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Guia da Saúde

Salgueiro para que serve: as 2 indicações oficiais

A monografia FT069-01 do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa registra duas indicações para a casca de salgueiro: auxiliar no alívio dos sintomas da dor articular leve e no alívio da febre associada ao resfriado comum. E abre a seção de advertências com duas palavras que mudam tudo: “Uso adulto”. Não é fórmula de estilo — é a planta que originou a aspirina, com o perfil de risco que vem junto.

O salgueiro-branco não é a espécie da monografia

Este é o achado que reorganiza tudo o mais. A nomenclatura popular da FT069-01 diz “salgueiro, salgueiro-branco”. Salgueiro-branco é o nome do Salix alba — e Salix alba não está na lista de espécies do título da monografia, que traz S. purpurea, S. daphnoides e S. fragilis.

O relatório europeu explica o motivo com número. Existem cerca de 500 espécies de Salix, e o teor de salicilatos, calculado como salicina total, varia entre elas:

EspécieSalicina total na casca
Salix alba (salgueiro-branco)0,5%
Salix fragilis1% a 10%
Salix daphnoidesmais de 4%
Salix purpurea4% a 8%
Mínimo exigido (Farmacopeia Europeia 01/2005:1583)1,5%

Ou seja: a espécie que dá nome popular à droga vegetal, e que estampa os rótulos de white willow bark no mundo inteiro, tem em média um terço do mínimo farmacopeico. O relatório é explícito ao dizer que S. daphnoides e S. fragilis, junto com S. purpurea, são as que rendem a maior quantidade de precursores de salicilato. Não é preciosismo botânico: é a diferença entre uma matéria-prima que atinge a especificação e uma que não atinge.

A terceira indicação europeia não atravessou o Atlântico

A monografia europeia lista três indicações de uso tradicional: alívio da dor articular leve, alívio da febre associada ao resfriado comum e cefaleia. O Formulário brasileiro reproduz as duas primeiras e omite a dor de cabeça.

Vale reparar no que isso significa na prática. Para a cefaleia, a Europa fixou um prazo próprio e curtíssimo — se o sintoma persistir por mais de um dia, procurar avaliação. O Brasil, ao não importar a indicação, também não importou o prazo. Quem toma chá de salgueiro para dor de cabeça no Brasil está fora de indicação registrada, e o assunto do tempo de uso está em por quanto tempo tomar salgueiro.

Há ainda uma quarta indicação europeia que ficou de fora, e essa é a mais surpreendente: a coluna de uso bem estabelecido da monografia da EMA — a coluna que exige ensaio clínico, e que na maioria das plantas está vazia — está preenchida no salgueiro, com o tratamento de curto prazo da dor lombar. O Formulário brasileiro não trouxe nem a indicação nem o extrato que a sustenta. O detalhe está desdobrado em salgueiro para dor nas articulações e conversa com o quadro descrito em dor lombar: causas.

”Aspirina natural” dá 87 mg de AAS — e nem é assim que funciona

A conta existe e está publicada. Num estudo de farmacocinética com dez voluntários saudáveis, a ingestão de 1.360 mg de extrato padronizado, equivalentes a 240 mg de salicina, produziu ácido salicílico como metabólito majoritário (86% do total de salicilatos), com pico sérico médio de 1,2 mg/L alcançado em menos de duas horas e biodisponibilidade de 43,3%. A área sob a curva foi equivalente à esperada de uma ingestão de 87 mg de ácido acetilsalicílico.

Menos que um comprimido infantil de aspirina, portanto — e essa é a metade fácil do achado. A outra metade está na conclusão do próprio artigo: “a formação de ácido salicílico sozinha dificilmente explica os efeitos analgésicos ou antirreumáticos da casca de salgueiro”. A monografia europeia absorveu a ideia numa frase seca: “constituintes além da salicina podem contribuir para os efeitos analgésicos gerais”.

O apelido “aspirina natural” erra duas vezes, então. Erra na intensidade, porque a dose é baixa; e erra no mecanismo, porque o efeito provavelmente não vem só do salicilato. O que não muda é a lista de contraindicações, que foi montada exatamente pelo parentesco com o salicilato — está inteira em quem não pode tomar salgueiro.

A última monografia corrigida antes da 3ª edição

Um detalhe de arquivo que quase ninguém repara. A parte introdutória da 3ª edição lista, em ordem, as resoluções que alteraram a edição anterior. A 1ª Errata (RDC nº 596, de 2 de fevereiro de 2022) contemplou dez monografias, entre elas a da arnica e a da alcachofra. Depois vieram três atualizações pontuais. E a 2ª Errata — RDC nº 952, de 13 de dezembro de 2024 — contemplou uma única monografia: a do Salix. É por isso que o código traz o sufixo de revisão, FT069-01, e não FT069-00.

