Chá de garra-do-diabo: o preparo leva 8 horas
O chá de garra-do-diabo não se prepara em minutos. A orientação da Anvisa e a da EMA coincidem na parte que surpreende: depois de verter a água fervente, a raiz fica oito horas em maceração, em temperatura ambiente. E existem duas gramaturas diferentes, porque existem duas indicações diferentes.
O passo a passo, exatamente como está escrito
A seção “Orientações para o preparo” da FT038-00 descreve as duas fórmulas com a mesma técnica:
- verter água fervente sobre a droga vegetal seca e rasurada — 500 mL na fórmula 1, 250 mL na fórmula 2;
- arrefecer, mantendo em maceração por 8 horas em temperatura ambiente;
- após esse período, espremer o material vegetal e utilizar o líquido obtido;
- dividir em três partes e tomar uma parte três vezes ao dia.
Três coisas nesse roteiro não se parecem com chá caseiro. A água quente entra, mas o preparo termina frio. O material é espremido, não apenas coado. E o rendimento não é uma xícara: é o dia inteiro, fracionado.
O passo 3 é o mais fácil de pular e o que mais custa. Espremer a raiz depois de oito horas recupera o líquido retido no material vegetal — sem isso, parte da dose pesada no começo fica no bagaço. O vocabulário de preparo das outras espécies, com infusão, decocção e maceração lado a lado, está em como fazer chá.
Por que 4,5 g numa fórmula e 1,5 g na outra
Não é margem de erro nem faixa de dose. São duas indicações, e a quantidade de raiz é o que as separa:
| Fórmula 1 | Fórmula 2 | |
|---|---|---|
| Raiz por dia | 4,5 g | 1,5 g |
| Água | 500 mL | 250 mL |
| Raiz por dose | 1,5 g | 0,5 g |
| Indicação | dor articular leve | distensão abdominal e flatulência |
| Prazo | 4 semanas | 2 semanas |
Um triplica o outro. Preparar a fórmula da dor articular e tomá-la para gases é ingerir o triplo da raiz prevista para aquela finalidade, com o triplo de amargo — e o amargo, nesta planta, é o princípio ativo. Os detalhes do que a indicação digestiva cobre estão em gases e estufamento: o que pode ser.
Essa divisão vem de longe. A literatura alemã reunida no relatório europeu usa a mesma régua desde os anos 1980: 1,5 g de droga para falta de apetite e queixa dispéptica, 4,5 g para o restante. O documento brasileiro herdou os dois números sem alterar nenhum.
O volume de água é convenção — o peso da raiz não é
Este é o detalhe que o próprio relatório europeu registra em nota de rodapé, e que muda o modo de ler a receita. Ao descrever a fórmula digestiva, o texto informa 250 mL e acrescenta:
“The quantity of water is according to general practice to prepare a tea.”
Ou seja: a água segue a prática comum de preparo de chá, não um cálculo farmacotécnico. E há prova disso na própria bibliografia: as obras de referência citadas no relatório — as mesmas que a Anvisa lista — preparam os mesmos 4,5 g de raiz em 300 mL de água, não em 500 mL.
O que isso significa na prática: o número que precisa ser respeitado é o da balança, não o do copo medidor. Quem tem 4,5 g de raiz e 400 mL de água tem a dose diária da fórmula 1 em três porções menores. Quem tem 500 mL de água e uma colher “a olho” de raiz não tem dose nenhuma — tem um chá de concentração desconhecida.
O estômago é um problema conhecido desta planta
Aqui está o achado mais desconfortável do lote, e ele está escondido numa referência do Formulário.
Nas orientações das fórmulas em cápsula, o documento brasileiro repete dez vezes a mesma frase: “Para este IFAV, recomenda-se a utilização da forma farmacêutica gastrorresistente”, citando Soulimani e colaboradores, 1994. Abrindo esse estudo (PMID 7736345), entende-se o motivo. Em ratos, o extrato aquoso da planta:
- reduziu o edema induzido por carragenina quando administrado por via intraperitoneal (45% e 65% de inibição, a 400 e 800 mg/kg);
- reduziu o edema quando administrado por via intraduodenal (43%, 60% e 41%);
- não funcionou quando administrado por via oral, por gavagem.
