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Guia da Saúde

Tintura de garra-do-diabo: 3 mL por dia, no máximo

A tintura de garra-do-diabo tem fórmula oficial — 20 g de raiz em 100 mL de álcool etílico a 25% — e um teto diário curto: 3 mL. Fazendo a conta que o documento não faz, esses 3 mL carregam 0,6 g de raiz por dia, contra os 4,5 g do chá para a mesma indicação. Sete vezes e meia de diferença, no mesmo documento.

A fórmula e o modo de tomar

O Formulário descreve a fórmula 3 em duas linhas de tabela e uma de preparo:

  • raiz: 20 g;
  • álcool etílico a 25%: quantidade suficiente para 100 mL;
  • preparo: tintura a partir da raiz rasurada, com álcool etílico a 25%, seguindo a RDE 1:5;
  • em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes.

E o modo de usar:

“Tomar 0,5 a 1 mL da tintura, diluídos em 50 mL de água, três vezes ao dia. A dose máxima diária é 3 mL.”

Dois pontos da posologia costumam se perder. O primeiro é a diluição obrigatória: 50 mL de água para cada tomada, o que faz parte da dose registrada. O segundo é o teto: três tomadas de 1 mL fecham exatamente os 3 mL, e não há margem acima disso.

A recomendação de conservantes é acréscimo brasileiro — a monografia europeia não trata do assunto. A lógica é de estabilidade: 25% de álcool é pouco para conservar sozinho. Como se faz uma tintura, em termos gerais, está em como fazer tintura, e a diferença formal entre as duas preparações alcoólicas da espécie, em diferença entre tintura e extrato.

A conta que muda a percepção: 0,6 g contra 4,5 g

Uma tintura 1:5 contém uma parte de droga vegetal para cinco de líquido. Cada mililitro dessa preparação carrega, portanto, 0,2 g de raiz. No teto de 3 mL por dia, isso dá 0,6 g.

Agora compare com as outras fórmulas da mesma indicação — dor articular leve — traduzidas todas para raiz equivalente por dia:

FórmulaPreparaçãoRaiz equivalente por dia
1macerado de 4,5 g em 500 mL4,5 g
5cápsula com 435 mg, três vezes ao dia1,305 g
4extrato fluido 1:1, dose de 1,03 gcerca de 1,03 g
3tintura 1:5, teto de 3 mL0,6 g

O intervalo entre os extremos é de 7,5 vezes, para a mesma indicação, no mesmo documento, com a mesma duração de tratamento. Não é erro: cada fórmula veio de uma tradição de uso diferente, e as monografias registram o que se usava, não o resultado de um cálculo de equivalência. O relatório europeu deixa isso explícito ao listar as posologias preparação por preparação, cada uma com sua própria origem bibliográfica.

O que isso significa para quem escolhe: as fórmulas não são intercambiáveis, e a quantidade de planta que entra no corpo depende muito mais da forma escolhida do que da indicação. A gramatura do chá está em chá de garra-do-diabo.

A tintura serve para uma coisa só

Nas duas monografias, a tintura aparece apenas na lista da indicação de dor articular leve. Ela não recebeu a indicação digestiva — e nisso se separa das outras cinco fórmulas que a espécie tem para o eixo digestivo, além das três que atendem às duas indicações ao mesmo tempo.

O detalhe histórico está no relatório europeu, e é uma perda silenciosa. As obras de referência que alimentaram a monografia previam, sim, dose de tintura para o eixo digestivo:

  • a British Herbal Pharmacopoeia de 1992 registra, para dispepsia e falta de apetite, 1 mL de tintura 1:5 em etanol 25% — exatamente a mesma preparação da fórmula brasileira;
  • a ESCOP, em 2009, registra 3 mL de tintura 1:10 em etanol 25% para a mesma finalidade.

Na monografia de 2016, a tintura ficou de fora da indicação 2. Quem procura a preparação para distensão abdominal e flatulência precisa de outra fórmula, e a mais simples é o macerado de 1,5 g em 250 mL.

