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Guia da Saúde

Melissa para ansiedade: o que a evidência mostra

Sim, ansiedade leve é indicação registrada da melissa — no Formulário da Anvisa e na monografia europeia. Mas as duas agências a classificam como uso tradicional: aceita porque a planta é usada assim há mais de trinta anos, e não porque ensaios clínicos tenham demonstrado eficácia. A diferença entre esses dois selos é o assunto desta página.

O que está registrado, e sob qual selo

O Formulário brasileiro escreve: “Como auxiliar no alívio da ansiedade e insônia leves.” A monografia europeia escreve: “Traditional herbal medicinal product for relief of mild symptoms of mental stress and to aid sleep” — e acrescenta a frase que define o estatuto:

“The product is a traditional herbal medicinal product for use in specified indications exclusively based upon long-standing use.”

Três palavras dessa indicação merecem atenção porque delimitam o que está autorizado prometer:

  • auxiliar — não tratar, não curar;
  • leve — sintoma de ansiedade leve, não transtorno de ansiedade diagnosticado;
  • tradicional — o critério de entrada foi tempo de uso documentado, não resultado de ensaio.

Vale registrar que isso já é mais do que muitas plantas conseguem. A camomila, que no Brasil carrega a fama de calmante, não tem nenhuma indicação registrada para ansiedade — as dela são digestiva, respiratória, de boca e de pele. A melissa tem. O que ela não tem é comprovação clínica.

O único ensaio feito em pessoas ansiosas

Existe um, e só um, estudo em voluntários com queixa de ansiedade nos documentos avaliados: Cases e colaboradores, 2011. O desenho e os números:

  • 20 voluntários com transtornos de ansiedade leves a moderados, entre 18 e 70 anos;
  • 600 mg por dia, em duas tomadas, de um extrato etanólico padronizado com mais de 7% de ácido rosmarínico e mais de 15% de derivados hidroxicinâmicos;
  • 15 dias de tratamento;
  • resultados: redução de 18% nas manifestações de ansiedade (p menor que 0,01) e 15% nos sintomas associados; 95% dos participantes (19 de 20) responderam ao tratamento, e 70% (14 de 20) atingiram remissão completa da ansiedade.

À primeira vista, números excelentes. O comitê europeu leu o mesmo estudo e escreveu isto:

“However, the study was an open label design, did not include a control group, no physiological stress markers were investigated and the sample size was too small. The study is considered insufficient to support a well-established use monograph.”

Quatro objeções, todas duras: sem grupo controle — ninguém tomou placebo para comparar —, aberto — todo mundo sabia o que estava tomando —, sem marcador fisiológico e pequeno demais. Num desfecho subjetivo como ansiedade, tratado em estudo aberto e sem controle, uma queda de 18% é compatível com o efeito da expectativa. Os próprios autores reconhecem isso na conclusão: “It is critical that further studies incorporate a placebo and investigate physiological stress markers.”

O que existe em gente saudável

Fora esse, os ensaios clínicos foram feitos em voluntários sem queixa de ansiedade, com estresse provocado em laboratório. O mais informativo é o de Kennedy e colaboradores, 2004: 18 pessoas saudáveis, desenho duplo-cego, controlado por placebo e cruzado — cada participante foi o próprio controle, com uma semana de intervalo entre as doses.

Resultado: a dose de 600 mg atenuou os efeitos negativos do estresse induzido sobre o humor, com aumento significativo da calma autorrelatada e redução do estado de alerta; a de 300 mg aumentou a velocidade de processamento matemático sem perda de acurácia.

É um desenho metodologicamente muito melhor que o anterior — e ainda assim insuficiente, por dois motivos que o relatório aponta: o extrato usado era metanólico, preparação não coberta pela monografia, e estresse induzido em laboratório em pessoa saudável não é ansiedade clínica.

Por onde a planta poderia agir

Há um mecanismo plausível, e ele é do tipo que raramente aparece em texto de blog com nome e número. Numa triagem in vitro de extratos vegetais sobre as enzimas que controlam o GABA — o principal neurotransmissor inibitório do cérebro —, o extrato aquoso de melissa apresentou a maior inibição da GABA transaminase entre todos os testados, com IC50 de 0,35 mg/mL (Awad et al., 2007). Inibir essa enzima significa degradar menos GABA, o que eleva o GABA disponível — que é, grosso modo, a via em que atuam vários ansiolíticos.

O extrato padronizado usado no estudo de 2011 também reduziu comportamento do tipo ansioso em camundongos, de forma dependente da dose, sem alterar a atividade exploratória nem o ritmo circadiano dos animais.

