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Guia da Saúde

Melissa para insônia: auxiliar o sono não é tratar

A indicação existe, mas a redação importa: a monografia europeia autoriza a melissa para auxiliar o sono“to aid sleep” —, e não para tratar insônia. O Formulário brasileiro usa a expressão “insônia leves”. Em nenhum dos dois há ensaio clínico feito em pessoas com insônia diagnosticada: zero.

Duas redações, dois tamanhos de promessa

DocumentoTexto da indicação
Formulário de Fitoterápicos (Anvisa)auxiliar no alívio da ansiedade e insônia leves
Monografia EMA/HMPC/196745/2012relief of mild symptoms of mental stress and to aid sleep

Auxiliar o sono é uma afirmação sobre facilitar o adormecer. Tratar insônia é uma afirmação sobre corrigir um distúrbio do sono, com critério diagnóstico, duração e consequências diurnas. Os produtos autorizados nos países europeus repetem a primeira formulação — o chá alemão registrado diz “para auxiliar o sono”, o polonês diz “tradicionalmente para auxiliar o sono”, o britânico diz “para alívio temporário de sintomas de ansiedade leve, para auxiliar o sono e para queixas digestivas leves”. Nenhum deles diz tratar.

O selo dessa indicação é o de uso tradicional nos dois reguladores, com tudo o que isso implica — o que está detalhado em melissa para ansiedade.

Não existe estudo de dose-resposta. Literalmente

O relatório de avaliação europeu tem uma seção chamada Dose response studies. Seu conteúdo:

“No data available.”

Isso significa que ninguém comparou doses para descobrir qual delas produz sono e a partir de quanto. A faixa de 1,5 a 4,5 g por xícara não veio de um experimento de dose: veio da convergência de manuais de fitoterapia publicados entre 1938 e 2006, como se vê em chá de melissa. É consenso de literatura, não curva de resposta.

O estudo que mais se aproxima do assunto é o ensaio aberto de 15 dias com 20 voluntários que tinham ansiedade leve a moderada e distúrbios do sono (Cases et al., 2011). Nele, o extrato padronizado reduziu a insônia em 42% e levou 17 dos 20 participantes à remissão desse sintoma — o maior efeito observado no estudo. O comitê europeu considerou o ensaio insuficiente por ser aberto, sem grupo controle e pequeno demais. Além disso, a insônia ali foi medida por um item de uma escala de depressão aplicada por entrevistador, e não por polissonografia ou diário de sono.

O sinal mais consistente vem do laboratório, com barbitúrico

Se há um lugar onde o efeito sedativo da melissa aparece com clareza, é no modelo animal clássico de sedação — e ele explica, de quebra, a única interação que a monografia brasileira registra.

O que o relatório europeu descreve:

  • um extrato etanólico a 30% teve efeito sedativo dependente da dose em camundongos, até 25 mg/kg por via intraperitoneal;
  • o mesmo extrato, em 3 a 6 mg/kg, induziu sono em animais que haviam recebido uma dose sub-hipnótica de pentobarbital — dose que sozinha não faria o animal dormir — e prolongou o sono induzido pelo barbitúrico;
  • o óleo essencial não teve efeito sedativo por via intraperitoneal, mas por via oral mostrou efeito sedativo e narcótico a partir de 3,16 mg/kg;
  • in vitro, o óleo essencial inibiu a ligação de um radioligante ao canal do receptor GABA-A (IC50 de 0,040 mg/mL), sem efeito sobre receptores NMDA, AMPA ou nicotínicos.

Compare agora com a advertência da Anvisa: a melissa “pode aumentar o efeito hipnótico do pentobarbital e do hexobarbital”. A advertência não caiu do céu — é a leitura direta desse experimento, transportada para a bula. É o exemplo mais limpo, nesta planta, de um achado pré-clínico virando alerta de interação.

O preço da sedação: atenção e memória

Existe um dado que a conversa sobre chá calmante nunca inclui, e ele vem do ensaio mais bem desenhado da série: 20 voluntários saudáveis, doses únicas de 300, 600 e 900 mg de extrato padronizado, em estudo randomizado, duplo-cego e cruzado, com avaliação a 1, 2,5, 4 e 6 horas (Kennedy et al., 2002).

O que apareceu:

  • calma autorrelatada aumentada nos momentos mais precoces — pela menor das três doses;
  • estado de alerta significativamente reduzido em todos os momentos avaliados — pela maior das doses;
  • quedas nos fatores de memória secundária e memória de trabalho, dependentes de tempo e de dose;
  • melhora sustentada na acurácia da atenção com 600 mg.