Extrato fluido: a outra preparação alcoólica, com restrição extra

A fórmula 4 é próxima e não deve ser confundida:

Tintura (fórmula 3)Extrato fluido (fórmula 4)
Raiz20 g100 g
Solventeálcool etílico 25% q.s.p. 100 mLálcool etílico 30% q.s.p. 100 mL
Relação1:51:1
Dose0,5 a 1 mL, três vezes ao dia1,03 g, uma vez ao dia
Máximo diário3 mLdose única

O extrato fluido é cinco vezes mais concentrado em droga vegetal e recebe, no Formulário, uma advertência que a tintura não recebe nominalmente:

“O extrato fluido é especialmente contraindicado para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação.”

Na prática, a regra geral do documento estende a mesma restrição a qualquer preparação alcoólica, tintura inclusive. O conjunto das vedações está em quem não pode tomar garra-do-diabo.

O que esperar, e por quanto tempo

O prazo é o da indicação, não o da forma: quatro semanas para dor articular. Passado esse período sem melhora — ou com piora a qualquer momento —, a instrução é procurar avaliação.

Procure serviço de saúde no mesmo dia se a dor articular vier com inchaço, vermelhidão ou febre: a monografia manda examinar essa combinação, que está fora do alcance da preparação. E suspenda ao primeiro evento adverso, conforme a regra escrita do documento. O que se sabe sobre eficácia nessa indicação, com os ensaios abertos um a um, está em garra-do-diabo para dor nas articulações; a ficha da espécie, em garra-do-diabo.

Perguntas frequentes

Posso tomar a tintura pura, sem diluir?

A fórmula manda diluir de 0,5 a 1 mL em 50 mL de água antes de tomar, e essa instrução faz parte da posologia registrada, não é sugestão de sabor. Tomar puro concentra num gole uma preparação alcoólica e extremamente amarga, sem qualquer respaldo no documento.

Tintura de garra-do-diabo serve para gases?

Não segundo os documentos atuais. A tintura aparece somente na lista da indicação de dor articular, nas duas monografias. Curiosamente, a literatura de referência dos anos 1990 previa dose de tintura para dispepsia e falta de apetite, e essa possibilidade não foi mantida na monografia europeia de 2016.

Por que a tintura precisa de conservante?

Porque o teor alcoólico é baixo. O álcool a 25% da fórmula não basta para garantir a conservação, e o Formulário registra essa recomendação para a tintura e para o extrato fluido da espécie. É um acréscimo do documento brasileiro: a monografia europeia não trata do assunto.

Quanto de álcool tem na dose máxima?

Três mililitros de uma preparação a 25% contêm cerca de 0,75 mL de etanol por dia. É pouco em volume absoluto, mas não é zero, e é o motivo pelo qual gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos ficam de fora das preparações alcoólicas em todo o Formulário.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT038-00, Harpagophytum: a fórmula 3, com 20 g de raiz e álcool etílico a 25% q.s.p. 100 mL, preparada a partir da raiz rasurada seguindo a RDE 1:5; a fórmula 4, o extrato fluido com 100 g de raiz e álcool etílico a 30% q.s.p. 100 mL na RDE 1:1; a recomendação de conservantes em razão do baixo teor alcoólico das duas; a posologia de 0,5 a 1 mL da tintura diluídos em 50 mL de água três vezes ao dia, com máximo diário de 3 mL; a dose diária única de 1,03 g do extrato fluido; e a contraindicação especial do extrato fluido para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627057/2015), seções 2 e 4.2: a tintura descrita como preparação l), com razão droga-solvente 1:5 e etanol a 25% V/V, listada apenas sob a indicação 1, com dose única de 0,5 a 1 mL três vezes ao dia e dose diária de até 3 mL; e o extrato líquido c), DER 1:1 em etanol 30% V/V, com dose diária única de 1,03 g, também restrito à indicação 1
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627058/2015), seção 2.2: as doses históricas de tintura registradas na literatura de referência, incluindo a British Herbal Pharmacopoeia de 1992, que previa 1 mL de tintura 1:5 em etanol 25% para dispepsia e falta de apetite, e a ESCOP de 2009, que prevê 3 mL de tintura 1:10 em etanol 25% para a mesma finalidade

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026