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Guia da Saúde

Salgueiro para gripe: a indicação é resfriado

A indicação registrada do salgueiro para quadro respiratório tem alvo estreito e nome próprio: febre associada ao resfriado comum. A palavra gripe não aparece, nem no texto brasileiro nem no europeu. E há uma colisão dentro do próprio documento que resolve boa parte da conversa: a planta é contraindicada para menores de 18 anos — justamente a faixa que mais adoece de gripe.

Resfriado, e só a febre dele

As duas monografias usam a mesma expressão — “febre associada ao resfriado comum”, “fever associated with common cold” — e nenhuma menciona influenza. A diferença entre os dois quadros não é vocabulário: são vírus, gravidade e complicações distintos, como se vê em diferença entre gripe e resfriado, sintomas de gripe e sintomas de resfriado.

Repare também no recorte dentro do resfriado: a indicação não é “tratar o resfriado”, é aliviar a febre dele. Congestão, tosse, dor de garganta e coriza estão fora do alcance do texto. O leque de plantas com indicação em quadro respiratório está em remédios naturais para gripe, e a espécie vizinha que também é lida como planta de gripe, com o mesmo desencontro, está em sabugueiro para gripe.

Vale registrar o que existe do lado da tradição, porque a régua desta casa é não esconder nem promover. O relatório europeu documenta que a casca de salgueiro tem “longa tradição como febrífugo, remontando ao século 18”, e que entre os usos tradicionais listados em obras de referência aparecem “reumatismo muscular e articular com inflamação e dor, influenza, catarro respiratório…”. Uma obra alemã de referência menciona o uso tradicional da droga em pó e de chás em quadros gripais, com dose diária equivalente a 60 a 120 mg de salicina — a mesma faixa que a monografia da Comissão E alemã, de 1984, recomendava como antipirético.

A palavra gripe existe, portanto — na coluna da história. Ela nunca atravessou para a coluna da indicação registrada, em nenhum dos dois lados do Atlântico.

A colisão que decide o assunto

Esta é a parte que nenhuma página de chá costuma juntar, e é simples:

  • gripe é uma doença cuja maior incidência e maior preocupação estão em crianças e adolescentes;
  • a casca de salgueiro é contraindicada para menores de 18 anos, nas duas monografias, pelo risco de síndrome de Reye;
  • a síndrome de Reye se manifesta poucos dias depois do pródromo de uma doença viral, e o relatório europeu nomeia influenza A e B entre os vírus envolvidos.

Ou seja: a promessa popular — “dar uma aspirina natural para a febre da gripe da criança” — descreve com precisão o cenário que a contraindicação foi escrita para impedir. Não é uma leitura minha; é a sobreposição de três frases do mesmo documento. O caso publicado de um menino de 4 anos internado em choque por hemorragia digestiva depois de um xarope de ervas com Salix, prescrito para um resfriado leve com febre, está detalhado em salgueiro para crianças.

Para adulto, a indicação existe e é válida. Para criança e adolescente, não existe — e é aí que mora quase toda a busca por “chá para febre de gripe”.

O efeito antitérmico nunca foi medido em gente

Aqui está o dado próprio desta página. A conclusão do relatório europeu sobre eficácia é explícita: “para o tratamento sintomático de febre e dor, apenas evidência geral está disponível”. A indicação da febre entrou pela porta do uso tradicional, e uso tradicional se sustenta por tempo de emprego documentado — não por ensaio.

O que existe de experimental é pré-clínico, e é interessante por um motivo inesperado. Em ratos, salicina administrada por via oral a 5 mmol/kg reduziu significativamente a febre induzida por levedura, normalizando a temperatura, e preveniu completamente a febre quando dada junto com a levedura. Mas o mesmo estudo registra o outro lado: nessa dose, a salicina não alterou a temperatura corporal de ratos sem febre, enquanto salicilato de sódio e saligenina, na mesma dose, baixaram a temperatura de animais afebris.

É um achado elegante — sugere ação sobre o processo febril, e não sobre o termostato em geral — e é um achado em roedor, com dose por quilo que não se traduz em xícara. Nenhum ensaio clínico mediu temperatura de pessoas com resfriado tomando casca de salgueiro.

”Aspirina natural”: a conta não fecha para febre

O apelido carrega uma expectativa de potência que a farmacocinética não confirma. O estudo que mediu salicilato no sangue depois de extrato padronizado de casca de salgueiro concluiu, em uma frase: “o extrato de casca de salgueiro, na dose terapêutica corrente, leva a níveis séricos de salicilato muito mais baixos do que os observados após doses analgésicas de salicilatos sintéticos”.

