Garra-do-diabo: para que serve, em 14 fórmulas
A garra-do-diabo é a espécie com mais fórmulas em todo o Formulário de Fitoterápicos da Anvisa: são 14, e nenhuma outra das 85 espécies do documento chega a nove. Elas servem para duas coisas distintas — dor articular leve e queixa digestiva leve —, e a fórmula escolhida decide qual das duas você está tratando.
Duas indicações, e a fórmula decide qual
O Formulário reparte as 14 fórmulas entre as duas indicações: onze aparecem na lista da dor articular, seis na lista digestiva — e três estão nas duas. O resumo:
| Grupo de fórmulas | Preparação | Indicação registrada |
|---|---|---|
| 1 | macerado de 4,5 g em 500 mL | dor articular leve |
| 2 | macerado de 1,5 g em 250 mL | distensão abdominal e flatulência |
| 3 | tintura, álcool 25% | dor articular leve |
| 4 | extrato fluido, álcool 30% | dor articular leve |
| 5 | cápsula com 435 mg de raiz | dor articular leve |
| 6, 9, 11, 13 | cápsulas de extrato seco | dor articular leve |
| 8, 12 | cápsulas de extrato seco | queixa digestiva |
| 7, 10, 14 | cápsulas de extrato | as duas indicações, com doses diferentes |
Repare no par mais instrutivo do documento. As fórmulas 11 e 12 são o mesmo extrato — seco, hidroetílico, álcool a 30%, mesma relação droga-extrato de 2,6-4:1 — e recebem doses diárias diferentes: 800 mg a 1,6 g para dor articular, 420 a 840 mg para o desconforto digestivo. O mesmo material, na metade da dose, muda de finalidade.
O detalhe do preparo dos dois macerados está em chá de garra-do-diabo, e o da tintura em tintura de garra-do-diabo.
O que a Europa não concedeu, apesar de 4.618 pacientes
Aqui está o dado que muda a leitura de tudo o que se lê sobre esta planta. A monografia europeia tem duas colunas em cada seção — well-established use e traditional use. Na garra-do-diabo, a coluna de uso bem estabelecido está vazia da seção 2 à seção 6, sem uma linha sequer.
Isso não é por falta de estudo. O relatório de avaliação registra, na seção de exposição de pacientes, uma frase seca:
“Summarising the efficacy studies 4618 patients received devil’s claw root preparations.”
Quatro mil seiscentos e dezoito pacientes, e a conclusão do comitê é esta:
“The available clinical data is considered insufficient to support the well-established use for this herb.”
Ou seja: existe uma quantidade de gente estudada que quase nenhuma planta deste site tem, e mesmo assim o que ficou registrado foi uso tradicional — aceito porque a planta é usada há pelo menos 30 anos, dos quais 15 dentro da União Europeia, e não porque os ensaios convenceram. A razão está no desenho desses estudos, e ela é detalhada em garra-do-diabo para dor nas articulações.
Vale o contraste com o salgueiro, a outra planta que este site cobre para a mesma queixa: lá a coluna de uso bem estabelecido está preenchida — só que para dor lombar, não para articulação.
O amargo é o mecanismo, e ele explica a proibição
Os constituintes característicos da raiz são glicosídeos iridoides, de 0,5 a 3%, com o harpagosídeo à frente. O relatório europeu os descreve com um adjetivo: “extremely bitter”.
Esse amargor é a base declarada da indicação digestiva. A conclusão geral do relatório sobre farmacologia clínica diz que o vínculo entre o amargor da raiz e o uso para estimular apetite e aliviar distúrbios digestivos está descrito em pelo menos seis referências, e que a garra-do-diabo é tratada como as demais plantas amargas do repertório europeu.
O problema é que o mesmo mecanismo produz a proibição. A seção de contraindicações do relatório explica por que a úlcera entra na lista:
“Harpagophyti radix is contraindicated in case of gastric or duodenal ulcer due to the drug stimulation of gastric juice secretion.”
Estimular secreção gástrica é o efeito desejado na dispepsia e o efeito temido na úlcera. É a mesma frase farmacológica lida de dois jeitos, e é por isso que a contraindicação não é cautela de bula. A lista inteira de quem fica de fora está em quem não pode tomar garra-do-diabo; o funcionamento da via onde isso acontece, em como funciona o sistema digestório.
Duas espécies no mesmo nome, e provavelmente não é a que você pensa
A monografia aceita duas espécies: H. procumbens e H. zeyheri. Elas não são idênticas. O teor de harpagosídeo, que é o marcador analítico da Farmacopeia Europeia, é de 0,8 a 3,0% em H. procumbens e de 0,7 a 1,7% em H. zeyheri — no topo da faixa, a segunda espécie tem pouco mais da metade da primeira. A raiz seca precisa conter no mínimo 1,2% de harpagosídeo para atender à monografia de qualidade da Farmacopeia Europeia, e o limite inferior da faixa da H. zeyheri fica abaixo disso.
