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Guia da Saúde

Salgueiro para crianças: contraindicado até os 18

Não. Criança nenhuma pode tomar salgueiro, e adolescente também não: as duas monografias, a brasileira e a europeia, contraindicam a casca de Salix para menores de 18 anos, com o motivo escrito na mesma frase — o risco de síndrome de Reye. Não há faixa intermediária, não há dose reduzida, não há “só um pouquinho”.

O que é a síndrome de Reye, e por que ela entra aqui

A síndrome de Reye é uma condição rara e potencialmente fatal que se manifesta poucos dias após o pródromo de uma doença viral. O relatório europeu nomeia os vírus em que ela costuma aparecer: influenza A e B, adenovírus, vírus varicela e reovírus.

É o cenário exato em que uma família pensa em dar algo para febre: gripe, catapora, mal-estar. E é por isso que a associação entre salicilato e Reye reorganizou a pediatria mundial — a conduta de não dar salicilato a criança com quadro viral existe há décadas.

A casca de salgueiro contém salicina, precursor do ácido salicílico. Não é aspirina, e a diferença de dose é grande, como mostra a farmacocinética reunida em salgueiro. Mas é a mesma família química, e foi por parentesco que a regra veio.

A parte que ninguém publica: a proibição é precaução, não estatística

Aqui está o achado desta página, e ele precisa ser lido inteiro, incluindo a segunda metade.

Até a revisão de 2017, a monografia europeia não contraindicava para menores de 18 anos. A versão de 2009 trazia uma advertência especial, com este texto: “Em crianças e adolescentes menores de 18 anos, o produto só deve ser usado sob orientação médica e apenas nos casos em que outras terapias falharam. Em uma criança ou adolescente que fique muito mal, com vômitos intensos, sonolência ou perda de consciência após uma infecção viral, uma doença grave pode ser suspeitada. A síndrome de Reye é uma condição extremamente rara, mas potencialmente fatal, que exige atenção médica imediata.”

E o relatório de avaliação registra, com todas as letras, que até então nenhuma ocorrência de síndrome de Reye após a ingestão de preparações de Salix havia sido relatada e que não há notificações de farmacovigilância de eventos adversos graves em crianças e adolescentes. O comitê decidiu transformar a advertência em contraindicação como medida de precaução, por causa do desfecho letal da síndrome.

O relatório vai além e registra o incômodo: a relação causal entre a síndrome e o salicilato “foi questionada”, a síndrome “não pode ser atribuída a uma causa específica” e outros fatores, como pesticidas, já foram incriminados.

Isso não é uma brecha. É o oposto: é uma agência dizendo que preferiu proibir sem prova de dano a esperar a prova aparecer, porque o desfecho é a morte de uma criança. A regra em vigor é a contraindicação, ela vale no Brasil e na Europa, e a ausência de caso relatado não é permissão — é a razão de a decisão ter sido tomada antes de existirem casos.

O caso que não é hipotético — e não foi Reye

Enquanto a síndrome de Reye segue sem caso registrado com Salix, um dano concreto já foi publicado, e o relatório europeu o usa explicitamente para justificar a restrição a adultos.

Em 2011, um centro antiveneno de Milão relatou o caso de um menino de 4 anos internado em choque hipovolêmico por hemorragia digestiva grave. A endoscopia mostrou erosões e ulcerações no esôfago inferior e uma pequena erosão duodenal. A criança era previamente saudável e nunca havia apresentado sintoma nenhum relacionado a isso.

O único produto que ela havia tomado nos dias anteriores era um xarope de ervas contendo, entre outras, Filipendula ulmaria e Salix spp. — as duas conhecidas por conter salicilatos. A análise quali-quantitativa confirmou a presença de salicilatos no xarope. O algoritmo de Naranjo, usado para atribuir causalidade a reações adversas, apontou correlação provável. A criança se recuperou após terapia intensiva e o produto foi retirado do mercado italiano.

Dois detalhes desse caso merecem ser sublinhados, porque se repetem no Brasil:

  • o xarope era comercializado como alimento, e não como medicamento — categoria que não passa pela avaliação de indicação terapêutica;
  • ele havia sido prescrito pelo próprio pediatra para tratar um resfriado leve com febre.

Ou seja: o risco não veio de uma família imprudente. Veio de um produto que parecia inofensivo por estar na prateleira de alimentos. É o mesmo raciocínio que separa promessa de rótulo e indicação registrada em chá substitui remédio?.

Nunca se estudou salgueiro em criança

A seção do relatório europeu dedicada a estudos clínicos em populações especiais — idosos e crianças — tem uma linha: “No studies performed”. Nenhum estudo realizado.

