Chá faz mal ao fígado? As ervas com alerta oficial
Algumas fazem. Onze das 85 monografias do Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira falam de fígado — e o caso mais recente e mais desconfortável é o da cúrcuma, que recebeu na 3ª edição uma advertência de dano hepático sustentada por alertas de quatro autoridades sanitárias de quatro países diferentes.
A cúrcuma tem advertência de dano hepático desde a 3ª edição
A monografia FT021, de Curcuma longa L., traz este parágrafo:
“Em caso de aparecimento de sinais e sintomas que possam estar relacionadas a dano hepático, tais como amarelamento da pele e dos olhos, urina escura, náusea, vômito, cansaço anormal, fraqueza, perda de apetite e dor abdominal ou estomacal, deve-se suspender imediatamente o uso do produto e buscar acompanhamento de profissional de saúde. Pessoas que tenham problemas hepáticos, ou tiveram no passado, tem a maior probabilidade de desenvolver hepatotoxicidade, deste modo, devem evitar usar fitoterápicos contendo cúrcuma.”
As referências que sustentam essas duas frases estão citadas ali mesmo, e formam uma sequência internacional: ANSES (França, 2022), Italian Ministry of Health (2022), TGA (Austrália, 2023) e Health Canada (2025) — este último um documento chamado Summary Safety Review – Turmeric and Curcuminoids for Oral Use – Assessing the Potential Risk of Hepatotoxicity.
Quatro reguladores, quatro anos seguidos, sobre o tempero que virou sinônimo de anti-inflamatório natural. A mesma monografia contraindica a cúrcuma em hepatopatias, cálculos biliares, obstrução dos ductos biliares, colangite e úlcera gastroduodenal, e recomenda uso por até 7 dias.
O padrão: as plantas “do fígado” são contraindicadas em doença do fígado
Esse não é um caso isolado. É a regularidade mais chamativa do compêndio:
| Espécie | Fama popular | O que a monografia diz |
|---|---|---|
| Cúrcuma (Curcuma longa) | anti-inflamatório, “detox” | contraindicada em hepatopatias; advertência de hepatotoxicidade |
| Alcachofra (Cynara scolymus) | “limpa o fígado” | contraindicada em hepatopatias, cálculo e obstrução biliar |
| Dente-de-leão (Taraxacum officinale) | depurativo | contraindicado em hepatopatia e em doença hepática aguda ou severa |
| Equinácea (Echinacea angustifolia) | imunidade | ”Seu uso prolongado pode causar hepatotoxicidade” |
| Confrei (Symphytum officinale) | cicatrizante | ”Devido às propriedades hepatotóxicas, o confrei não deve ser utilizado internamente” |
| Hortelã-pimenta (Mentha x piperita) | digestivo | em altas doses, associada a lesões hepáticas; contraindicada em dano hepático severo |
O caso da alcachofra está desenvolvido em alcachofra e em quem não pode tomar alcachofra — e o motivo pelo qual empurrar mais bile num ducto obstruído é o contrário do que se quer aparece em para que serve o fígado.
O confrei é o extremo da tabela: não é “usar com cuidado”, é não usar por dentro. A monografia manda aplicar apenas na pele íntegra e por no máximo 10 dias.
O grupo de substâncias que tem limite numérico no Brasil
O motivo pelo qual o confrei é hepatotóxico tem nome: alcaloides pirrolizidínicos. Eles são a classe mais associada a doença veno-oclusiva hepática entre produtos vegetais, e o Brasil fixou para eles um número. O Anexo II da Instrução Normativa nº 410, de 17 de dezembro de 2025, determina:
“Espécies vegetais contendo alcaloides pirrolizidínicos — A exposição diária de alcaloides pirrolizidínicos não pode ser superior a 1 ppm, ou seja 1 mcg/g.”
E o Anexo I da mesma norma proíbe em medicamento tradicional fitoterápico os gêneros que mais carregam esses alcaloides: Crotalaria spp., Senecio spp., Heliotropium spp., Petasites spp., Cynoglossum officinale e Tussilago farfara. O confrei não foi proibido — foi confinado ao uso externo em pele íntegra.
O ponto prático: essas espécies não estão em farmácia, estão em quintal e em mistura de erva vendida a granel. A lista completa está em plantas tóxicas mais comuns.
O que a rede americana de lesão hepática registra
O LiverTox, catálogo dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, mantém um capítulo inteiro sobre ervas e suplementos. Os produtos vegetais mais frequentemente implicados em lesão hepática que ele elenca são, em boa parte, desconhecidos do consumidor brasileiro — germander e chaparral — mas outros não são: extrato de chá verde, kava, cimicífuga (black cohosh) e os próprios alcaloides pirrolizidínicos.