Não é selo de qualidade nem de suspeita. É o registro de que este foi o último texto mexido antes de o compêndio ser fechado, e de que uma cópia de PDF antigo pode não trazer a versão vigente.

As seis fórmulas, e por que não são intercambiáveis

A FT069-01 descreve seis preparações a partir da mesma casca: infuso (1 a 3 g em 150 mL), decocto (4 g em 200 mL), tintura (20 g em 100 mL de álcool a 25%), extrato fluido (1:1), e duas cápsulas de extrato aquoso seco — uma de 600 mg com relação droga-extrato de 8-20:1, outra de 480 mg com relação 16-23:1.

Parece redundante, e não é: cada relação droga-extrato concentra a casca de um jeito diferente, e por isso a dose muda de forma em cada uma. O preparo caseiro cobre só as duas primeiras — está detalhado em chá de salgueiro, com a técnica geral em como fazer infusão e como fazer decocção. A forma alcoólica, que tem restrição própria, está em tintura de salgueiro.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e no salgueiro a lista de interações é uma das poucas do Formulário que nomeia classes de medicamento, o que está em salgueiro e remédios. O índice das espécies já publicadas fica em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Salgueiro é a mesma coisa que aspirina?

Não. A casca contém salicina, que o corpo converte em ácido salicílico — o composto que deu origem ao ácido acetilsalicílico no fim do século 19. Mas a conversão rende pouco: a dose diária estudada equivale, em área sob a curva, a 87 mg de AAS, e o próprio autor do estudo diz que isso não basta para explicar o efeito.

Existe fitoterápico de salgueiro registrado no Brasil?

O Formulário de Fitoterápicos descreve seis fórmulas de manipulação em farmácia, o que é diferente de um medicamento industrializado com registro. As seis servem às mesmas duas indicações e todas trazem a mesma advertência de abertura: uso adulto.

Que parte do salgueiro se usa?

A casca do caule, seca. A Farmacopeia Europeia especifica casca de ramos jovens ou pedaços inteiros de galhos do ano corrente. Folha, raiz e madeira não entram na monografia, e o teor de salicilato dos galhos jovens com madeira é menor que o da casca isolada.

Dá para plantar salgueiro em casa e usar a casca?

Tecnicamente sim, mas o teor de salicina varia com a espécie, a estação e o processamento — e não há como saber, em casa, se a casca colhida atinge o mínimo farmacopeico. Uma matéria-prima com teor desconhecido não tem dose conhecida, e é a dose que separa o uso do risco.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT069-01, Salix [várias espécies incluindo S. purpurea L., S. daphnoides Vill., S. fragilis L.]: a nomenclatura popular salgueiro e salgueiro-branco, a parte usada casca do caule, as seis fórmulas (infuso, decocto, tintura, extrato fluido e duas cápsulas de extrato aquoso seco), as duas indicações registradas — dor articular leve e febre associada ao resfriado comum — e a advertência Uso adulto
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix [various species including S. purpurea L., S. daphnoides Vill., S. fragilis L.], cortex (EMA/HMPC/80630/2016): as três indicações de uso tradicional (dor articular leve, febre associada ao resfriado comum e cefaleia), a coluna de uso bem estabelecido preenchida com o tratamento de curto prazo da dor lombar, e a farmacocinética que equipara a AUC de 240 mg de salicina à de 87 mg de ácido acetilsalicílico
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Salix [various species including S. purpurea L., S. daphnoides Vill., S. fragilis L.], cortex (EMA/HMPC/80628/2016): o teor de salicina total por espécie (0,5% em Salix alba, 1% a 10% em Salix fragilis, 4% a 8% em Salix purpurea), o mínimo de 1,5% de derivados salicílicos exigido pela Farmacopeia Europeia 01/2005:1583, e o teor de taninos condensados de 8% a 20% na casca
  4. Schmid B, Kötter I, Heide L. Pharmacokinetics of salicin after oral administration of a standardised willow bark extract. Eur J Clin Pharmacol 2001;57(5):387-391 (PMID 11599656) — o estudo em 10 voluntários que mediu pico sérico de 1,2 mg/L de ácido salicílico e concluiu que a formação de ácido salicílico sozinha dificilmente explica o efeito analgésico da casca de salgueiro

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026