Pular para o conteúdo
Guia da Saúde

Garra-do-diabo na gravidez: proibida, e há motivo

Grávida não pode tomar garra-do-diabo. Até aí, é a mesma frase de dezenas de plantas. O que distingue esta é o que existe por trás dela: na maioria dos casos a proibição se apoia em falta de dado; aqui há, além da falta de dado, um efeito sobre o músculo uterino medido em laboratório — e um uso tradicional africano que aponta exatamente para o mesmo lugar.

A contraindicação brasileira cita a Europa — e a Europa não contraindica

Vale ler as duas redações lado a lado, porque elas não dizem a mesma coisa.

A advertência da FT038-00 é uma frase única, com a fonte no fim:

“O uso é contraindicado durante a gestação, lactação e para pessoas portadoras de úlcera gástrica ou duodenal, ou que apresentem doenças cardiovasculares, assim como para menores de 18 anos de idade (EMA, 2016).”

Abrindo a monografia europeia de 2016, a seção 4.3 — a das contraindicações — tem duas linhas: hipersensibilidade à substância ativa e pacientes com úlcera gástrica ou duodenal ativa. Gestação e lactação não estão lá. Estão na seção 4.6, com outra fórmula:

“Safety during pregnancy and lactation has not been established. In the absence of sufficient data, the use during pregnancy and lactation is not recommended.”

Formulário brasileiroMonografia europeia
Gestaçãocontraindicadouso não recomendado
Amamentaçãocontraindicadouso não recomendado
Seção do documentoadvertências4.6, fertilidade e gravidez

“Contraindicado” e “não recomendado” não são sinônimos no vocabulário regulatório: o primeiro é vedação, o segundo é precaução. A Anvisa promoveu ao patamar mais alto e creditou a promoção à EMA. Este site publica a divergência porque ela é real — e mantém a régua brasileira, que é a que vale aqui. A mesma diferença de patamar aparece em outros itens da lista, reunidos em quem não pode tomar garra-do-diabo.

O que se mediu no músculo uterino

Este é o dado próprio desta página, e ele não está em nenhuma das duas monografias — está na seção de toxicidade reprodutiva do relatório de avaliação europeu, que resume o trabalho de Mahomed e Ojewole, de 2009 (PMID 19907121).

Os autores aplicaram extrato aquoso da raiz secundária a tiras longitudinais de corno uterino de ratas, e observaram:

  • em ratas não gestantes tratadas com estrogênio, aumento do tônus basal e contrações rítmicas fortes, dependentes da concentração, na faixa de 10 a 800 µg/mL;
  • em ratas gestantes — nos estágios inicial, médio e tardio —, aumento significativo do tônus basal e contração das tiras, na mesma faixa;
  • de 200 a 1.000 µg/mL, contrações fortes em todas as preparações, gestantes ou não.

A conclusão publicada é que o extrato “possesses spasmogenic, uterotonic action on mammalian uterine muscles”.

Duas ressalvas honestas, que o próprio relatório europeu faz questão de registrar: isso é in vitro, em tecido isolado, e não existe nenhum dado in vivo em animais fêmeas. Concentração em banho de órgão não é dose ingerida, e tira de músculo não é gestação. O achado não prova dano em pessoas — ele mostra que a restrição, nesta espécie, tem uma direção farmacológica plausível, o que é mais do que se pode dizer da maioria das plantas com a mesma vedação.

O uso tradicional aponta para o mesmo efeito

E aqui a coisa fecha de um jeito incômodo. O motivo declarado pelos autores para investigar o útero está no próprio resumo do estudo: praticantes tradicionais de saúde da África do Sul usam a raiz secundária como remédio obstétrico para induzir ou acelerar o trabalho de parto e para expelir placenta retida. A conclusão do artigo diz que os resultados “lend pharmacological credence to the suggested folkloric obstetric uses”.

O relatório europeu registra a outra metade dessa tradição, citando Brendler e colaboradores, 2006: em várias culturas africanas, pequenas quantidades do tubérculo eram dadas a gestantes perto do parto para eliminar a dor.

Repare no que está acontecendo: a mesma planta, na mesma cultura de origem, é usada para aliviar a dor do fim da gestação e para acelerar o parto. Não são usos independentes que se contradizem — são dois nomes para uma raiz que age no útero. É exatamente por isso que “usam há séculos na África” não funciona como argumento de segurança na gravidez: o uso tradicional aqui é obstétrico e deliberado, com momento marcado, não um chá de todo dia.

Lacunas que ninguém preencheu

O relatório é explícito sobre o tamanho do buraco. Não foram realizados testes adequados de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade — e essa frase foi levada para a seção 5.3 da própria monografia. A consequência prática está nas conclusões finais:

“Due to the lack of data on genotoxicity, carcinogenicity, reproductive and developmental toxicity, a list entry for Harpagophyti radix cannot be recommended.”

