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Guia da Saúde

Chá de salgueiro: as 2 fórmulas oficiais e a dose

O Formulário de Fitoterápicos traz duas maneiras de fazer chá de casca de salgueiro, e elas não são variações da mesma coisa. Uma é infusão de 5 minutos com 1 a 3 g; a outra é decocção de 15 minutos sob abafamento com 4 g, tomada morna e depois da refeição. Técnica diferente, tempo diferente, quantidade diferente.

Infuso e decocto lado a lado

Fórmula 1 (infuso)Fórmula 2 (decocto)
Casca do caule1 a 3 g4 g
Água150 mL200 mL
Técnicainfusãodecocção, tampado
Tempo5 minutos15 minutos
Como tomar150 mL, 3x ao dia200 mL mornos, 3x ao dia, após as refeições
Casca por dia3 a 9 g12 g

A diferença de técnica não é estética. Infusão é água fervente despejada sobre a droga vegetal, com o fogo já desligado; decocção é fervura junto com a água. Casca é material lenhoso e denso, e por isso admite o método mais agressivo — a comparação entre os dois está em como fazer infusão e como fazer decocção.

Repare que a Fórmula 1 exige droga vegetal seca rasurada. Rasurada quer dizer cortada em fragmentos, não pulverizada e não em pedaço inteiro: casca inteira não entrega o conteúdo em cinco minutos, e pó atravessa o coador. O ponto de corte está em como moer erva seca.

Por que o decocto vai depois de comer, e morno

As duas instruções mais fáceis de ignorar são as que mais fazem diferença aqui. A monografia brasileira manda tomar o decocto após as refeições; a europeia acrescenta um conselho que o Brasil não copiou: “é aconselhável tomar com maior quantidade de água quente”.

Os dois cuidados apontam para o mesmo lado, o estômago. Salicilato irrita mucosa gástrica, e a casca de salgueiro ainda carrega 8% a 20% de taninos condensados — uma faixa que, segundo o relatório europeu, já é suficiente para causar desconforto estomacal, náusea e vômito em plantas com mais de 10% de taninos. Comer antes e diluir mais são as duas alavancas caseiras contra isso. Quem tem úlcera péptica não tem alavanca nenhuma: para essas pessoas a preparação é contraindicada, como se lê em quem não pode tomar salgueiro.

A instrução de tomar ainda morno é da Fórmula 2 e vale como validade prática: decocto é preparação extemporânea, feita para uso imediato.

Quanta salicina cabe na xícara — a resposta honesta é “depende”

Nenhuma das duas fórmulas de chá declara conteúdo de salicina. As cápsulas da mesma monografia declaram relação droga-extrato; a xícara, não. Dá para estimar, e a estimativa é justamente o argumento contra tratar o chá como dose.

Usando o mínimo de 1,5% de derivados salicílicos que a Farmacopeia Europeia exige da droga vegetal, os 12 g de casca por dia da Fórmula 2 renderiam em torno de 180 mg de salicina — se toda ela fosse extraída, o que não acontece. Usando o teor real medido na casca de Salix purpurea, de 4% a 8%, a mesma quantidade de casca conteria de 480 a 960 mg. É uma variação de mais de cinco vezes entre dois cenários igualmente compatíveis com a monografia.

Não há nisso motivo para tomar mais nem para tomar menos: há motivo para não confundir chá com comprimido. A conversa sobre o que a fonte sustenta em termos de efeito está em salgueiro para dor nas articulações e em salgueiro para gripe.

A forma que o Brasil não trouxe: a casca em pó

Vale registrar, porque aparece em produto importado. A monografia europeia autoriza, além do chá, a droga vegetal pulverizada na dose de 260 a 500 mg, de três a oito vezes ao dia. Na Espanha, 400 mg de casca em pó são administrados a cada 8 horas; na França, cápsulas de 260 mg de pó estão autorizadas desde 1988.

O Formulário brasileiro não incorporou essa forma. Quem encontra cápsula de “pó de casca de salgueiro” no comércio está diante de uma apresentação com respaldo europeu e sem fórmula correspondente no compêndio nacional — o que não a torna proibida, mas significa que a dose impressa no rótulo não veio da FT069-01.

O tempo que qualquer uma dessas formas pode ficar em uso é curto e está escrito: veja por quanto tempo tomar salgueiro. A ficha completa da espécie, com o teor de salicina de cada Salix, está em salgueiro.

Perguntas frequentes

Pode adoçar o chá de salgueiro?

A monografia não trata de açúcar, e adoçar não altera a extração, que já terminou quando o chá foi coado. O amargor vem dos taninos da casca, e é o sinal sensorial de que a preparação está concentrada. Se o gosto é o obstáculo, o problema não se resolve mudando o preparo.

Quantas xícaras de chá de salgueiro por dia?

Três, nas duas fórmulas brasileiras: 150 mL do infuso ou 200 mL do decocto, três vezes ao dia. Na Alemanha, um chá registrado desde 1999 usa saquinhos de 1,995 g e autoriza de 3 a 6 xícaras diárias. Nenhum dos dois textos permite tomar por tempo indeterminado.

O chá pode ficar pronto na garrafa térmica para o dia todo?

A Fórmula 2 fecha essa porta: o decocto deve ser tomado recentemente preparado e ainda morno. É uma preparação extemporânea, feita para uso imediato. Guardar não está previsto, e a instrução europeia de tomar após as refeições reforça que cada dose é um evento, não um estoque.

Casca de salgueiro comprada em feira serve?

Só se houver identificação da espécie e garantia de que é casca do caule seca. O teor de salicina varia de 0,5% a 10% conforme a espécie e ainda muda com a estação e o processamento. Sem identificação botânica, a xícara pode ter dez vezes mais ou dez vezes menos princípio ativo do que se imagina.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT069-01, Salix: a Fórmula 1 com 1 a 3 g de casca do caule para 150 mL de água por infusão de 5 minutos com droga vegetal seca rasurada, a Fórmula 2 com 4 g para 200 mL por decocção de 15 minutos sob abafamento, e o modo de usar de 150 mL do infuso três vezes ao dia e 200 mL do decocto recentemente preparado, ainda morno, três vezes ao dia após as refeições
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix, cortex (EMA/HMPC/80630/2016): a posologia do chá na coluna de uso tradicional, a instrução de tomar após as refeições e com maior quantidade de água quente, e a dose de droga vegetal pulverizada de 260 a 500 mg de três a oito vezes ao dia, que o Formulário brasileiro não incorporou
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Salix, cortex (EMA/HMPC/80628/2016): o registro alemão de saquinho de chá com 1,995 g de casca rasurada e posologia de 3 a 6 xícaras por dia desde 1999, o teor de taninos condensados de 8% a 20% na casca, a nota de que os taninos podem interferir na absorção do ácido salicílico e a variação do teor de salicina entre espécies e condições de cultivo

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026