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Guia da Saúde

Mil-folhas para cólica intestinal: o teste que deu zero

O Formulário de Fitoterápicos registra a mil-folhas como antiespasmódico, na fórmula 1 — a mesma das queixas digestivas, com 2 a 4 g em 250 mL, três a quatro vezes ao dia. É a base do uso para cólica e aperto intestinal. E é uma indicação cuja evidência tem um buraco no meio, que esta página abre.

O modelo animal do intestino, e o resultado dele

Entre as referências que a FT001 cita para a indicação está um ensaio brasileiro de 2009, que testou o extrato hidroalcoólico da planta em camundongos por quatro modelos. Um deles foi o trânsito intestinal — a medida mais direta de efeito sobre a motilidade do intestino.

O resumo do artigo, aberto no PubMed sob o PMID 18844327, é direto:

“None of the extracts produced differences in the intestinal transit in mice.”

Nenhuma diferença. É o único desfecho intestinal do estudo, e ele deu zero. O que o mesmo trabalho encontrou foi antinocicepção periférica no teste de contorções abdominais, e de forma não-monotônica: 500 mg/kg inibiram 65%, e 1.000 mg/kg inibiram apenas 23%.

Ou seja, o efeito que o estudo apoia é sobre dor, não sobre espasmo. São coisas próximas na sensação e distintas no mecanismo.

A rutina: o constituinte principal é o que não funciona

A parte mais elegante desse conjunto de dados aparece quando se cruzam dois trabalhos diferentes.

O ensaio de 2009 fez análise por HPLC dos extratos e identificou o glicosídeo flavonoídico principal: a rutina. A mil-folhas, segundo os autores, tinha teor de rutina maior que a espécie comparada.

Um trabalho de 2006 testou, em íleo isolado de cobaia, a fração flavonoídica da mil-folhas composto por composto, medindo a concentração que inibe metade da contração:

CompostoConcentração inibitória mediana
Quercetina7,8 µmol/L
Luteolina9,8 µmol/L
Apigenina12,5 µmol/L
Rutinasem efeito significativo
Metabólitos homovanílico e homoprotocatecuicosem efeito significativo

As três agliconas são espasmolíticas potentes. A rutina — o composto majoritário do extrato — não é. O autor do estudo concluiu que, no chá preparado a partir da planta, a concentração de flavonoides é suficiente para produzir efeito espasmolítico no intestino, atribuído principalmente ao bloqueio da corrente de cálcio.

Há um segundo achado na mesma direção: extrato metanólico da parte aérea relaxou o jejuno isolado de coelho de forma dependente da concentração, deslocando a curva do cálcio à direita, de modo semelhante ao verapamil — um bloqueador de canal de cálcio de uso cardiológico.

O quadro que sobra é este: em tecido isolado, o mecanismo aparece; no animal inteiro, o trânsito intestinal não mudou; e em pessoas, nunca se mediu. As duas coisas podem conviver, porque tecido isolado recebe concentração controlada e intestino de camundongo recebe o que sobra da digestão. Mas quem diz “comprovadamente antiespasmódico” está escolhendo uma metade da literatura.

A dose, e as duas condições em que ela não vale

Para cólica intestinal vale a fórmula 1, preparada como descrito em chá de mil-folhas: infusão de 10 a 15 minutos, 250 mL de três a quatro vezes ao dia, com reavaliação em duas semanas.

Duas contraindicações digestivas cortam essa indicação pela metade do público: úlcera gastroduodenal e dispepsia hipersecretora. Quem tem dor abdominal de origem ácida está fora — e é justamente esse público que costuma chamar o sintoma de “cólica”. A lista completa está em quem não pode tomar mil-folhas.

Vale reter também que cólica intestinal e cólica menstrual têm fórmulas diferentes nesta monografia: a menstrual usa a fórmula 2, com metade da concentração, e está em mil-folhas para cólica menstrual.

Procure um serviço de saúde diante de dor abdominal forte e contínua, dor localizada no lado direito inferior, abdome rígido, febre, vômito persistente, parada de eliminação de gases e fezes, sangue nas fezes ou perda de peso. Cólica que exige chá todo dia não é cólica: é sintoma à espera de diagnóstico. Outras espécies usadas para o mesmo incômodo estão em erva-cidreira para cólica intestinal e funcho para cólica intestinal.

Perguntas frequentes

Serve para dor de barriga com diarreia?

Diarreia não é indicação registrada da espécie, nem no Brasil nem na Europa. Diarreia com sangue, febre alta, desidratação, vômitos incoercíveis ou duração acima de três dias precisa de avaliação, e em criança e idoso o limiar para procurar atendimento é ainda mais baixo.

Mil-folhas e escopolamina fazem a mesma coisa?

Não. Antiespasmódico de farmácia tem dose padronizada, mecanismo definido e ensaios em pessoas. A mil-folhas tem uso tradicional, indicação para queixas leves e nenhum estudo clínico por via oral. Elas ocupam a mesma prateleira mental e não a mesma prateleira de evidência.

Quantos dias posso usar seguidos?

A monografia não fixa um número de dias, mas fixa o ponto de reavaliação: sintoma digestivo que persiste por mais de duas semanas de uso é motivo para procurar um profissional. Cólica intestinal que volta todo mês, ou que acorda à noite, não é caso de estender o chá.

Dá para usar em criança com dor de barriga?

Não. A espécie é contraindicada para menores de 12 anos por falta de dados adequados de segurança, e isso vale para todas as três fórmulas de infuso. Dor abdominal em criança, especialmente se localizada, contínua ou com febre e vômito, é situação de avaliação presencial.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: a indicação da fórmula 1 como antiespasmódico, a posologia de 2 a 4 g em 250 mL três a quatro vezes ao dia, e as contraindicações em úlcera gastroduodenal e dispepsia hipersecretora
  2. Pires JM, Mendes FR, Negri G, Duarte-Almeida JM, Carlini EA. Antinociceptive peripheral effect of Achillea millefolium L. and Artemisia vulgaris L. Phytother Res 2009;23(2):212-219 (PMID 18844327) — o ensaio em camundongos que não encontrou diferença no trânsito intestinal com nenhum dos extratos, e a análise por HPLC que identificou a rutina como constituinte principal do extrato hidroalcoólico da espécie
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376415/2019): o estudo de Lemmens-Gruber et al. 2006 em íleo isolado de cobaia, com as concentrações inibitórias medianas de quercetina, luteolina e apigenina e a ausência de efeito significativo da rutina, e o estudo de Yaeesh et al. 2006 em jejuno de coelho com comportamento semelhante ao do verapamil

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026