Dois avisos honestos sobre isso: enzima em homogenato de cérebro de rato não é pessoa tomando chá, e o relatório europeu resume o conjunto pré-clínico sem entusiasmo — “Results from relevant experimental studies… are very limited. The reported pharmacological effects are not considered contradictory to the traditional uses.” Não contradizem. É o que se pode dizer.

O que isso significa na xícara

Traduzindo tudo em conduta:

  • a indicação existe e é oficial — quem toma chá de melissa para ansiedade leve está dentro do uso registrado, não fora dele;
  • a eficácia não está demonstrada por ensaio clínico adequado, e a própria conclusão europeia diz que a informação é insuficiente para estabelecer eficácia reconhecida;
  • a dose é a mesma das demais indicações, sem ajuste por sintoma: 1,5 a 4,5 g em 150 mL, até três vezes ao dia, como está em chá de melissa;
  • há prazo: duas semanas. Ansiedade que não cede nesse período é motivo para procurar ajuda, não para aumentar a xícara;
  • há advertência de não dirigir nem operar máquinas durante o uso, e uma lista de quem não pode usar em quem não pode tomar melissa.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e, quando a indicação é por uso tradicional, tem também um limite claro do que se pode prometer. O uso voltado especificamente para dormir, que tem evidência e advertências próprias, está em melissa para insônia.

Perguntas frequentes

Melissa é melhor que camomila para ansiedade?

A comparação direta nunca foi feita, mas a diferença de estatuto regulatório é grande: a melissa tem ansiedade leve como indicação registrada nas duas agências, e a camomila não tem indicação registrada para ansiedade em nenhuma das duas. Isso não prova que a melissa funcione melhor — prova que só uma das duas chegou a ter esse uso reconhecido no papel.

Melissa pode substituir o ansiolítico que eu tomo?

Não é o que a indicação registrada autoriza. Ela fala em auxiliar no alívio da ansiedade leve, e a palavra auxiliar não é enfeite: nenhum documento oficial posiciona a melissa como tratamento de transtorno de ansiedade nem como substituto de medicação prescrita. Interromper ansiolítico por conta própria é decisão que envolve risco de abstinência e é assunto de quem prescreveu.

Em quanto tempo a melissa começa a fazer efeito?

Depende do desfecho. Nos ensaios com dose única em voluntários saudáveis, as mudanças de humor foram medidas já a partir de uma hora após a tomada. No único estudo com pessoas ansiosas, o tratamento durou 15 dias antes da avaliação. Nenhuma das duas situações define um tempo oficial de resposta — a monografia só fixa quando parar de esperar: duas semanas.

Qual a dose de melissa para ansiedade?

A mesma da outra indicação. O Formulário não estabelece dose específica por indicação: as quatro fórmulas valem tanto para ansiedade e insônia leves quanto para queixas gastrintestinais leves. Para o chá, são 1,5 a 4,5 g de folha em 150 mL, até três vezes ao dia. Os extratos usados nos ensaios de ansiedade eram padronizados e não correspondem ao infuso caseiro.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT048, Melissa officinalis L.: a indicação de auxiliar no alívio da ansiedade e insônia leves, válida para as quatro fórmulas, e as advertências de reavaliação em duas semanas, de não dirigir durante o uso e de não ultrapassar as doses recomendadas
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196746/2012): a avaliação dos ensaios clínicos disponíveis, a conclusão de que todos são insuficientes para sustentar uma monografia de uso bem estabelecido e a conclusão geral de que a informação disponível não permite estabelecer eficácia reconhecida para a espécie
  3. Cases J. et al. (2011), Mediterranean Journal of Nutrition and Metabolism 4(3):211-218 — ensaio aberto de 15 dias com 20 voluntários com transtornos de ansiedade leves a moderados e distúrbios do sono, tratados com 600 mg/dia de extrato padronizado de Melissa officinalis: redução de 18% nas manifestações de ansiedade e remissão completa em 14 dos 20 participantes
  4. Kennedy D.O. et al. (2004), Psychosomatic Medicine 66(4):607-13 — ensaio duplo-cego, controlado por placebo e cruzado em 18 voluntários saudáveis submetidos a estresse induzido em laboratório, no qual a dose de 600 mg de extrato de Melissa officinalis atenuou os efeitos negativos sobre o humor, com aumento da calma autorrelatada
  5. Awad R. et al. (2007), Canadian Journal of Physiology and Pharmacology 85(9):933-42 — triagem in vitro de extratos vegetais ansiolíticos sobre enzimas do sistema GABA, na qual o extrato aquoso de Melissa officinalis apresentou a maior inibição da GABA transaminase entre os testados (IC50 de 0,35 mg/mL)

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026