Mil-folhas para o fígado: colerética, não protetora
O Formulário de Fitoterápicos registra a mil-folhas como colerético. É a palavra exata da monografia, e ela tem um significado técnico estreito: aumentar a produção e o fluxo de bile. Não significa proteger o fígado, não significa regenerar o fígado e não significa “desintoxicar” — termo que não aparece em nenhum documento regulatório.
Colerético é uma coisa; hepatoprotetor é outra
A confusão entre os dois é a raiz de quase toda a fama hepática das plantas amargas.
- Colerético: estimula o fígado a secretar mais bile. O alvo é a digestão de gorduras, e é por isso que o efeito aparece numa monografia de indicação digestiva, ao lado de antiflatulento e antiespasmódico.
- Hepatoprotetor: reduz dano às células do fígado. É um efeito de proteção, medido em enzimas, histologia e desfecho clínico.
A mil-folhas tem a primeira palavra registrada e não tem a segunda — nem no Brasil, nem na Europa. O que o fígado faz com a bile e por que ela importa está em para que serve o fígado.
O número: duas a três vezes a cinarina
O dado que sustenta o rótulo colerético vem de um experimento de 2006 em fígado de rato isolado e perfundido, e ele é mais interessante do que o rótulo sugere.
Os pesquisadores isolaram, de um extrato metanólico da parte aérea, uma fração enriquecida em ácidos dicafeoilquínicos (48%) e luteolina-7-O-glucuronídeo (3,4%), e a compararam com a cinarina — o principal composto colerético da alcachofra. O resultado:
- aumento dose-dependente do fluxo biliar;
- colerese de duas a três vezes a da cinarina;
- a combinação dos dois compostos estimulou o fluxo biliar mais do que a cinarina isolada;
- por serem compostos polares, os autores anotam que eles são extraídos quantitativamente em chás e tinturas — ou seja, chegam ao preparado caseiro.
É um resultado forte. E é um resultado em fígado de rato fora do rato, com fração purificada, não com o infuso. Nenhum estudo mediu fluxo biliar em pessoas tomando chá de mil-folhas. A comparação com a planta que carrega essa fama no Brasil está em alcachofra.
A indicação colerética não existe na Europa
Este é o ponto que quase nunca se lê. A monografia europeia da parte aérea lista quatro indicações de uso tradicional: perda temporária de apetite, queixas gastrintestinais espasmódicas leves, espasmo menstrual leve e pequenas feridas superficiais.
Nenhuma delas menciona bile, vesícula ou fígado.
O efeito colerético aparece lá — mas na seção de dados não clínicos, como um dos mecanismos que tornam plausível a indicação digestiva. A frase do relatório é essa: dados não clínicos sobre efeitos colerético, gastroprotetor, espasmolítico e anti-inflamatório sustentam o uso tradicional como infusão para o tratamento sintomático de queixas gastrintestinais espasmódicas leves.
Na Europa, portanto, “colerético” é explicação. No Brasil, virou indicação. É a mesma evidência lida com régua diferente.
O glutation que subiu no útero e não subiu no fígado
Há um segundo dado que costuma ser citado como “efeito hepático” e diz o contrário. Ratos receberam extrato aquoso de folhas, 1 g/kg duas vezes ao dia, por sete dias. A glutationa — a principal defesa antioxidante intracelular — foi medida em três órgãos:
| Órgão | Efeito sobre a glutationa |
|---|---|
| Útero | Aumento de 73% |
| Rim | Queda de 23% |
| Fígado | Sem alteração |
O único órgão onde nada mudou foi justamente o fígado. E o mesmo experimento examinava, em caráter preliminar, a interação do extrato com paracetamol em dose alta — um cenário de lesão hepática, e não de proteção. Que plantas medicinais podem, elas próprias, lesar o fígado é assunto de planta medicinal faz mal ao fígado.
A contraindicação que fecha o raciocínio
Se ainda restar dúvida sobre a mil-folhas ser ou não uma “planta do fígado”, a própria monografia resolve: ela contraindica o uso em pessoas com obstrução das vias biliares.
A lógica é direta. Empurrar mais bile por um ducto obstruído agrava a obstrução em vez de aliviá-la. Uma planta que estimula secreção biliar é, por construção, perigosa exatamente para parte do público que a procura por causa da vesícula. A lista completa de restrições está em quem não pode tomar mil-folhas.
Procure atendimento diante de dor forte no lado direito superior do abdome, febre com calafrio, pele ou olhos amarelados, urina escura ou fezes claras. São sinais de obstrução biliar ou de doença hepática aguda, e nenhum deles se trata com chá. O que a espécie realmente trata está em mil-folhas: para que serve.
Perguntas frequentes
Mil-folhas serve para esteatose ou fígado gorduroso?
Não existe indicação registrada para esteatose em nenhum dos dois documentos, nem estudo clínico da planta por via oral em qualquer condição. Esteatose hepática se maneja com mudança de peso, álcool, glicemia e lipídios, acompanhada por quem trata — não por chá.
Quem tem pedra na vesícula pode tomar?
A monografia contraindica obstrução das vias biliares. Cálculo que já obstrui é contraindicação direta; cálculo assintomático não está nomeado no texto, mas estimular fluxo biliar em quem tem cálculo é decisão de quem acompanha o caso. Dor intensa no lado direito do abdome com febre ou icterícia é emergência.
Exame de fígado alterado: mil-folhas ajuda a normalizar?
Não há dado que sustente isso. Enzimas alteradas pedem investigação de causa — álcool, vírus, medicamentos, gordura hepática —, e várias plantas medicinais figuram entre as causas possíveis de lesão hepática. Chá não é conduta para exame alterado.
É verdade que mil-folhas é mais forte que a alcachofra para a bile?
Em fígado de rato isolado e perfundido, uma fração da planta produziu colerese de duas a três vezes a da cinarina, o principal composto colerético da alcachofra. É um experimento de laboratório com fração purificada, não uma comparação entre dois chás em pessoas.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: a indicação da fórmula 1 como colerético, a ausência de qualquer indicação hepatoprotetora e a contraindicação para pessoas com obstrução das vias biliares
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376415/2019): o experimento de Benedek et al. 2006 em fígado de rato isolado e perfundido, com aumento dose-dependente do fluxo biliar e colerese duas a três vezes maior que a da cinarina, e o estudo de glutationa que registrou aumento no útero, queda no rim e nenhuma alteração no fígado
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376416/2019): as quatro indicações de uso tradicional aceitas na Europa, entre as quais não figura efeito colerético, hepático ou biliar
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026