário de Fitoterápicos da Anvisa manda secar a 45 °C em estufa de ar circulante por três dias. Entender qual é qual é o que separa a erva seca da erva torrada.

Os três números, e o que cada um está respondendo

40 °C como teto. A Circular Técnica 70 da Embrapa trata da horta e da lavoura: a secagem “poderá ser natural, conduzida à sombra, em local ventilado (…) ou com o uso de estufas ou secadores de plantas, que deve, no entanto, ter a temperatura controlada, e, em geral, limitada a 40 °C”. O objetivo aqui é preservar o óleo volátil, que é justamente o que evapora quando o ar esquenta demais.

40 °C como piso. O Documento 161 da Embrapa Agroindústria Tropical trata de escala de produção e inverte a frase: “a secagem das plantas pode ser feita em uma estufa que não atinja temperatura inferior a 40 °C”. O objetivo aqui é outro — secar rápido o suficiente para “evitar alterações metabólicas e minimizar a deterioração por microrganismos e insetos”.

45 °C por três dias. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa fixa um procedimento padrão para farmácia de manipulação: “quando não houver recomendação de secagem específica na monografia do FFFB, a planta fresca deve ser seca a temperatura de 45 ºC em estufa de ar circulante por três dias”. Note as duas condições que acompanham o número e que quase nunca são citadas junto: ar circulante e três dias. Não é 45 °C num forno parado por uma tarde.

Somando os três: 40 °C é o alvo prático de quem seca erva aromática em casa — é o único ponto em que os dois documentos da Embrapa se encontram. Os 45 °C da Anvisa valem para material que vai virar tintura ou extrato sob controle farmacêutico, com estufa de circulação forçada.

Os três dias são o padrão, não a regra de toda espécie

Vale ler a frase da Anvisa até o fim, porque ela é condicional: os 45 °C por três dias valem “quando não houver recomendação de secagem específica na monografia”. E há monografia que traz a sua.

O boldo-brasileiro é o exemplo. Na fórmula de tintura de Plectranthus barbatus, o Formulário determina que o material vegetal seja seco em estufa com ventilação forçada de ar por sete dias, na temperatura de 45 ºC — mais que o dobro do tempo padrão, na mesma temperatura. A ficha da espécie está em boldo brasileiro e a preparação em tintura de boldo brasileiro.

Ou seja: antes de aplicar o padrão, confira se a espécie tem instrução própria. O padrão existe para o caso em que não tem.

Fresco e seco não são a mesma matéria-prima — e a conta prova

Se restar dúvida sobre por que a secagem importa tanto, o Formulário responde com números. Duas monografias mostram o que muda quando o material entra fresco:

  • Quebra-pedra (Phyllanthus niruri). Mesmo decocto, mesmos 150 mL de água, mesmos 10 minutos de fervura: a fórmula com planta inteira seca pede 1,5 a 3 g; a fórmula que manda “utilizar a droga vegetal fresca” pede 4,5 a 6 g. Cerca do triplo da massa para a mesma preparação — porque boa parte do peso da planta fresca é água. A ficha está em chá de quebra-pedra.
  • Boldo-brasileiro (Plectranthus barbatus). Aqui a água da planta muda até o nome da preparação: 20 g de folha em 100 mL viram alcoolatura, com álcool a 80%, quando a folha é fresca; e tintura, com álcool a 70%, quando a folha é seca. A diferença de graduação existe justamente porque a água contida na folha fresca entra na conta do solvente.

É por isso que a dose publicada em monografia não se aplica ao punhado colhido no vaso: ela é dose de droga vegetal seca. Trocar seco por fresco no mesmo peso significa tomar bem menos material do que a fórmula prevê.

Por que o calor demais destrói exatamente o que interessa

O princípio ativo da maioria das ervas de chá é óleo volátil — e volátil quer dizer que evapora. A Farmacopeia Brasileira mede esse teor e o transforma no critério que define a droga vegetal: a folha de hortelã-pimenta só é hortelã-pimenta farmacopeica se tiver no mínimo 1,2% de óleo volátil; a folha de melissa, no mínimo 0,6%; a de capim-limão, no mínimo 0,5%.

Nenhum desses limites resiste a uma secagem improvisada em forno doméstico, que raramente desce abaixo de 60 °C. O prejuízo é invisível: a folha fica bonita, quebradiça e sem cheiro — e sem cheiro é o sinal de que o óleo já foi embora. As fichas das espécies estão em hortelã-pimenta, melissa e capim-limão.

Do outro lado, água demais é contaminação

Secar pouco é tão problemático quanto secar demais, só que o dano aparece depois. A Embrapa registra os teores de umidade no momento da colheita:

Parte da plantaUmidade ao colher
Folhas60% a 90%
Raízes70% a 85%
Flores e frutos80% a 90%
Cascas30% a 40%
Sementes e frutos secos10% a 20%

A secagem reduz esses valores para a faixa de 5% a 12%. Mais precisamente, ao final do processo: 5% a 10% em flores e folhas, e 12% a 20% em sementes, cascas e raízes.

A Farmacopeia Brasileira transforma isso em limite de reprovação por espécie: no máximo 12,0% de água na folha de hortelã-pimenta e na parte aérea de hortelã-do-brasil, 11,0% na folha de capim-limão, 10,0% na folha de melissa. Acima disso, o material não passa no ensaio — e, na prática doméstica, mofa no vidro.

Secagem natural: quando serve e quando não serve

A Embrapa é explícita sobre a limitação do varal: na secagem natural “não existe o controle da temperatura, e por isso não é recomendado para secagem de produtos que contenham substâncias voláteis”.

