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Guia da Saúde

Salgueiro: efeitos colaterais registrados nos ensaios

A monografia lista os efeitos colaterais do salgueiro em dois blocos — reações alérgicas e sintomas gastrintestinais — e fecha a seção com uma frase que costuma passar batida: “A frequência não é conhecida”. Não é descuido de redação. É a consequência de uma base de dados pequena, e dá para ver o tamanho dela ensaio por ensaio.

Os dois blocos, palavra por palavra

O texto brasileiro e o europeu dizem a mesma coisa, com as mesmas palavras, e servem tanto para as formas de uso tradicional quanto para o extrato de uso bem estabelecido:

GrupoO que a monografia nomeia
Alérgicorash cutâneo, prurido, urticária, asma, exantema
Gastrintestinalnáusea, vômito, dor abdominal, diarreia, dispepsia, pirose (azia)

A presença de asma dentro da lista de reações adversas é o item que mais merece atenção: não é um mal-estar, é um evento respiratório. E ela reaparece do outro lado da monografia, na lista de contraindicações, para quem tem asma por sensibilidade a salicilato — as duas pontas estão em quem não pode tomar salgueiro.

A FT069-01 encerra com a instrução operacional: “Em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico”. E acrescenta uma frase que vale como regra de segurança: “Não utilizar em doses acima das recomendadas”.

”A frequência não é conhecida” tem um número por trás

O relatório europeu explica por que a frequência ficou em aberto: a base clínica inteira soma cerca de 600 pacientes e voluntários tratados com preparações de ingrediente único de casca de salgueiro, e a conclusão é que os eventos foram predominantemente leves.

Seiscentas pessoas é pouco para calcular incidência. É por isso que a monografia não pôde escrever “comum” ou “raro” — categorias que exigem denominador —, e escreveu que não sabe. Dá para ver a matéria-prima dessa conta olhando ensaio por ensaio:

EnsaioGrupo do salgueiroEventos registrados
Chrubasik 2000 (dor lombar)70 por grupo1 reação alérgica grave — exantema, prurido e olhos inchados — no grupo de 120 mg de salicina
Chrubasik 2001a114 pacientes5 casos de alergia, 11 gastrintestinais, 1 tontura, 1 cefaleia, 1 instabilidade de pressão
Chrubasik 2001b112 + 115 pacientes9 gastrintestinais, 3 reações alérgicas de pele
Schmid 2001b (osteoartrite)38 pacientes6 reações alérgicas de pele; 1 paciente abandonou o estudo por sintomas alérgicos
Biegert 2004 (osteoartrite e artrite reumatoide)43 + 13 pacientes7 gastrintestinais, 1 exantema, 1 prurido leve

Duas leituras saem daí. A primeira: reação de pele é o evento mais recorrente, aparece em todos os ensaios e foi o único que causou abandono de tratamento. A segunda: o ensaio de 2000 registrou uma reação alérgica grave, e ela aconteceu no grupo que tomava a dose menor — o que é um bom lembrete de que reação alérgica não é proporcional à quantidade.

Vale também o que a tabela não mostra: em três desses estudos, o relatório anota que nenhuma avaliação de causalidade foi apresentada. Os eventos foram contados; a atribuição à planta, não necessariamente.

Parte do problema não é o salicilato — é o tanino

A casca de salgueiro contém 8% a 20% de taninos condensados. O relatório europeu registra que plantas com mais de 10% de taninos têm potencial de causar desconforto estomacal, náusea e vômito por si mesmas.

Isso significa que o sintoma gástrico do chá tem duas origens somadas: o salicilato, que irrita a mucosa, e a carga tânica da casca. O tanino tem ainda um segundo efeito relevante — segundo o mesmo relatório, ele pode interferir na absorção do ácido salicílico, o que ajuda a explicar por que a mesma quantidade de casca rende efeitos tão diferentes conforme o preparo. O detalhamento das duas fórmulas de chá e das instruções que existem para reduzir esse incômodo está em chá de salgueiro.