Vale a distinção que o consumidor mais erra: o problema documentado é o extrato concentrado de chá verde, em cápsula, e não a xícara de chá verde. Concentração é o que separa alimento de droga vegetal — e é a mesma lógica que faz a monografia da hortelã-pimenta falar em “altas dosagens”.
Como reduzir o risco sem abandonar a planta
- Não use em uso contínuo indefinido. Várias monografias fixam prazo máximo: a da cúrcuma recomenda utilizar por até 7 dias; a da equinácea, no máximo 8 semanas de uso contínuo; a do confrei, não mais que 10 dias.
- Não some produtos. Chá, cápsula e tempero da mesma planta, ao mesmo tempo, somam dose.
- Não use se já há doença hepática, atual ou passada, sem avaliação médica.
- Conte ao médico. Lesão hepática por erva só é identificada se alguém perguntar — e a pergunta raramente é feita.
- Não tome durante uso de paracetamol em dose alta. A monografia da cúrcuma registra que o consumo associado “pode aumentar a toxicidade deste devido à indução de CYP1A2”.
O panorama do que as monografias fazem com risco está em planta medicinal é segura?, e o outro órgão-alvo clássico é tratado em chá faz mal ao rim?.
Quando procurar serviço de saúde
Suspenda o produto imediatamente e procure atendimento se aparecer qualquer um dos sinais que o próprio Formulário lista: amarelamento da pele ou dos olhos, urina escura, náusea, vômito, cansaço anormal, fraqueza, perda de apetite ou dor abdominal. Leve a embalagem ou a erva para identificação.
Procure atendimento de urgência se houver confusão mental, sonolência excessiva ou sangramento — são sinais de comprometimento hepático grave. Em suspeita de intoxicação, o Disque-Intoxicação da Anvisa atende no 0800-722-6001, 24 horas por dia.
Perguntas frequentes
Chá de boldo faz mal ao fígado?
O boldo-do-chile tem uma restrição própria: a Anvisa determinou que insumos e fitoterápicos obtidos de Peumus boldus monitorem o teor de ascaridol, com limites máximos aceitáveis embasados em dados técnico-científicos. Não é proibição, é controle de qualidade obrigatório — e é a única espécie do compêndio com essa exigência nominal.
Quanto tempo depois de tomar a erva o dano hepático aparece?
Não há prazo fixo. As descrições de lesão hepática por erva vão de semanas a meses de uso, e boa parte dos casos surge em uso diário prolongado, não em dose única. Por isso as monografias limitam duração — a da cúrcuma recomenda até sete dias, e a da equinácea, no máximo oito semanas.
Exame de sangue detecta esse tipo de dano?
Sim, é assim que se detecta: alterações de TGO, TGP, gama-GT, fosfatase alcalina e bilirrubinas. O ponto prático é informar ao médico todas as ervas, cápsulas e chás em uso antes do exame, porque sem essa informação o resultado alterado dificilmente será associado ao produto vegetal.
Quem já teve hepatite pode tomar chá normalmente?
Não sem avaliação. O Formulário afirma que pessoas com problemas hepáticos, atuais ou passados, têm maior probabilidade de desenvolver hepatotoxicidade e devem evitar fitoterápicos com cúrcuma. Várias outras espécies do compêndio são contraindicadas em hepatopatia, incluindo as de fama hepática.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT021, Curcuma longa L.: a advertência de dano hepático com a lista de sinais de alarme, a orientação para que pessoas com problemas hepáticos evitem fitoterápicos com cúrcuma e as referências ANSES 2022, Health Canada 2025, Italian Ministry of Health 2022 e TGA 2023; e as monografias FT024 (equinácea), FT049 (hortelã-pimenta) e FT076 (confrei)
- Instrução Normativa Anvisa nº 410, de 17 de dezembro de 2025 — Anexo II: o limite de exposição diária a alcaloides pirrolizidínicos de 1 ppm (1 mcg/g), a restrição de uso externo em pele íntegra para Symphytum officinale e o monitoramento de ascaridol em insumos de Peumus boldus
- LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury (NIH/NIDDK) — capítulo Herbal and Dietary Supplements: os produtos vegetais mais frequentemente implicados em lesão hepática, entre eles extrato de chá verde, germander, chaparral, kava, cimicífuga e alcaloides pirrolizidínicos
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026