Isso não elimina o método — ele é econômico e viável em clima quente e seco, para pequena escala —, mas define a expectativa. Quem seca hortelã pendurada na cozinha está fazendo secagem sem controle de temperatura de um material cujo valor está numa substância volátil. Funciona; rende menos.

As condições mínimas, se for esse o caminho:

  • à sombra, em local ventilado, protegido de poeira, insetos e outros animais;
  • camada fina sobre tabuleiros perfurados, sem amontoar;
  • protegido à noite para não reabsorver umidade do ar;
  • nunca sob sol direto no caso das aromáticas — a Embrapa descreve o resultado: aroma e coloração alterados e superfície externa mais endurecida.

Uma espécie por bandeja, sempre

Duas regras da Embrapa que valem tanto para varal quanto para estufa:

  • espécies diferentes secam separadamente, em bandejas diferentes, porque têm tempos de secagem diferentes e porque os aromas se misturam;
  • se a secagem estiver irregular, troque a posição das bandejas em vez de revolver o material — o revolvimento danifica a folha.

E cada bandeja leva uma ficha com nome da planta e data da colheita. Parece burocracia doméstica; é o que permite descobrir depois por que um lote ficou ruim, como discutido em quando colher erva medicinal.

Como saber a hora de parar

O método da Embrapa não depende de tato nem de aparência: peso constante. Separe uma amostra do material num recipiente, deixe-a no mesmo local do restante e pese diariamente. Quando o peso parar de cair, a secagem acabou e deve ser interrompida.

Como referência do quanto esperar, a Embrapa Rondônia publica a redução de peso por órgão vegetal: folhas perdem de 20% a 75%, cascas de 40% a 65%, raízes de 25% a 80%, flores em geral de 15% a 80% — a flor de camomila perde 66% e a de borragem, 90%.

O passo seguinte, que desfaz metade do trabalho quando é feito errado, está em como guardar ervas secas. O procedimento aplicado a uma espécie, com os limites da monografia dela, está em como secar hortelã.

Perguntas frequentes

Posso secar erva no micro-ondas ou na air fryer?

Nenhuma das fontes técnicas brasileiras consultadas avalia micro-ondas ou fritadeira elétrica para plantas medicinais, então esta página não publica tempo nem potência para esses aparelhos. O parâmetro que existe é temperatura controlada em torno de 40 °C a 45 °C, e aparelhos domésticos que não permitem ajustar e verificar essa faixa ficam fora do critério.

Como sei que a erva já está seca?

Pelo peso, não pela aparência. O método da Embrapa é o do peso constante: separe uma amostra num recipiente, deixe no mesmo local do restante e pese diariamente. Quando o peso parar de cair, a secagem deve ser interrompida. Erva que continua perdendo peso ainda tem água.

Secar ao sol é sempre errado?

Para aromáticas, sim. A Embrapa registra que secar sob sol direto altera aroma e coloração e endurece a superfície externa da folha, por perda de água rápida demais. Para raízes, o mesmo documento admite alguma exposição solar após a colheita. A diferença está em haver ou não óleo volátil a preservar.

Erva mal seca estraga em quanto tempo?

Não há prazo publicado nas fontes consultadas, porque depende da umidade que sobrou. O que existe é o limite: a Farmacopeia Brasileira admite no máximo 10% a 12% de água na maioria das folhas, e acima disso o material fica sujeito a deterioração por microrganismo. Erva que embaça o vidro por dentro não estava seca.

Fontes

  1. Embrapa Tabuleiros Costeiros — Circular Técnica 70: Orientações Técnicas para o Cultivo de Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares (2015): a secagem natural conduzida à sombra em local ventilado, a secagem em estufa ou secador com temperatura controlada e em geral limitada a 40 °C, e a advertência de que aromáticas secas sob sol direto têm aroma e coloração alterados e superfície externa endurecida
  2. Embrapa Agroindústria Tropical — Documentos 161: Plantas Condimentares: Cultivo e Utilização (2013): o teor de umidade de cada parte da planta na colheita, a redução para valores entre 5% e 12% pela secagem, a umidade final de 5% a 10% em flores e folhas e de 12% a 20% em sementes, cascas e raízes, a secagem artificial em estufa que não atinja temperatura inferior a 40 °C, a ressalva de que a secagem natural não controla temperatura e não é recomendada para produtos com substâncias voláteis, e o método do peso constante
  3. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026), aprovado pela RDC nº 1.024 de 2026: a regra de que, quando não houver recomendação de secagem específica na monografia, a planta fresca deve ser seca a 45 °C em estufa de ar circulante por três dias; a exigência de que o material vegetal esteja seco quando a monografia não descrever a condição; a monografia de Plectranthus barbatus, cuja fórmula 3 manda secar a folha em estufa com ventilação forçada por sete dias a 45 °C e cuja fórmula 2 usa folha fresca com álcool a 80% na alcoolatura contra álcool a 70% na tintura de folha seca; e a monografia de Phyllanthus niruri, com 1,5 a 3 g de planta inteira seca contra 4,5 a 6 g de droga vegetal fresca para o mesmo decocto de 150 mL
  4. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume II — Plantas Medicinais (Anvisa), aprovada pela RDC nº 1.026 de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026: os limites máximos de água por droga vegetal, com 12,0% para a folha de hortelã-pimenta e para a parte aérea de hortelã-do-brasil, 11,0% para a folha de capim-limão e 10,0% para a folha de melissa, além dos teores mínimos de óleo volátil que a secagem precisa preservar

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026