A revisão de segurança da farmacopeia americana, de 2019, chega ao mesmo lugar por outro caminho: não houve evento adverso grave nos ensaios com 120 a 240 mg de salicina por dia por até oito semanas, mas todos os ensaios foram feitos em adultos, nenhum incluiu crianças, gestantes ou lactantes. A recomendação americana é direta: crianças, gestantes, lactantes e pessoas com sensibilidade conhecida à aspirina não devem usar casca de salgueiro.

Quando três documentos independentes chegam à mesma vedação por três raciocínios diferentes — precaução regulatória, caso clínico e ausência de estudo —, o resultado prático é um só.

Quando procurar o serviço de saúde

Se uma criança ou adolescente ingeriu qualquer preparação com salgueiro, ulmária ou salicilato, procure atendimento imediatamente diante de vômito persistente, sonolência fora do normal, confusão, agitação incomum, fezes escuras como piche, vômito com sangue ou palidez súbita. Leve o rótulo ou a embalagem do produto.

Para febre em criança, os sinais que mudam a conduta e os limites por idade estão em febre alta em criança: quando se preocupar. Sobre chás em geral na infância, o preparo e os cuidados estão em chá para crianças: como preparar. E a promessa popular que mais leva ao erro com esta planta está discutida em salgueiro para gripe.

Perguntas frequentes

Meu filho tomou uma vez. Devo me preocupar?

Avise o pediatra, informando o produto, a quantidade e a data. Não existe motivo para pânico com uma exposição única, mas existe motivo para registro — sobretudo se houver quadro viral em curso. Procure atendimento imediatamente se aparecerem vômito persistente, sonolência anormal ou fezes escuras.

Adolescente de 17 anos pode, já que é quase adulto?

Não. As duas monografias fixam o corte em 18 anos completos, e a europeia repete a contraindicação dentro da própria seção de posologia, justamente para que não passe despercebida. Não há dose reduzida prevista para os 16 ou 17 anos.

Xarope de ervas de farmácia pode conter salgueiro?

Pode, e o caso publicado em 2011 foi exatamente esse: um xarope vendido como alimento, não como medicamento, com Filipendula ulmaria e Salix. Leia a lista de ingredientes procurando por salgueiro, Salix, ulmária, Filipendula, salicina ou salicilato — produtos de categoria alimentar não passam pela avaliação de indicação terapêutica.

Existe chá liberado para criança com resfriado?

Isso muda de planta para planta e não se resolve em regra geral. Cada monografia traz a própria faixa etária, e boa parte delas é de uso adulto. Em criança, a decisão sobre febre e resfriado é do pediatra, e o preparo, quando liberado, tem cuidados próprios de temperatura e concentração.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT069-01, Salix: a advertência de abertura Uso adulto e a contraindicação expressa para crianças e adolescentes menores de 18 anos devido ao risco de desenvolverem a síndrome de Reye
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix, cortex (EMA/HMPC/80630/2016): a contraindicação para crianças e adolescentes menores de 18 anos nas duas colunas, de uso bem estabelecido e de uso tradicional, repetida também dentro da seção de posologia
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Salix, cortex (EMA/HMPC/80628/2016), seções 4.3 e 5.5.1: a informação de que nenhum estudo clínico em populações especiais foi realizado, o texto da advertência da monografia de 2009 que a revisão de 2017 substituiu por contraindicação, o registro de que até então nenhuma ocorrência de síndrome de Reye após uso de preparações de Salix havia sido relatada e de que não há notificações de farmacovigilância de eventos graves em crianças, e a lista de infecções virais que precedem a síndrome
  4. Moro PA, Flacco V, Cassetti F, et al. Hypovolemic shock due to severe gastrointestinal bleeding in a child taking an herbal syrup. Ann Ist Super Sanita 2011;47(3):278-283 (PMID 21952153) — o caso do menino de 4 anos internado em choque hipovolêmico por hemorragia digestiva após tomar xarope de ervas com Filipendula ulmaria e Salix spp., vendido como alimento e prescrito pelo pediatra para um resfriado leve com febre, com salicilatos confirmados na análise do produto e correlação provável pelo algoritmo de Naranjo
  5. National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Nutritional Approaches for Musculoskeletal Pain and Inflammation: What the Science Says (fevereiro de 2022): a orientação de que crianças, gestantes, lactantes e pessoas com sensibilidade conhecida à aspirina não devem usar casca de salgueiro, e a ressalva de que os ensaios de segurança foram conduzidos apenas em adultos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026