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Guia da Saúde

Salgueiro e remédios: o que não pode misturar

A seção de interações da monografia europeia do salgueiro tem uma linha: “a casca de salgueiro pode aumentar os efeitos de anticoagulantes, como os derivados cumarínicos”. A advertência brasileira, no mesmo assunto, nomeia quatro classes de medicamento. Essa diferença não é descuido — e entender de onde ela vem é o que torna a informação utilizável.

Uma monografia lista uma interação; a outra lista quatro

ClasseEuropa (seção 4.5)Brasil (FT069-01)
Anticoagulantes cumarínicossimsim
Anti-inflamatórios não esteroidaiscomo advertência (4.4)sim, como “não usar concomitantemente”
Corticoidesnão constasim
Antiácidosnão constasim

O antiácido é o item curioso. Ele não aparece em nenhuma seção da monografia europeia nem no relatório de avaliação, e a FT069-01 o cita apoiada em fontes mais antigas — Blumenthal (2000), ESCOP (2003) e Wichtl (2004) —, não na EMA de 2017.

O relatório europeu explica a própria contenção: “apenas as interações documentadas com a casca de salgueiro estão incluídas. Um certo número de interações teóricas listadas para o ácido acetilsalicílico — agentes anti-hipertensivos, uricosúricos e outros — não foi incluído.” Ou seja: a Europa decidiu não copiar a bula da aspirina para dentro da monografia da planta. O Brasil manteve parte dessa herança.

Qual das duas seguir? A mais restritiva, porque é a que vale aqui — e porque o custo de espaçar um antiácido é zero. Mas vale saber que a base documental dos quatro itens não é a mesma: um deles está medido, os outros três são precaução por classe.

O item medido: o que o salgueiro faz com as plaquetas

O único estudo que a monografia cita nominalmente ao tratar de interação mediu agregação plaquetária em 51 participantes. Trinta e cinco pacientes com crise de dor lombar crônica receberam, de forma randomizada e duplo-cega, extrato de Salix daphnoides e Salix purpurea com 240 mg de salicina por dia ou placebo, por 28 dias. Outros 16 pacientes, com doença isquêmica cardíaca estável, tomaram 100 mg de acetilsalicilato por dia.

O resultado, com ácido araquidônico como agente agregante:

GrupoAgregação plaquetária máxima
Casca de salgueiro (240 mg de salicina/dia)61%
Placebo78%
Acetilsalicilato 100 mg/dia13%

Três leituras cabem aqui, e as três importam. O salgueiro reduz a agregação em relação ao placebo, e a diferença é estatisticamente significativa. O AAS reduz muito mais. E quando o agente agregante foi colágeno, nem o salgueiro nem o AAS mudaram nada.

Os próprios autores encerraram dizendo que o consumo diário do extrato afeta a agregação plaquetária em extensão muito menor que o acetilsalicilato, e que é preciso mais investigação para saber se o achado tem relevância clínica em quem já tem função plaquetária prejudicada.

Há ainda uma diferença de mecanismo que quase nunca é dita: segundo o relatório europeu, o ácido salicílico não acetila irreversivelmente a COX-1. A aspirina acetila — é por isso que o efeito dela dura o tempo de vida da plaqueta. O salgueiro não faz isso, o que ajuda a explicar os 61% contra 13%.

E, no mesmo relatório, um estudo diz o contrário

Vale registrar porque é honesto e porque muda o tom da conversa: o relatório da EMA cita, poucos parágrafos depois, um trabalho de Vlachojannis e colaboradores, de 2011, que reportou que extratos de Salix não interferem na agregação plaquetária — e usou isso para argumentar que a planta tem mecanismo de ação diferente do dos AINEs e do ácido acetilsalicílico.

Dois achados opostos, no mesmo documento, sem que o comitê declare um vencedor. O que o comitê fez foi manter a advertência, porque a interação com anticoagulantes é “plausível e de importância terapêutica” e porque os salicilatos são extensamente ligados a proteínas plasmáticas, o que mantém aberta a possibilidade de interação farmacocinética. Divergência na literatura não afrouxou a conduta: reforçou a precaução.

Varfarina no mundo real: 171 pacientes

Um estudo prospectivo canadense acompanhou 171 adultos em uso de varfarina por 16 semanas, com diário de sangramentos e de produtos complementares consumidos. Metade dos participantes (51%) relatou pelo menos um episódio de sangramento, e 43% usaram ao menos um produto conhecido por interagir com o anticoagulante.

A casca de salgueiro apareceu entre as terapias associadas a maior risco de sangramento autorrelatado, junto com pimenta caiena, gengibre, erva-de-são-joão e coenzima Q10. Mas o desfecho fino é outro: apenas duas substâncias permaneceram independentemente associadas ao risco depois do ajuste — coenzima Q10 e gengibre. O risco de INR supraterapêutico não aumentou, e o relatório europeu registra que, após ajuste para os fatores de risco não relacionados a produtos complementares, a associação com o salgueiro deixou de ser estatisticamente significativa.

O achado que ficou de pé, e que quase ninguém cita, é este: usar mais de um produto complementar ao mesmo tempo foi, por si só, fator de risco significativo para sangramento. Quem já toma anticoagulante encontra o quadro completo dessa conversa em chá e anticoagulante.