O padrão é o de um sedativo leve: sossega e, na dose alta, embota. Sedação não é um efeito gratuito — vem acompanhada de menos alerta e de queda em tarefas de memória por horas. Esse é o contexto real da advertência que os dois reguladores repetem:

“May impair ability to drive and use machines. Affected patients should not drive or operate machinery.”

Quem toma melissa à noite e dirige de manhã está fora do que foi estudado — porque nada foi medido na manhã seguinte.

O limite de duas semanas é sobre a insônia, não sobre a planta

A monografia manda reavaliar se os sintomas persistirem por mais de duas semanas, e o relatório europeu admite que não há dado para fixar duração de uso: é precaução geral. Mas o prazo faz sentido clínico próprio aqui. Insônia que atravessa duas semanas deixa de ser noite ruim e passa a ser queixa que merece investigação — apneia, dor, uso de outras substâncias, transtorno de humor. Nenhum desses se resolve com infuso.

Some às duas semanas as restrições de sempre: a partir de 12 anos, como está em melissa para crianças, sem ultrapassar três doses diárias, e com atenção ao que aparece em melissa: efeitos colaterais.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. Na melissa, o efeito que se procura para dormir é exatamente o mesmo que proíbe dirigir — e reconhecer isso é o que separa uma indicação honesta de uma promessa.

Perguntas frequentes

Quanto tempo antes de deitar devo tomar o chá de melissa?

Nenhum dos documentos oficiais fixa horário. A posologia registrada é por número de doses ao dia, não por relação com a hora de dormir, e o relatório europeu registra que estudos de dose-resposta não existem. Nos ensaios com dose única em voluntários, as medidas de humor e sedação foram feitas a partir de uma hora após a ingestão, o que é o mais próximo de uma referência disponível.

Posso tomar melissa junto com melatonina ou com indutor do sono?

É a combinação a evitar sem orientação. O Formulário registra que a melissa pode aumentar o efeito hipnótico do pentobarbital e do hexobarbital, e o relatório europeu diz que a sonolência esperada aumenta em combinação com álcool, com outros sedativos ou em doses excessivas. A seção de interações da monografia europeia, no entanto, diz que não há dados disponíveis — ou seja, o que existe é alerta de precaução, não um estudo de interação.

Melissa deixa a pessoa lerda no dia seguinte?

Não há estudo de efeito residual no dia seguinte. O que existe é medição em horas: no ensaio com doses únicas em voluntários saudáveis, a redução do estado de alerta foi significativa em todos os momentos avaliados após a dose mais alta, até seis horas depois. Nada foi medido na manhã seguinte, então a resposta honesta é que ninguém verificou.

Criança que não dorme pode tomar chá de melissa?

Não. A melissa é contraindicada abaixo de 12 anos em qualquer forma, e não existe dose pediátrica registrada. O relatório europeu registra ausência total de estudos clínicos em crianças. O chá popularmente dado a criança para dormir no Brasil costuma ser de outra planta, também chamada de erva-cidreira, que tem monografia e advertências próprias.

Fontes

  1. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196745/2012): a redação da indicação 1 como auxiliar do sono e alívio de sintomas leves de estresse mental, classificada como uso tradicional, e a advertência da seção 4.7 de que a planta pode comprometer a capacidade de dirigir e operar máquinas
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196746/2012): a ausência de estudos de dose-resposta, os experimentos com pentobarbital em camundongos, o efeito sedativo do óleo essencial por via oral e a nota de que a sonolência pode aumentar com álcool, outros sedativos ou doses excessivas
  3. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT048, Melissa officinalis L.: a indicação de auxiliar no alívio da ansiedade e insônia leves, a advertência de que o produto pode comprometer a capacidade de conduzir veículos e operar máquinas e o aumento do efeito hipnótico do pentobarbital e do hexobarbital
  4. Kennedy D.O. et al. (2002), Pharmacology Biochemistry and Behavior 72(4):953-64 — ensaio randomizado, duplo-cego e cruzado com doses únicas de 300, 600 e 900 mg de extrato padronizado de Melissa officinalis em 20 voluntários saudáveis, com redução significativa do estado de alerta na dose mais alta e queda dos fatores de memória de trabalho e memória secundária
  5. Cases J. et al. (2011), Mediterranean Journal of Nutrition and Metabolism 4(3):211-218 — ensaio aberto de 15 dias em 20 voluntários com distúrbios do sono, no qual o extrato padronizado reduziu a insônia em 42% e levou 17 dos 20 participantes à remissão, com as ressalvas metodológicas apontadas pelo comitê europeu

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026