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Guia da Saúde

Melissa: para que serve segundo Anvisa e EMA

A melissa tem duas indicações registradas no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa: auxiliar no alívio da ansiedade e da insônia leves e no tratamento sintomático de queixas gastrintestinais leves, como distensão abdominal e flatulência. As duas também constam na monografia europeia — e lá as duas aparecem sob um rótulo específico: uso tradicional.

As duas indicações, e a categoria em que elas entram

A seção de indicações da monografia brasileira é curta e cobre dois territórios diferentes:

Indicação registradaO que ela abrange
Auxiliar no alívio da ansiedade e insônia leveso uso calmante, com a palavra “leves” fazendo trabalho pesado
Auxiliar no tratamento sintomático de queixas gastrintestinais levesdistensão abdominal e flatulência

A monografia europeia diz o mesmo com outras palavras — “relief of mild symptoms of mental stress and to aid sleep” e “symptomatic treatment of mild gastrointestinal complaints including bloating and flatulence”. Repare no segundo trecho: em inglês a indicação é auxiliar o sono, não tratar insônia. A diferença entre as duas formulações é o assunto de melissa para insônia.

O detalhe que muda tudo: a coluna vazia

A monografia europeia é montada em duas colunas — well-established use (uso bem estabelecido, sustentado por ensaio clínico) e traditional use (uso tradicional, aceito pelo tempo de uso). Na monografia da melissa, a coluna de uso bem estabelecido está vazia da primeira à última seção. Tudo o que está escrito lá dentro está na coluna da direita.

A conclusão geral do relatório de avaliação é literal:

“The information available is insufficient to establish that Melissa officinalis L., folium has a recognised efficacy and a ‘well-established’ medicinal use as defined in Article 10a of Directive 2001/83/EC.”

Ou seja: a indicação para ansiedade e sono existe oficialmente, mas existe porque a planta é usada assim há mais de 30 anos na Europa, e não porque ensaios clínicos demonstraram que ela funciona. É uma situação diferente da camomila, que sequer tem indicação registrada para esse fim. E é diferente de “não serve para nada”. A distinção inteira, com os ensaios que existem, está em melissa para ansiedade.

O que a folha tem dentro

O relatório europeu lista a composição com faixas, e ela ajuda a entender por que a melissa cheira a limão e por que os extratos padronizados usam um marcador só:

  • óleo essencial de 0,06 a 0,8%, com aldeídos monoterpênicos — principalmente citral, neral e citronelal, os responsáveis pelo aroma cítrico;
  • ácido rosmarínico de até 6%, junto com ácidos cafeico e clorogênico;
  • flavonoides (luteolina, quercetina, apigenina, canferol), taninos e triterpenos.

A Farmacopeia Europeia exige no mínimo 1% de ácido rosmarínico na droga vegetal seca. É o parâmetro de qualidade da folha — e é por isso que os extratos padronizados de melissa vendidos como ansiolíticos declaram teor de ácido rosmarínico no rótulo, não teor de óleo essencial.

Note também a ordem de grandeza do óleo essencial: menos de 1%. A melissa cheira forte e rende pouquíssimo óleo, o que explica por que o óleo essencial de melissa é um dos mais caros do mercado e por que boa parte do que se vende com esse nome é outra coisa.

O Formulário registra a nomenclatura popular desta espécie em uma palavra só: melissa. Não registra “erva-cidreira” — e isso não é descuido. No Brasil, o nome erva-cidreira é usado para mais de uma planta, e outra dessas espécies tem monografia separada no mesmo Formulário, com fórmula, dose e advertências próprias.

O mesmo cuidado aparece do lado europeu: a monografia da EMA lista o nome oficial da folha em cada idioma da União, e em português ele é “Melissa, folha”. Em francês, mélisse; em inglês, lemon balm; em alemão, Melissenblätter. Nenhum deles se traduz por erva-cidreira.

Consequência prática: a dose de uma não vale para a outra. Se o rótulo do produto que você comprou diz apenas “erva-cidreira”, sem o nome científico, ele não permite saber qual monografia se aplica. Procure Melissa officinalis escrito no pacote.

O que a monografia impõe junto com a indicação

Três advertências acompanham a melissa e costumam ficar de fora dos textos que só falam do efeito calmante:

  • idade mínima de 12 anos para o chá e para a cápsula; tintura e extrato fluido são de uso adulto — os números por forma estão em melissa para crianças;
  • contraindicação na gestação e na lactação, por falta de dados de segurança, detalhada em melissa na gravidez;
  • advertência de não dirigir nem operar máquinas durante o uso. É a mesma frase nos dois documentos, e é consequência direta do efeito sedativo que se espera da planta.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e no caso da melissa as três estão escritas. A lista completa de quem deve evitar está em quem não pode tomar melissa, a proporção do preparo em chá de melissa, e o índice das espécies publicadas em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Melissa e erva-cidreira são a mesma planta?

Nem sempre. O Formulário de Fitoterápicos registra a nomenclatura popular desta espécie como uma só palavra, melissa, e trata separadamente outra espécie que também é chamada de erva-cidreira no Brasil, com monografia própria, dose própria e indicação própria. Quando o rótulo diz apenas erva-cidreira, não dá para saber qual das duas está dentro do saquinho — e as monografias não são intercambiáveis.

Que parte da melissa se usa?

A folha, seca e rasurada. É o que as quatro fórmulas do Formulário especificam e é o que a Farmacopeia Europeia define como Melissae folium: a folha seca de Melissa officinalis, com no mínimo 1% de ácido rosmarínico. Talo e flor não fazem parte da droga vegetal padronizada.

Existe melissa para herpes labial?

Existe um produto, mas ele está fora da monografia. O relatório de avaliação europeu descreve uma preparação específica, um extrato aquoso seco altamente purificado na proporção 70:1, comercializada em alguns países para infecções por herpes. O próprio relatório diz que os dados desse produto não são transferíveis para os outros e por isso a indicação não entrou na monografia. Chá de melissa não é esse extrato.

Melissa tem cafeína?

Não. A melissa é da família da hortelã, não da Camellia sinensis que dá origem ao chá preto e ao chá verde. A lista de constituintes da folha no relatório europeu traz óleo essencial, flavonoides, ácidos fenólicos, taninos e triterpenos — cafeína não aparece.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT048, Melissa officinalis L.: a nomenclatura popular registrada, as quatro fórmulas (infuso de 1,5 a 4,5 g em 150 mL, tintura, extrato fluido e cápsula), as duas indicações e as advertências de idade, gestação, direção de veículos, hipotireoidismo, glaucoma e hiperplasia benigna de próstata
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196745/2012, 14 de maio de 2013): as duas indicações classificadas exclusivamente como uso tradicional, a coluna de uso bem estabelecido vazia, a posologia por preparação e a designação oficial em português da folha
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196746/2012): a composição da folha (óleo essencial de 0,06 a 0,8% com citral, neral e citronelal; ácido rosmarínico de até 6%; mínimo de 1% exigido pela Farmacopeia Europeia), a conclusão de que os dados são insuficientes para uso bem estabelecido e a nota sobre o extrato purificado usado em herpes

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026