Somar salicilato com salicilato

A advertência 4.4 da monografia europeia é curta e vale para as duas colunas: “o uso concomitante com salicilatos e outros AINEs não é recomendado sem orientação médica”. O relatório detalha que essa advertência foi adicionada por decisão do grupo de trabalho em setembro de 2007, mesmo sem que um aumento de irritação gástrica jamais tivesse sido descrito nessa combinação.

De novo: a fonte publica a fragilidade do dado e mantém a restrição. E a literatura de referência citada no relatório vai na mesma direção — recomenda evitar a combinação com antiagregantes e, se o uso simultâneo for considerado desejável, orientar o paciente a ficar atento a hematomas e sangramentos e a relatá-los imediatamente.

Um detalhe farmacotécnico fecha o tema: os taninos em alta concentração da casca podem interferir na absorção de outros produtos. Isso não é interação de classe, é interação de horário — e afeta qualquer comprimido tomado junto com a xícara. O panorama geral desse tipo de problema está em interações entre chá e remédio.

Quando procurar o serviço de saúde

Suspenda o uso e procure atendimento imediatamente diante de sangramento que não para, vômito com sangue, fezes pretas, urina avermelhada, hematomas grandes sem trauma ou dor de cabeça súbita e intensa. Procure avaliação antes de qualquer cirurgia, extração dentária ou procedimento invasivo, mesmo que o chá tenha sido interrompido — o assunto está em chá antes de cirurgia.

E leve a informação a quem prescreve antes de começar, não depois. A lista de condições que vedam o uso, independentemente de medicamento, está em quem não pode tomar salgueiro.

Perguntas frequentes

Preciso avisar o médico que tomo chá de salgueiro?

Sim, e antes de qualquer procedimento. A planta contém salicilato, tem efeito medido sobre a agregação plaquetária e pode somar-se a anticoagulantes. Um chá tomado três vezes ao dia por semanas é exposição contínua, e quem prescreve precisa saber disso para interpretar exame e ajustar conduta.

Salgueiro corta o efeito do anticoncepcional?

Não há registro disso em nenhum dos documentos consultados. O relatório europeu foi explícito ao incluir apenas interações documentadas com a casca de salgueiro e descartar as teóricas herdadas da aspirina. Ausência de relato não é garantia, mas também não é motivo para inventar uma interação que a fonte não descreve.

Quem toma ômega 3 ou vitamina E pode tomar salgueiro?

As monografias não tratam desses suplementos. O que o estudo com pacientes em varfarina mostrou é que o uso de mais de um produto complementar ao mesmo tempo foi, ele próprio, fator de risco significativo para sangramento. Acumular produtos com fama de afinar o sangue é a parte da conta que ninguém faz.

E se eu tomar o chá longe do horário do remédio?

Espaçar resolve parte dos problemas de absorção, como o dos taninos, mas não resolve interação farmacodinâmica: o efeito sobre plaquetas e sobre a coagulação depende da presença da substância no organismo, não do horário em que ela entrou. Espaçamento não substitui avaliação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT069-01, Salix: a advertência de não usar concomitantemente com anticoagulantes, antiácidos, corticoides e anti-inflamatórios não esteroidais, a menção a pessoas com distúrbios gastrintestinais, sensíveis ao ácido salicílico, asmáticas ou com função trombocítica prejudicada, e a frase de que o fitoterápico pode potencializar o efeito de anticoagulantes como os derivados cumarínicos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix, cortex (EMA/HMPC/80630/2016): a seção 4.5 com uma única linha em cada coluna, sobre o aumento do efeito de anticoagulantes como os derivados cumarínicos, e a advertência da seção 4.4 de que o uso concomitante com salicilatos e outros AINEs não é recomendado sem orientação médica
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Salix, cortex (EMA/HMPC/80628/2016), seções 3.1.4 e 5.5.4: a decisão de incluir apenas as interações documentadas com a casca de salgueiro e deixar de fora as teóricas listadas para o ácido acetilsalicílico, a nota de que o ácido salicílico não acetila irreversivelmente a COX-1, a informação de que os taninos em alta concentração podem interferir na absorção de outros produtos, o achado de Vlachojannis (2011) de que extratos de Salix não interferem na agregação plaquetária e a conclusão geral de que nenhuma interação com droga vegetal foi relatada em humanos
  4. Krivoy N, Pavlotzky E, Chrubasik S, Eisenberg E, Brook G. Effect of salicis cortex extract on human platelet aggregation. Planta Med 2001;67(3):209-212 (PMID 11345689) — o estudo com 51 participantes que mediu agregação plaquetária máxima induzida por ácido araquidônico de 61% com extrato de casca de salgueiro, 78% com placebo e 13% com acetilsalicilato, sem diferença quando o agregante foi colágeno
  5. Shalansky S, Lynd L, Richardson K, Ingaszewski A, Kerr C. Risk of warfarin-related bleeding events and supratherapeutic international normalized ratios associated with complementary and alternative medicine: a longitudinal analysis. Pharmacotherapy 2007;27(9):1237-1247 (PMID 17723077) — o estudo prospectivo com 171 adultos em uso de varfarina em que a casca de salgueiro apareceu entre as terapias associadas a maior risco de sangramento autorrelatado, mas em que apenas coenzima Q10 e gengibre permaneceram independentemente associados após o ajuste

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026