A explicação dos autores é o tempo de trânsito no estômago, onde o pH é ácido, com queda da atividade do extrato — hipótese que eles reforçam citando trabalhos em que o extrato tratado a pH 1 e 37 °C perdeu atividade.
A cápsula gastrorresistente existe justamente para atravessar o estômago fechada. O chá não tem como fazer isso. O documento não desautoriza as fórmulas 1 e 2 por causa disso — elas continuam registradas, com indicação e dose próprias, e o estudo foi feito em animais com um extrato específico. Mas quem escolhe o chá precisa saber que a recomendação de proteção gástrica existe no mesmo documento, e que ela alcança as cápsulas, não a xícara. Quem prefere a forma líquida concentrada encontra a alternativa em tintura de garra-do-diabo.
Quando parar e quando procurar ajuda
Os prazos são curtos e diferentes conforme o motivo: quatro semanas para dor articular, duas semanas para a queixa digestiva. A monografia brasileira escreve isso como proibição — “não usar por mais de quatro semanas” —, enquanto a europeia escreve como gatilho de consulta. Vale a redação mais rígida.
Procure avaliação médica antes de começar se houver cálculo biliar, e no mesmo dia se a dor articular vier acompanhada de inchaço, vermelhidão ou febre — essa combinação está expressamente excluída do alcance da preparação. O quadro completo de vedações está em quem não pode tomar garra-do-diabo, e o que se espera (e o que não se espera) da planta na articulação está em garra-do-diabo para dor nas articulações.
Perguntas frequentes
Posso deixar o macerado descansando na geladeira?
A orientação escrita é manter em maceração por oito horas em temperatura ambiente, depois de verter a água fervente e deixar arrefecer. O documento não descreve variação em geladeira, e o que não está descrito não vira recomendação aqui. O que se pode dizer é que o preparo não é feito quente.
Quantas xícaras por dia?
Nenhuma das duas fórmulas fala em xícara. Ambas mandam dividir o líquido preparado em três partes iguais e tomar uma parte três vezes ao dia. Na fórmula da dor articular, cada parte tem cerca de 167 mL; na digestiva, cerca de 83 mL. O volume varia; o que é fixo é a raiz pesada no começo.
Dá para adoçar ou misturar com outro chá?
Nenhum dos documentos consultados trata de adoçante ou de mistura com outras espécies, e a monografia descreve a preparação com um único ingrediente vegetal. Misturar plantas soma contraindicações e interações sem somar informação: cada espécie tem faixa etária, prazo e restrição própria.
O chá tem álcool?
Não. As fórmulas 1 e 2 usam apenas raiz e água, e por isso são as únicas preparações orais da monografia sem restrição adicional por teor alcoólico. A tintura e o extrato fluido levam álcool etílico e carregam contraindicação extra para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT038-00, Harpagophytum: as fórmulas 1 e 2 de preparação extemporânea (4,5 g de raiz em 500 mL e 1,50 g em 250 mL), a orientação de verter água fervente sobre a droga seca e rasurada, arrefecer e manter em maceração por 8 horas em temperatura ambiente, espremer o material e dividir o líquido em três partes, e a recomendação de forma farmacêutica gastrorresistente para as fórmulas em cápsula
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627057/2015): as duas posologias em chá, com 4,5 g em 500 mL para a indicação de dor articular e 1,5 g em 250 mL para a indicação digestiva, ambas com tempo de infusão de 8 horas e divisão em três doses, e os limites de quatro e duas semanas de sintoma persistente
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627058/2015): a nota de rodapé declarando que a quantidade de água segue a prática geral de preparo de chá, as doses de 1,5 g por dose única para dor articular e 0,5 g para a indicação digestiva, e o registro das fontes que preparam os mesmos 4,5 g em 300 mL de água
- Soulimani R, Younos C, Mortier F, Derrieu C. The role of stomachal digestion on the pharmacological activity of plant extracts, using as an example extracts of Harpagophytum procumbens. Can J Physiol Pharmacol. 1994;72(12):1532-1536 (PMID 7736345) — o estudo citado pelo Formulário para recomendar cápsula gastrorresistente: o extrato aquoso reduziu o edema em ratos por via intraperitoneal e intraduodenal, mas foi ineficaz quando administrado por via oral, resultado atribuído ao pH ácido do estômago
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026