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Guia da Saúde

Mil-folhas e remédios: a Europa não registra interação

A advertência do Formulário de Fitoterápicos é curta e categórica: “Não usar juntamente com anticoagulantes e anti-hipertensivos”. A monografia europeia da mesma planta, na seção destinada exatamente a esse assunto, tem duas palavras: “None reported” — nenhuma relatada. E ela repetiu essas duas palavras tanto em 2011 quanto na revisão de 2020.

As duas advertências, e a conduta que sai delas

Antes de qualquer análise, o que fazer: no Brasil vale a norma brasileira, e ela proíbe. Quem usa anticoagulante ou anti-hipertensivo não deve associar mil-folhas, em nenhuma das cinco fórmulas. O que vem a seguir explica de onde a regra veio — não a afrouxa.

As três referências que sustentam a frase

Toda advertência da FT001 traz, entre parênteses, as fontes que a embasam. A da interação medicamentosa cita três. Abrindo a lista de referências da própria monografia:

Fonte citadaO que o trabalho é
Hausen et al., 1991Artigo de Contact Dermatitis sobre lactonas sesquiterpênicas sensibilizantes da mil-folhas
Rücker et al., 1991Artigo de Archiv der Pharmazie, em alemão, sobre o guaianolídeo desencadeante da dermatite por mil-folhas
Williamson et al., 2012Interações medicamentosas de Stockley: plantas medicinais e medicamentos fitoterápicos

Duas das três são sobre alergia de pele. O artigo de Hausen, conferido no PubMed sob o PMID 1868717, investiga sensibilizantes e teste de contato em pacientes alérgicos a Compositae; não mede coagulação, não mede pressão arterial. O de Rücker, pelo próprio título alemão citado na FT001, trata do peróxido guaianolídico “auslöser der Schafgarbendermatitis” — desencadeador da dermatite por mil-folhas.

Sobra uma referência realmente sobre interação: o Stockley. Uma advertência de bula sustentada por três fontes, das quais duas falam de outro assunto, é o tipo de detalhe que só aparece quando se abre a bibliografia. O conteúdo real do artigo de Hausen — inclusive o número que importa clinicamente — está em mil-folhas: efeitos colaterais.

A achileína: a base pré-clínica que existe de verdade

Se a preocupação com coagulação tem fundamento, ele não está nos dois artigos de dermatite. Está num constituinte da planta, e o relatório de avaliação europeu é quem o nomeia:

“There is limited evidence from preclinical studies that achilleine, a constituent of yarrow, has anticoagulant activity, although the clinical relevance of this, if any, is not clear.”

A achileína é uma base alcaloídica da parte aérea. O texto europeu reconhece a evidência, qualifica-a como limitada e pré-clínica, e diz que a relevância clínica, se houver, não está clara. Na frase seguinte, conclui a seção: nenhuma interação relatada.

É uma diferença de método, não de fato. O comitê europeu só registra em 4.5 o que foi observado em pessoas; o comitê brasileiro traduz o sinal pré-clínico em proibição preventiva. Diante de um paciente anticoagulado, a postura preventiva é a defensável — e é a que está em vigor aqui.

Os estudos de pressão arterial que o avaliador descartou

A segunda metade da proibição tem história parecida. Existem dois estudos que mediram queda de pressão com extratos da planta, e o relatório europeu comenta os dois:

  • de Souza et al., 2011 — extrato hidroetanólico e artemetina reduziram a pressão de ratos por via oral, em doses de 100 a 300 mg/kg. Comentário do avaliador: as doses aplicadas foram significativamente maiores que as aceitas na monografia.
  • Khan e Gilani, 2011 — queda dose-dependente da pressão arterial em ratos, efeitos inotrópico e cronotrópico negativos em átrio de cobaia, relaxamento de aorta de coelho. Comentário do avaliador: o efeito foi observado por via intravenosa, “which is not comparable to the oral or cutaneous routes of administration accepted in the Monograph”.

E a conclusão do avaliador sobre o conjunto, escrita antes dos dois comentários: “The clinical relevance of these results is not known.”

Ou seja: injetar extrato em rato baixa pressão; beber o infuso na dose registrada é outra situação, e ninguém mediu. A proibição brasileira continua de pé, mas o motivo dela é precaução diante de um sinal, e não um efeito hipotensor demonstrado em pessoas.

O que isso muda na sua prateleira

Três consequências práticas:

  1. Anticoagulante ou anti-hipertensivo em uso: não associe. Nem infuso, nem tintura.
  2. Ausência de registro não é atestado de segurança. A seção europeia vazia significa que ninguém relatou, e o relatório é explícito ao dizer que o potencial de interação com medicamentos de efeito semelhante ou oposto deve ser considerado.
  3. A tintura tem uma camada a mais. Álcool a 45% ou 70% interage com uma lista de medicamentos que nada tem a ver com a planta — o detalhe está em tintura de mil-folhas.

Leve sempre a lista completa do que você usa, incluindo chás, a quem prescreve. O quadro geral de restrições da espécie está em quem não pode tomar mil-folhas, e o mesmo exercício feito com outra Asteraceae digestiva está em camomila e remédios.

Perguntas frequentes

Estou em uso de varfarina. Posso tomar o chá?

A norma brasileira diz não, e é a norma que vale aqui. Além disso, quem usa anticoagulante oral tem exames de controle que qualquer variável nova pode desestabilizar. Leve a pergunta ao serviço que acompanha a anticoagulação antes de introduzir qualquer planta, mesmo em chá.

E se eu tomar em horário diferente do remédio?

Separar horários resolve algumas interações de absorção, mas não é o mecanismo em discussão aqui — atividade sobre coagulação e sobre tônus vascular não depende de os dois estarem no estômago ao mesmo tempo. A advertência da monografia não abre exceção por horário.

A proibição vale para a compressa na pele?

A advertência está redigida sem separar via oral de via externa. Aplicação em pele íntegra e área pequena expõe muito menos que ingerir, mas a monografia não faz essa distinção e não cabe a nenhum texto público fazê-la por ela. Em uso de anticoagulante, a pergunta é para quem prescreve.

Mil-folhas corta o efeito de anticoncepcional ou antibiótico?

Não há registro disso em nenhum dos dois documentos. A seção europeia de interações não lista nada, e a advertência brasileira menciona apenas anticoagulantes e anti-hipertensivos. Ausência de registro, aqui, significa que ninguém estudou — não que a combinação foi testada e aprovada.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: a advertência de não usar juntamente com anticoagulantes e anti-hipertensivos, e a lista de referências da própria monografia, em que duas das três fontes citadas para essa frase são artigos sobre dermatite de contato
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376416/2019): a seção 4.5 de interações, cujo conteúdo integral é a expressão nenhuma relatada, mantida tanto na versão de 2011 quanto na revisão de 2020
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376415/2019): a evidência pré-clínica limitada de que a achileína tem atividade anticoagulante, com relevância clínica declarada como não clara, e os comentários do avaliador descartando os estudos de pressão arterial por dose muito acima da monografia e por via intravenosa
  4. Hausen BM, Breuer J, Weglewski J, Rücker G. alpha-Peroxyachifolid and other new sensitizing sesquiterpene lactones from yarrow (Achillea millefolium L., Compositae). Contact Dermatitis 1991;24(4):274-280 (PMID 1868717) — uma das três referências que a FT001 usa para sustentar a proibição de uso com anticoagulantes e anti-hipertensivos, e que trata de sensibilização cutânea, não de coagulação nem de pressão arterial

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026