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Guia da Saúde

Garra-do-diabo efeitos colaterais: 3 grupos e 3%

As reações adversas da garra-do-diabo se organizam em três grupos, e as duas monografias listam exatamente os mesmos. A diferença entre elas está numa frase que só a europeia escreve: a frequência dessas reações é oficialmente desconhecida. O número que existe vem de fora das monografias — cerca de 3%, numa revisão de 28 ensaios.

Os três grupos, e o que cada um contém

A lista brasileira e a europeia coincidem item por item:

GrupoReações listadas
Gastrointestinaldiarreia, náuseas, vômitos, dor abdominal
Sistema nervoso centralcefaleia, tontura
Alérgicorash cutâneo, urticária, edema facial

A monografia europeia acrescenta uma linha que a brasileira não reproduz: “The frequency is not known.” Não é descuido de redação — é uma categoria formal. O relatório explica de onde ela vem:

“On the basis of the available data the frequency is not assessable. So the frequency is not known.”

Traduzindo o que isso quer dizer na prática: ninguém sabe se essas reações acontecem em um a cada dez ou em um a cada dez mil usuários. O que se sabe é quais reações aparecem, não com que frequência. Rótulo de medicamento costuma trazer “comum”, “incomum”, “raro” — aqui não há nada disso, porque o dado não existe.

O número que existe: cerca de 3%

Fora das monografias, há uma revisão sistemática dedicada só à segurança desta planta (PMID 18236448). Ela vasculhou a literatura desde 1985 e encontrou 28 ensaios clínicos, dos quais 20 relataram eventos adversos. O resultado:

  • os eventos adversos leves ocorreram em cerca de 3% dos pacientes — no detalhamento do relatório europeu, 138 pacientes entre os 4.274 desses 20 estudos;
  • em nenhum estudo duplo-cego a incidência de eventos adversos com a planta foi maior do que com placebo;
  • houve poucos relatos de toxicidade aguda e nenhum de toxicidade crônica.

E a conclusão dos autores, que costuma ser omitida quando o número de 3% é citado, é uma advertência:

“Since the dosage used in most of the studies is at the lower limit and since long-term treatment with Harpagophytum products is advisable, more safety data are urgently needed.”

Ou seja: a taxa baixa foi medida com doses no limite inferior da faixa, em tratamentos curtos. “Nenhum relato de toxicidade crônica” não significa que não haja — significa que ninguém procurou por tempo suficiente. É por isso que os prazos das monografias são curtos, assunto de chá de garra-do-diabo.

Nos ensaios comparativos, menos evento que o anti-inflamatório

Um padrão se repete nos estudos que colocaram a planta contra um medicamento. Vale registrar, com as fragilidades junto:

EstudoComparaçãoResultado de tolerabilidade
Osteoartrite de joelho e quadril, 4 mesesplanta contra diacereínadiarreia em 8,1% contra 26%
Dor lombar crônica, 6 semanasplanta contra rofecoxibeabandono por evento adverso em 1 de 44 contra 6 de 44
Lombalgia inespecífica, 6 semanasplanta, diclofenaco e rofecoxibereações possivelmente causais em 16%, 56% e 33%
Estudo aberto, 8 semanas, 614 pacientessem comparador3 pacientes (0,5%) com queixa gastrointestinal

O comitê europeu, porém, desmonta cada um deles: falta de grupo placebo, comparadores que não são droga de referência, número pequeno de pacientes, estudos abertos. Tolerabilidade melhor num ensaio curto não é o mesmo que segurança comprovada — e não é, em hipótese nenhuma, motivo para trocar um anti-inflamatório prescrito pela planta. A discussão de eficácia está em garra-do-diabo para dor nas articulações.

O que a farmacovigilância alemã classificou como “muito raro”

O relatório traz a classificação do BfArM, o instituto federal alemão de medicamentos, que é mais específica do que as monografias:

  • raro: náusea, vômito, diarreia, flatulência (trato gastrointestinal); cefaleia e vertigem (sistema nervoso);
  • muito raro: reações de hipersensibilidade, incluindo choque anafilático, rash, urticária e edema facial;
  • muito raro: elevação da glicemia — sinal confirmado por um único caso de hiperglicemia no banco VigiLyze da OMS.

Duas anotações. A primeira: choque anafilático aparece explicitamente na classificação alemã, ainda que na categoria mais rara — o que transforma inchaço de rosto e boca, urticária generalizada ou falta de ar em motivo de atendimento imediato, não de “esperar passar”. A segunda: a elevação de glicemia é um sinal isolado, com um caso confirmado, e não é suficiente para afirmar que a planta altera o açúcar no sangue. É suficiente para registrar e para não ignorar.