A espécie não entrou na lista comunitária europeia por causa dessas lacunas. Sobre lactação, o relatório não traz uma única linha de dado: nada sobre passagem para o leite, nada sobre o lactente.

Descobrir que a proibição se apoia em ausência de estudo, e não em dano documentado, não é brecha. Gravidez é o cenário em que se erra para o lado seguro — e, neste caso, o pouco que se mediu aponta para o útero. A lista das demais espécies com restrição gestacional está em chá que não pode na gravidez, e a versão para lactantes em chá que não pode amamentando.

Álcool, nas formas líquidas

Duas das 14 fórmulas somam uma segunda restrição, e o motivo não é a planta. O extrato fluido recebe advertência própria no Formulário:

“O extrato fluido é especialmente contraindicado para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação.”

A tintura, preparada com álcool etílico a 25%, cai na mesma regra geral do documento para preparações alcoólicas. A composição das duas está em tintura de garra-do-diabo.

Quando procurar o serviço de saúde

Procure avaliação no mesmo dia se, estando grávida ou amamentando, aparecerem contrações, cólicas, sangramento, dor abdominal forte, vômito persistente, urticária, falta de ar ou inchaço de rosto e boca depois de tomar qualquer preparação da planta. E leve à consulta de pré-natal todo chá que tenha sido tomado, inclusive os que parecem inofensivos.

Dor articular e dor lombar na gestação são queixas comuns e têm manejo próprio, avaliado caso a caso — não se resolvem trocando o analgésico prescrito por uma raiz com efeito uterino descrito. A ficha completa da espécie está em garra-do-diabo, e a restrição por idade, que tem raiz semelhante, em garra-do-diabo para crianças.

Perguntas frequentes

Tomei antes de descobrir a gravidez. O que faço?

Leve a informação à consulta de pré-natal, com a quantidade e por quantos dias. Não há relato de dano em gestação humana nos documentos consultados, e o efeito descrito é de laboratório, em tecido isolado de rata. Isso não autoriza continuar: é motivo para conversar com quem acompanha a gestação, não para se assustar.

Posso usar pomada ou gel de garra-do-diabo estando grávida?

A monografia brasileira registra apenas uso oral para esta espécie, e não descreve nenhuma fórmula de uso externo. Sem fórmula descrita não há dose, concentração nem estudo de absorção para citar, e este site não preenche essa lacuna com suposição. A pergunta é para o pré-natal.

E na amamentação, a restrição é a mesma?

É. A monografia brasileira contraindica gestação e lactação na mesma frase, e o relatório europeu registra ausência total de dados sobre passagem para o leite. Não existe estudo dizendo que passa nem estudo dizendo que não passa — e é essa ausência, e não um dano medido, que sustenta a restrição.

A planta atrapalha para engravidar?

A monografia europeia responde com uma linha: não há dados de fertilidade disponíveis. Testes adequados de toxicidade reprodutiva também não foram realizados, e essa lacuna é um dos motivos declarados pelos quais a espécie não foi recomendada para a lista comunitária europeia.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT038-00, Harpagophytum: a advertência que abre com uso adulto e contraindica o uso durante a gestação e a lactação, creditando a restrição à monografia europeia de 2016, e a contraindicação especial do extrato fluido para gestantes e lactantes em função do teor alcoólico
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627057/2015), seções 4.3 e 4.6: as duas únicas contraindicações formais, hipersensibilidade e úlcera gástrica ou duodenal ativa, e o texto da seção 4.6, que registra que a segurança na gravidez e na lactação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado, sem dados de fertilidade disponíveis
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627058/2015), seções 2.2, 3.3.5 e 6: o registro de que em várias culturas africanas pequenas quantidades do tubérculo eram dadas a gestantes perto do parto para eliminar a dor, a ausência de dados in vivo em fêmeas, a constatação de que testes adequados de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade não foram realizados, e a recusa de inclusão da espécie na lista comunitária por causa dessas lacunas
  4. Mahomed IM, Ojewole JA. Uterotonic effect of Harpagophytum procumbens DC (Pedaliaceae) secondary root aqueous extract on rat isolated uterine horns. J Smooth Muscle Res. 2009;45(5):231-239 (PMID 19907121) — o estudo in vitro em que o extrato aquoso da raiz secundária, de 10 a 800 µg/mL, aumentou o tônus basal e provocou contrações rítmicas em tiras de corno uterino de ratas nos estágios inicial, médio e tardio de gestação, e o registro de que praticantes tradicionais sul-africanos usam a raiz para induzir ou acelerar o parto e expelir placenta retida

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026