Nenhum caso de superdose — e o motivo é surpreendente

A seção 4.9 das duas colunas da monografia diz o mesmo: “Nenhum caso de superdose foi relatado”. O relatório explica por que sequer os sintomas de intoxicação por ácido acetilsalicílico foram copiados para o texto: os níveis séricos após ingestão oral de casca de salgueiro são relativamente baixos, e o alto teor de taninos torna a ingestão de grandes quantidades pouco provável — na prática, o amargor e o mal-estar gástrico funcionam como freio antes que a dose chegue a níveis tóxicos.

É um dado tranquilizador e enganoso ao mesmo tempo. Tranquilizador porque afasta o fantasma da intoxicação por salicilato na forma de chá. Enganoso porque não vale para produto concentrado nem para quem soma o salgueiro a outra fonte de salicilato — assunto de salgueiro e remédios.

Quando procurar o serviço de saúde

Suspenda o uso e procure atendimento imediatamente se houver falta de ar, chiado, aperto no peito, inchaço de rosto, lábios ou língua, urticária que se espalha, vômito com sangue ou fezes pretas. Procure avaliação no mesmo dia diante de dor abdominal forte, diarreia persistente, zumbido no ouvido ou qualquer sangramento incomum.

E, em qualquer reação, leve a informação a quem prescreve: a instrução da própria monografia é suspender primeiro e avaliar depois. Se o motivo do uso era dor articular, o que a fonte sustenta — e o que ela não sustenta — está em salgueiro para dor nas articulações.

Perguntas frequentes

Chá de salgueiro dá azia?

Pirose é um dos sintomas listados na monografia brasileira, ao lado de dispepsia, náusea e dor abdominal. Duas coisas contribuem: o salicilato, que irrita a mucosa gástrica, e os taninos da casca. As instruções de tomar após as refeições e de diluir em mais água quente existem por causa disso.

Quanto tempo depois de tomar a reação aparece?

As monografias não fixam prazo. Reações alérgicas de pele e broncoespasmo em pessoas sensíveis a salicilato tendem a ser rápidas; sintoma gástrico costuma acompanhar o uso repetido. A instrução vale nos dois casos: apareceu evento adverso, suspende e procura avaliação.

Suar muito é efeito do salgueiro?

Sudorese não está na lista de reações adversas de nenhuma das duas monografias. Ela aparece na literatura antiga como uso tradicional da planta, entre dezenas de outros empregos populares que nunca viraram indicação. Não confunda uso histórico com efeito documentado.

Zumbido no ouvido tem a ver com a planta?

O relatório europeu inclui o zumbido entre os sinais de toxicidade normalmente associados a salicilatos, ao lado de irritação gástrica e renal, sangue nas fezes, náusea e vômito. Não é um efeito listado na monografia da casca, mas é um sinal clássico de salicilato em excesso e merece avaliação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT069-01, Salix: a lista de eventos adversos do fitoterápico com rash cutâneo, prurido, urticária, asma e exantema, além de náusea, vômito, dor abdominal, diarreia, dispepsia e pirose, e a instrução de suspender o uso e consultar um médico em caso de aparecimento de eventos adversos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix, cortex (EMA/HMPC/80630/2016), seções 4.8 e 4.9: a mesma lista de reações alérgicas e gastrintestinais nas duas colunas, a frase de que a frequência não é conhecida e o registro de que nenhum caso de superdose foi relatado
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Salix, cortex (EMA/HMPC/80628/2016), seções 5.3, 5.5.6 e 5.6: a contagem de eventos adversos ensaio por ensaio, a base total de quase 600 pacientes e voluntários tratados com preparações de ingrediente único, a conclusão de que os eventos foram predominantemente leves, o teor de taninos de 8% a 20% como causa de desconforto gástrico e a justificativa para não incluir os sintomas de superdose do ácido acetilsalicílico
  4. Chrubasik S, Eisenberg E, Balan E, et al. Treatment of low back pain exacerbations with willow bark extract: a randomized double-blind study. Am J Med 2000;109(1):9-14 (PMID 10936472) — o ensaio de 210 pacientes em que um participante sofreu reação alérgica grave possivelmente atribuível ao extrato

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026