A ESCOP, por sua vez, registra três casos de reação alérgica de pele — prurido e lesões — atribuídos ao extrato da raiz.

Superdose, varfarina e o que fazer

Sobre superdose, a monografia europeia é direta: nenhum caso relatado. Isso não autoriza ultrapassar a dose, e o Formulário fecha essa porta com a frase que repete em todas as monografias: “não utilizar em doses acima das recomendadas”.

Sobre combinação com medicamento, existe um relato: púrpura num paciente que usava a planta junto com varfarina. O relatório europeu contextualiza — estudos in vitro sugerem inibição do CYP2C9, que participa do metabolismo da varfarina, e o caso foi classificado como “possível” na escala de Naranjo. É pouco para provar interação e bastante para não somar as duas coisas sem conversar com quem prescreve. O panorama está em interações entre chá e remédio.

A conduta escrita, diante de qualquer evento adverso, é uma só: suspender o uso do produto e consultar um médico. Procure atendimento no mesmo dia se houver inchaço de rosto, lábios ou língua, falta de ar, urticária que se espalha, vômito que não para, dor abdominal forte, sangramento inexplicado ou fezes escuras. As vedações que evitam boa parte desses episódios estão em quem não pode tomar garra-do-diabo, e a ficha completa da espécie em garra-do-diabo.

Perguntas frequentes

O que fazer se aparecer diarreia ou dor de estômago?

A instrução da monografia é suspender o uso e consultar um médico diante do aparecimento de qualquer evento adverso. Sintoma gastrointestinal é o mais comum nesta planta e costuma ser leve, mas o critério escrito não distingue gravidade: apareceu, para-se. Não se ajusta a dose por conta própria.

É verdade que a planta é mais bem tolerada que anti-inflamatório?

Nos ensaios que compararam as duas coisas diretamente, houve menos eventos adversos com a planta. Só que esses ensaios são curtos, alguns sem grupo placebo, e o comparador nem sempre é a droga de referência. Menos evento adverso num ensaio de seis semanas não é equivalência de segurança nem de eficácia.

Existe risco para o fígado?

Nenhum dos documentos consultados registra hepatotoxicidade entre as reações da garra-do-diabo, e o assunto não aparece nas seções de segurança do relatório europeu. O sinal desta planta é gástrico, neurológico leve e alérgico. Ausência de registro não é garantia, mas é o que os documentos dizem.

Dá para tomar por muito tempo, já que os eventos são leves?

Não. Os prazos são de quatro semanas para dor articular e duas para queixa digestiva, e a própria revisão de segurança avisa que faltam dados de longo prazo: ela encontrou poucos relatos de toxicidade aguda e nenhum de toxicidade crônica, o que significa ausência de informação, não ausência de risco.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT038-00, Harpagophytum, seção de advertências: os eventos adversos listados em três grupos (sintomas gastrointestinais como diarreia, náuseas, vômitos e dor abdominal; distúrbios do sistema nervoso central como cefaleia e tontura; e reações alérgicas como rash cutâneo, urticária e edema facial), o relato de caso de púrpura com uso associado a varfarina, e a ordem de suspender o uso e consultar médico diante de qualquer evento adverso
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627057/2015), seções 4.8 e 4.9: os mesmos três grupos de reações indesejáveis, a frase que declara a frequência como não conhecida, e o registro de que nenhum caso de superdose foi relatado
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627058/2015), seções 5.1 a 5.4: os eventos adversos leves descritos em 20 estudos com 4.274 pacientes e 138 casos; a classificação da agência alemã BfArM, com náusea, vômito, diarreia, flatulência, cefaleia e vertigem como raras e reações de hipersensibilidade incluindo choque anafilático como muito raras; a elevação muito rara da glicemia confirmada por um caso de hiperglicemia no banco VigiLyze; os três casos de reação alérgica de pele registrados pela ESCOP; e a conclusão de que a frequência não é avaliável
  4. Vlachojannis J, Roufogalis BD, Chrubasik S. Systematic review on the safety of Harpagophytum preparations for osteoarthritic and low back pain. Phytother Res. 2008;22(2):149-152 (PMID 18236448) — a revisão de 28 ensaios clínicos identificados desde 1985, dos quais 20 relataram eventos adversos, com eventos leves em cerca de 3% dos pacientes, sem que a incidência em qualquer estudo duplo-cego superasse a do placebo, poucos relatos de toxicidade aguda e nenhum de toxicidade crônica, e a conclusão de que mais dados de segurança são urgentemente necessários

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026