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Guia da Saúde

Salgueiro para dor nas articulações: só a dor leve

A indicação registrada tem três palavras e a terceira é a que manda: dor articular leve. Não é artrose, não é artrite, não é dor crônica de articulação — é dor leve, por uso tradicional, com teto de quatro semanas. E há um detalhe que inverte a fama da planta: o único ensaio controlado feito especificamente em artrose deu negativo.

”Leve” é a palavra que faz o trabalho todo

O texto brasileiro e o europeu coincidem: “auxiliar no alívio dos sintomas da dor articular leve”, “relief of minor articular pain”. E a monografia europeia acrescenta uma advertência que fecha a porta do outro lado: “o produto não se destina a ser usado em caso de artrite aguda, pois essa condição exige avaliação médica”. No relatório, a mesma frase aparece com outro alvo — os produtos com casca de salgueiro “não se destinam ao uso em caso de osteoartrite aguda”.

Sobra, portanto, uma faixa estreita: incômodo articular leve, sem crise, sem diagnóstico ativo em andamento. Quem quer entender o que exatamente está doendo encontra a estrutura em articulações do corpo humano e a diferença entre os regimes de dor em diferença entre dor aguda e dor crônica.

O ensaio em artrose que não deu certo

Este é o dado mais duro desta página, e ele é público desde 2004. Dois ensaios randomizados, duplo-cegos e controlados, com seis semanas de seguimento:

Ensaio de osteoartrite — 127 pacientes com artrose de quadril ou joelho, divididos em três grupos: extrato de salgueiro equivalente a 240 mg de salicina por dia (n = 43), diclofenaco 100 mg por dia (n = 43) e placebo (n = 41). Desfecho principal: subescore de dor do índice WOMAC.

GrupoQueda no escore de dor WOMAC
Casca de salgueiro8 mm (17%)
Diclofenaco23 mm (47%)
Placebo5 mm (10%)

A diferença entre salgueiro e placebo foi de −2,8 mm, com intervalo de confiança de 95% de −12,1 a 6,4 e p = 0,55 — ou seja, nenhuma. A diferença entre diclofenaco e placebo foi de −18,0 mm, com p = 0,0002. O comparador ativo funcionou; a planta, não.

Ensaio de artrite reumatoide — 26 pacientes, 13 em cada braço, mesma dose de salicina. Redução média da dor de 8 mm (15%) com salgueiro contra 2 mm (4%) com placebo, p = 0,93.

A conclusão dos autores é literal: “o estudo de osteoartrite sugeriu que o extrato de casca de salgueiro não mostrou eficácia relevante em pacientes com OA. Do mesmo modo, o ensaio de artrite reumatoide não indicou eficácia deste extrato.”

Houve um ensaio anterior, de 2001, com 78 pacientes de artrose de joelho ou quadril e a mesma dose de 240 mg de salicina, que encontrou superioridade sobre o placebo — mas no limite: p = 0,047 na análise por intenção de tratar. O próprio avaliador europeu escreveu que a diferença “apenas alcançou significância estatística” e listou as fragilidades: poucos pacientes, duas semanas de duração e escores de dor diferentes entre os grupos já no início.

Foi por causa desse par de resultados — um positivo no limite, outro claramente negativo — que uma revisão de 2007 classificou a evidência para o salgueiro em dor articular como conflitante.

A evidência que existe é de outro lugar do corpo

Aqui está a virada que quase ninguém conta. A monografia europeia do salgueiro tem a coluna de uso bem estabelecido preenchida — coisa rara, que exige ensaio clínico. Só que a indicação dessa coluna não é articulação: é o “tratamento de curto prazo da dor lombar”.

O ensaio que sustenta essa coluna acompanhou 210 pacientes com crise de dor lombar crônica, por quatro semanas, com tramadol como única medicação de resgate. O desfecho era a proporção de pacientes sem dor e sem tramadol por pelo menos cinco dias na última semana:

GrupoPacientes sem dor
240 mg de salicina por dia27 de 65 (39%)
120 mg de salicina por dia15 de 67 (21%)
Placebo4 de 59 (6%)

Com p menor que 0,001, e resposta já visível na primeira semana no grupo de dose alta. Uma revisão Cochrane de 2014, com dois ensaios e 261 participantes, chegou a evidência de qualidade moderada de que a casca de salgueiro é provavelmente melhor que placebo na melhora de curto prazo da dor lombar.

Duas observações fecham o raciocínio. A primeira: a dose que funcionou é de um extrato seco 8-14:1 em etanol 70%, padronizado em 15% de salicina, com dose diária de 393 a 1.572 mg — e essa preparação não está entre as seis fórmulas do Formulário brasileiro, como se vê em salgueiro. A segunda: dor lombar não é dor articular, e as causas mais comuns dela estão em dor lombar: causas.