E vale lembrar que essa medida foi feita com extrato padronizado, com teor de salicina declarado — não com chá. A quantidade de salicina que chega numa xícara depende da espécie, da estação, do processamento e do preparo, como se detalha em chá de salgueiro. A expectativa de “antitérmico natural com a força da aspirina” erra, portanto, duas vezes: erra na substância que chega ao sangue e erra na previsibilidade da dose.

Três dias, 39 ºC e cefaleia: os três gatilhos escritos

O prazo desta indicação é o mais curto da monografia — três dias —, e o relatório explica por quê: no resfriado comum, a febre dura três dias. Passou disso, deixou de ser o quadro para o qual a indicação foi escrita.

Dois gatilhos não esperam prazo nenhum. A FT069-01 manda consultar um médico caso a febre exceda 39 ºC acompanhada de cefaleia; a monografia europeia usa a redação completa — se a febre exceder 39 ºC, persistir ou vier associada a dor de cabeça intensa —, e o relatório de avaliação registra entre parênteses a suspeita que motivou a frase: meningite.

Os limites de temperatura e o que cada faixa significa estão em tabela de temperatura corporal normal e febre, e os prazos das outras indicações em por quanto tempo tomar salgueiro.

Quando procurar o serviço de saúde

Procure atendimento no mesmo dia se a febre passar de 39 ºC, vier com dor de cabeça intensa, rigidez de nuca, confusão ou manchas na pele; se houver falta de ar, dor no peito ou lábios arroxeados; se a febre persistir além de três dias; ou se houver piora depois de uma melhora aparente. Em criança, adolescente, gestante ou pessoa com doença crônica, a avaliação vem antes de qualquer chá — os sinais que mudam a conduta na infância estão em febre alta em criança: quando se preocupar.

Perguntas frequentes

Salgueiro corta a gripe mais rápido?

Não há dado que sustente isso. A indicação registrada é de alívio sintomático da febre, e nenhuma das duas monografias fala em encurtar doença, reduzir contágio ou agir sobre o vírus. Nenhum ensaio clínico mediu duração de quadro respiratório com casca de salgueiro.

Serve para dor no corpo da gripe?

A indicação registrada no Brasil cobre a febre do resfriado e a dor articular leve, não o mal-estar generalizado do quadro gripal. A Europa mantém ainda uma terceira indicação, para cefaleia, que o Formulário brasileiro não incorporou — e cujo prazo é de apenas um dia.

Posso tomar junto com antitérmico de farmácia?

Depende do antitérmico, e a conversa é com quem prescreve. Com salicilatos e anti-inflamatórios não esteroidais, a advertência é expressa: uso concomitante não é recomendado sem orientação médica. Somar duas fontes de salicilato aumenta o risco gástrico sem garantia de mais efeito.

E o chá de salgueiro para prevenir resfriado?

Prevenção não aparece em nenhum dos dois documentos. A indicação é de alívio de um sintoma que já existe, com prazo de três dias — o tamanho da febre do resfriado. Tomar antes de adoecer não tem respaldo nem posologia descrita.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT069-01, Salix: a indicação de auxiliar no alívio da febre associada ao resfriado comum, sem menção a gripe ou influenza, o período máximo de três dias para essa indicação e a instrução de consultar médico caso a febre exceda 39 ºC acompanhada de cefaleia, além da contraindicação para menores de 18 anos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix, cortex (EMA/HMPC/80630/2016): a indicação 2 de uso tradicional para alívio da febre associada ao resfriado comum, a duração de três dias, a advertência de consultar médico se a febre exceder 39 ºC, persistir ou vier associada a cefaleia intensa, e a contraindicação para crianças e adolescentes menores de 18 anos
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Salix, cortex (EMA/HMPC/80628/2016): a conclusão de que, para o tratamento sintomático de febre e dor, apenas evidência geral está disponível, a justificativa do prazo de três dias pela duração da febre no resfriado comum, os dados pré-clínicos de Akao (2002) com salicina 5 mmol/kg em ratos com febre induzida por levedura, a dose diária de 60 a 120 mg de salicina da monografia da Comissão E alemã de 1984 como antipirético e o registro do uso tradicional da droga pulverizada e de chás em quadros gripais
  4. Schmid B, Kötter I, Heide L. Pharmacokinetics of salicin after oral administration of a standardised willow bark extract. Eur J Clin Pharmacol 2001;57(5):387-391 (PMID 11599656) — a conclusão de que o extrato de casca de salgueiro, na dose terapêutica corrente, leva a níveis séricos de salicilato muito mais baixos que os observados após doses analgésicas de salicilatos sintéticos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026