Chá de mil-folhas: 3 proporções para 3 finalidades
Não existe “o” chá de mil-folhas. O Formulário de Fitoterápicos registra três infusos com proporções diferentes, e a que você deve usar depende da finalidade: 2 a 4 g em 250 mL para sintomas digestivos, 1 a 2 g para cólica menstrual e 3,5 g para compressa na pele. Os três se preparam por infusão de 10 a 15 minutos.
Passo a passo do infuso digestivo
- Pese de 2 a 4 g de parte aérea seca e rasurada. Rasurada quer dizer picada — não inteira, não em pó. Planta inteira extrai menos; pó extrai rápido demais e passa material fino para a xícara.
- Ferva 250 mL de água potável e desligue o fogo. O Formulário exige que a água usada em preparações extemporâneas seja potável, filtrada ou fervida antes do emprego.
- Despeje sobre a planta e tampe. Tampar segura o óleo volátil, que compõe de 0,3 a 1,4% da droga vegetal.
- Espere de 10 a 15 minutos e coe. É o dobro do tempo da camomila, que infunde de 5 a 10 minutos (chá de camomila) — a parte aérea da mil-folhas é material mais lenhoso que uma inflorescência.
- Beba 250 mL, dez minutos após o preparo, de três a quatro vezes ao dia.
O horário que trocou de lugar entre Brasil e Europa
Aqui está a divergência mais curiosa deste preparo. O Formulário manda tomar o infuso “30 minutos antes das refeições”. A monografia europeia, para o mesmo chá e a mesma indicação digestiva, manda tomar entre as refeições — e reserva os “30 minutos antes das refeições” para as preparações líquidas (extrato, suco, tintura) e apenas na indicação de perda temporária de apetite.
A indicação de apetite não foi adotada no Brasil. A instrução de horário que pertencia a ela, sim. E o Formulário aplica o “entre as refeições” justamente onde a Europa não pede: na tintura.
Isso não torna o chá perigoso — o horário não muda dose nem segurança. Mas mostra que o texto brasileiro reorganizou instruções da fonte que declara seguir, e é o tipo de detalhe que só aparece com os dois documentos abertos lado a lado.
Flor ou parte aérea: são duas drogas vegetais
Se o rótulo do seu produto diz “flores de mil-folhas”, a referência europeia é outra. A EMA mantém duas monografias separadas para a espécie: Millefolii herba, a parte aérea, e Millefolii flos, só as flores. E as doses não coincidem:
- parte aérea, uso digestivo: 1,5 a 4 g, três a quatro vezes ao dia;
- flor, uso digestivo: 1,5 a 2 g, duas vezes ao dia;
- parte aérea, compressa: 3 a 4 g. Flor, compressa: 1,5 g.
O Formulário brasileiro tem uma monografia só, e ela é da parte aérea. Comprar flor e usar a dose da parte aérea é dobrar a exposição diária em relação ao texto europeu correspondente.
O prazo faz parte da posologia
A monografia fixa dois relógios diferentes, e eles pertencem à dose tanto quanto a gramatura:
- sintomas digestivos que persistem por mais de duas semanas de uso pedem médico;
- sintomatologia menstrual que não melhora pede médico, sem prazo de tolerância;
- lesão cutânea que não resolve em uma semana de uso pede médico.
Chá de sintoma não é chá de rotina. Quem precisa dele todo dia há mais de duas semanas tem um problema que o infuso não está resolvendo. Antes de começar, confira as restrições em quem não pode tomar mil-folhas — a lista inclui gestantes, lactantes, menores de 12 anos e portadores de úlcera. O que cada dose trata está detalhado em mil-folhas: para que serve.
Perguntas frequentes
Posso preparar o chá em bule para o dia todo?
A monografia fala em infuso preparado na hora e manda tomar 250 mL dez minutos após o preparo. Ela não autoriza guardar. Se você prepara mais de uma xícara de uma vez, a proporção precisa acompanhar o volume, e a dose continua sendo os 250 mL por vez, não o bule.
Serve o saquinho de chá pronto de farmácia?
Depende da gramatura e do que está dentro. O piso da dose digestiva é 2 g de parte aérea por 250 mL, e sachês comuns trazem entre 1 e 1,5 g. Também vale conferir se o conteúdo é parte aérea rasurada: a Europa trata flor e parte aérea como drogas vegetais distintas, com doses distintas.
Precisa ferver a planta junto com a água?
Não. As três fórmulas são de infusão: a água ferve, o fogo se desliga e a planta descansa nela, tampada. Decocção, que é ferver junto, é técnica de raiz e casca. Na parte aérea, ferver junto arrasta parte do óleo volátil que compõe a droga vegetal.
Dá para adoçar?
A monografia não trata disso, e a indicação de apetite aceita na Europa se apoia justamente no princípio amargo da planta. Adoçar não é proibido, mas mascarar o amargor contraria a lógica farmacológica do preparado. Água potável, filtrada ou fervida antes, é a única exigência que o Formulário faz.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: as fórmulas 1, 2 e 3 de preparação extemporânea, a orientação de preparar por infusão durante 10 a 15 minutos com a droga vegetal rasurada, o modo de usar de cada fórmula e o prazo de duas semanas para os sintomas digestivos
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376416/2019): a posologia do chá em 1,5 a 4 g para 150 a 250 mL tomada três a quatro vezes ao dia entre as refeições, e a instrução dos 30 minutos antes das refeições restrita às preparações líquidas e à indicação de perda de apetite
- European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Achillea millefolium L., flos (EMA/HMPC/143949/2010): a monografia separada da flor de mil-folhas, com posologia própria de 1,5 a 2 g em 250 mL duas vezes ao dia, diferente da posologia da parte aérea
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026