O que uma agência americana recomenda

Vale registrar o contraste, porque ele existe dentro de um mesmo documento oficial. A síntese do NIH sobre abordagens nutricionais para dor musculoesquelética cita, lado a lado:

  • uma revisão de 2015 concluindo que, com base na evidência disponível somada ao uso anedótico de centenas de anos, o extrato de casca de salgueiro é eficaz como analgésico e anti-inflamatório;
  • uma revisão de 2019, que avaliou 19 ingredientes dietéticos para dor musculoesquelética crônica e recomendou contra o uso do extrato de casca de salgueiro.

Quatro anos separam as duas, e a mais recente é a mais restritiva. Não há aqui um vencedor declarado — há um assunto em que a literatura não converge, e um Formulário brasileiro que autorizou apenas a faixa mais modesta: dor leve, por quatro semanas.

O que fazer com isso

Se a queixa é incômodo articular leve e passageiro, a preparação tem fórmula, dose e prazo, e está em chá de salgueiro, com o teto de tempo em por quanto tempo tomar salgueiro.

Se a articulação inchou, esquentou ou travou, se a dor acorda à noite ou dura semanas, ou se há diagnóstico de artrose ou artrite em acompanhamento, o caminho é a avaliação — e não porque “chá é fraco”, mas porque a própria monografia exclui esses casos do alcance dela. Procure serviço de saúde no mesmo dia diante de articulação quente e vermelha com febre. E, antes de começar qualquer coisa, confira as vedações em quem não pode tomar salgueiro.

Perguntas frequentes

Salgueiro serve para artrose de joelho?

A indicação registrada não menciona artrose, e o ensaio feito exatamente nessa população não separou a planta do placebo. O que a monografia autoriza é o alívio de dor articular leve, por uso tradicional. Artrose diagnosticada é uma condição crônica com tratamento próprio, e trocar esse tratamento por chá não encontra respaldo nos documentos.

Salgueiro é anti-inflamatório natural?

Efeito anti-inflamatório da casca foi observado em laboratório e em animais, com inibição de COX-1 e COX-2 e redução de edema em pata de rato. Em pessoas, o que se mediu foi analgesia — e mesmo isso apenas em algumas condições. Atividade em bancada não é indicação clínica.

Posso somar o salgueiro ao anti-inflamatório que já tomo?

Não sem orientação. A advertência é expressa nas duas monografias: uso concomitante com salicilatos e outros anti-inflamatórios não esteroidais não é recomendado sem avaliação médica. Nos estudos observacionais, boa parte dos pacientes de fato combinava as duas coisas — o que, aliás, torna esses resultados difíceis de interpretar.

Quanto tempo até sentir alguma diferença?

No ensaio de dor lombar, a resposta do grupo de dose alta já era visível depois de uma semana de tratamento. Nos estudos em articulação, o avaliador europeu observou que duas semanas provavelmente foram curtas demais para atingir o efeito máximo. Sem melhora em uma semana, a instrução da monografia é procurar avaliação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT069-01, Salix: a seção INDICAÇÕES com auxiliar no alívio dos sintomas da dor articular leve para as seis fórmulas, e a advertência de não utilizar por período maior que quatro semanas para o alívio da dor articular
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix, cortex (EMA/HMPC/80630/2016): a indicação 1 de uso tradicional restrita ao alívio da dor articular leve, a coluna de uso bem estabelecido preenchida com o tratamento de curto prazo da dor lombar em dose diária de 393 a 1.572 mg do extrato seco 8-14:1, e a advertência de que o produto não se destina a casos de artrite aguda
  3. Biegert C, Wagner I, Lüdtke R, et al. Efficacy and safety of willow bark extract in the treatment of osteoarthritis and rheumatoid arthritis: results of 2 randomized double-blind controlled trials. J Rheumatol 2004;31(11):2121-2130 (PMID 15517622) — os dois ensaios com 127 pacientes de osteoartrite e 26 de artrite reumatoide em que o extrato de salgueiro a 240 mg de salicina por dia não se separou do placebo, enquanto o diclofenaco se separou de forma altamente significativa
  4. Chrubasik S, Eisenberg E, Balan E, et al. Treatment of low back pain exacerbations with willow bark extract: a randomized double-blind study. Am J Med 2000;109(1):9-14 (PMID 10936472) — o ensaio de 210 pacientes com crise de dor lombar crônica em que 39% dos que receberam 240 mg de salicina ficaram sem dor na última semana, contra 21% com 120 mg e 6% com placebo
  5. National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — Nutritional Approaches for Musculoskeletal Pain and Inflammation: What the Science Says (fevereiro de 2022): a revisão Cochrane de 2014 com 2 ensaios e 261 participantes, que encontrou evidência de qualidade moderada de que a casca de salgueiro é provavelmente melhor que placebo na melhora de curto prazo da dor lombar, e a revisão de 2019 que recomendou contra o uso do extrato para dor musculoesquelética crônica

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026