E há um achado do relatório que raramente aparece em português. Uma investigação do New York Botanical Garden, citada no documento como Gafner, 2015, aplicou DNA barcoding a suplementos alimentares comercializados e encontrou H. zeyheri em todas as amostras testadas: sozinha em 81% delas e misturada a H. procumbens nos outros 19%.
A espécie estampada no rótulo costuma ser a primeira; a que estava dentro do frasco, na amostragem daquele estudo, era sempre a segunda. Nenhum dos documentos consultados transforma isso em advertência de segurança — as duas espécies estão na mesma monografia —, mas é um dado relevante para quem imagina estar comprando um teor padronizado.
Da raiz do Kalahari ao vidro da farmácia
A planta é uma herbácea perene que cresce naturalmente no deserto do Kalahari e nas estepes da Namíbia, no sudoeste africano. O nome vem do fruto: uma cápsula lenhosa coberta de espinhos curvos que, ao se partir, tomam aspecto de garra — daí Harpagophytum, do grego harpagos, gancho de abordagem.
O que se usa não é a garra: é o tubérculo secundário da raiz, que contém aproximadamente o dobro de harpagosídeo do tubérculo primário. Segundo dados da CITES citados no relatório, as importações europeias de raiz vinda da Namíbia aumentaram mais de seis vezes entre 2011 e 2012, com a Alemanha como principal compradora.
Na medicina tradicional do sul da África, a raiz era usada como tônico amargo para indigestão, e a infusão, contra febre e dores reumáticas. As duas linhas sobreviveram nas duas indicações que hoje constam do documento brasileiro. O índice das outras espécies já cobertas aqui, com dose, preparo e contraindicação de cada uma, fica em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Garra-do-diabo é a mesma coisa que unha-de-gato?
Não. A garra-do-diabo é Harpagophytum procumbens ou Harpagophytum zeyheri, da família Pedaliaceae, e o que se usa é a raiz tuberosa secundária. A confusão vem do nome: as duas plantas ganharam apelido de garra, mas são espécies, famílias e continentes diferentes, com monografias diferentes.
A planta se chama garra-do-diabo por causa da raiz?
Por causa do fruto. O relatório europeu explica que o fruto é uma cápsula protegida por espinhos curvos que, ao se abrir, ficam com aspecto de garra. O gênero Harpagophytum vem do grego harpagos, gancho de abordagem. A parte usada como medicamento é a raiz, que não tem nada de garra.
Existe garra-do-diabo com registro de medicamento no Brasil?
O Formulário de Fitoterápicos descreve preparações manipuladas em farmácia, que são coisa diferente de um medicamento industrializado com registro. São 14 fórmulas, com indicação, dose e prazo próprios para cada uma. O que se compra como suplemento em cápsula não segue necessariamente nenhuma delas.
Dá para plantar garra-do-diabo no Brasil?
A espécie é nativa do deserto do Kalahari e das estepes da Namíbia, no sul da África, e a raiz consumida na Europa é importada de lá. Nenhum dos documentos consultados descreve cultivo comercial fora da região de origem, e a matéria-prima do mercado mundial continua vindo de coleta africana.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT038-00, Harpagophytum procumbens DC. ex Meissn. e/ou Harpagophytum zeyheri Decne.: as 14 fórmulas (dois macerados, uma tintura, um extrato fluido, uma cápsula de droga vegetal e nove cápsulas ou comprimidos de derivado), a repartição das indicações entre alívio da dor articular leve e queixas gastrintestinais leves, o uso adulto, a contraindicação em gestação, lactação, úlcera gástrica ou duodenal, doenças cardiovasculares e menores de 18 anos, e os limites de quatro e duas semanas de uso
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627057/2015, 12 de julho de 2016): as duas indicações de uso tradicional, a coluna de uso bem estabelecido vazia em todas as seções, as duas únicas contraindicações (hipersensibilidade e úlcera gástrica ou duodenal ativa) e a posologia das doze preparações listadas
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627058/2015): a conclusão de que os dados clínicos disponíveis são insuficientes para sustentar o uso bem estabelecido, os cerca de 4.618 pacientes expostos nos estudos de eficácia, o teor de harpagosídeo de 0,8 a 3,0% em H. procumbens contra 0,7 a 1,7% em H. zeyheri, a origem do nome no fruto em forma de gancho, e o estudo de DNA barcoding do New York Botanical Garden que encontrou H. zeyheri em todas as amostras de suplemento testadas
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026