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Guia da Saúde

Tintura de funcho: fórmula, dose e o que falta nela

A tintura de funcho aparece em uma só das três monografias brasileiras da espécie: é a fórmula 2 da FT032, com 10 g de fruto e álcool etílico 40% q.s.p. 100 mL, tomada de 1 a 3 mL diluídos em 50 mL de água, de uma a três vezes ao dia. Uso adulto. As monografias do funcho-amargo e do funcho-doce não têm tintura, e a Europa também não.

A fórmula, linha por linha

ComponenteQuantidade
Fruto seco de Foeniculum vulgare10 g
Álcool etílico 40%q.s.p. 100 mL

O preparo tem duas instruções que valem ler com atenção. A primeira: triturar o fruto seco e extrair por percolação — o líquido atravessa a coluna de material vegetal lentamente, e não é a maceração de deixar de molho num vidro. A segunda é uma ressalva rara no Formulário:

“Em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes.”

Quarenta por cento é pouco álcool para uma tintura. O álcool, além de extrair, conserva; abaixo de um certo teor, ele deixa de dar conta sozinho, e o produto passa a precisar de conservante. Some-se a orientação de guardar em frasco de vidro âmbar, contra a luz, e fica claro por que esta é uma preparação de farmácia de manipulação, não de cozinha.

O que a tintura trata, e por que não é igual ao chá

As indicações registradas para cada uma das duas fórmulas da FT032 não são as mesmas:

FórmulaPreparaçãoIndicação registrada
1infuso, 5 a 7 g em 150 mLauxiliar no tratamento sintomático de queixas gastrintestinais leves — cólicas, distensão abdominal e flatulência
2tintura, 10 g em 100 mLauxiliar no alívio de sintomas dispépticos; antiespasmódico; e antiflatulento

A palavra “dispéptico” só aparece na fórmula da tintura. É a diferença entre “queixas gastrintestinais leves”, que é um guarda-chuva de sintomas, e o alívio da má digestão propriamente dita — o desconforto depois de comer, com peso e plenitude. O que se sabe da farmacologia disso está em funcho para má digestão, e o eixo dos gases, em funcho para gases.

A referência que não sustenta a indicação

Aqui está o problema técnico desta monografia, e ele é do tipo que só aparece abrindo a fonte.

A indicação antiflatulenta da tintura é creditada, na FT032, a três referências. Uma delas é Alexandrovich e colaboradores, 2003. O título completo do trabalho é “The effect of fennel (Foeniculum vulgare) seed oil emulsion in infantile colic: a randomized, placebo-controlled study”.

Confrontando o que o estudo é com o que ele está sustentando:

O estudo de Alexandrovich 2003A indicação da fórmula 2
População125 lactentes de 2 a 12 semanas de idadeuso adulto
Preparaçãoemulsão de óleo de semente de funcho em águatintura hidroalcoólica a 40%
Desfechochoro cumulativo abaixo de 9 horas por semana, critérios de Wesselflatulência

São três desencontros ao mesmo tempo: população, forma farmacêutica e desfecho. O ensaio é bom no que ele mesmo se propôs — 65% de resolução no grupo tratado contra 23,7% no controle, com número necessário para tratar de 2 —, mas ele não diz nada sobre tintura, nem sobre adulto, nem sobre flatulência. É o erro clássico deste terreno: dado certo, contexto errado.

Registrar isso não afrouxa nada. As outras duas referências da mesma indicação são obras de prescrição fitoterápica, e é sobre elas que a indicação continua de pé — como uso tradicional, que é o status de tudo o que existe sobre o funcho. O que o achado tira é a impressão de que existe ensaio clínico atrás da tintura. Não existe.

O mesmo padrão aparece na outra indicação da fórmula 2: para “antidispéptico e antiespasmódico” a monografia cita, entre outros, um ensaio iraniano de 2003 que comparou funcho e ácido mefenâmico em cólica menstrual — outro desfecho, discutido em funcho para cólica menstrual.

Na Europa, esta preparação simplesmente não existe

Vale o contraste, porque ele é radical. As duas monografias europeias em vigor trazem, na seção de preparações vegetais, duas palavras: “Not applicable”. E na seção de forma farmacêutica, uma frase: “Herbal substance as herbal tea for oral use.”

Ou seja: o comitê europeu reconhece uma única forma para o fruto de funcho, o chá. Nenhum extrato, nenhuma tintura, nenhuma cápsula. A tintura brasileira vem de outra linhagem — um vademecum nacional de plantas medicinais publicado na Guatemala em 2009 —, e é dele que saem tanto a fórmula quanto a posologia.

Quem não pode

Todas as advertências da FT032 valem para as duas fórmulas, e a tintura acrescenta uma: ela é de uso adulto, enquanto o infuso da mesma monografia é descrito como de uso adulto e pediátrico. Contraindicação em gestação, hipersensibilidade a Apiaceae, histórico de convulsões, hiperestrogenismo, hipermenorreia e refluxo se aplicam igual — a lista completa está em quem não pode tomar funcho.

Há um cuidado extra específico da forma alcoólica: quem evita álcool por qualquer motivo — clínico, religioso ou de tratamento — precisa saber que 1 a 3 mL de uma solução a 40% carregam álcool, ainda que diluídos em meio copo de água.

A alternativa em água, com as proporções e o tempo de infusão, está em chá de funcho. O panorama da espécie e a diferença entre as três monografias ficam em funcho: para que serve, e os efeitos registrados em funcho: efeitos colaterais.

Perguntas frequentes

Qual a dose da tintura de funcho?

Pela fórmula 2 da monografia FT032, de 1 a 3 mL da tintura diluídos em 50 mL de água, de uma a três vezes ao dia, por via oral. A advertência da mesma fórmula é explícita: uso adulto. Não há dose de tintura registrada para criança em nenhuma das três monografias brasileiras de funcho.

Posso fazer tintura de funcho em casa?

A fórmula está publicada, mas o preparo descrito não é caseiro: o fruto é triturado e extraído por percolação, técnica de laboratório de manipulação, e a própria monografia recomenda o uso de conservantes por causa do baixo teor alcoólico da formulação, que é de 40%. Tintura mal conservada é meio de cultura, e a orientação de acondicionar em frasco de vidro âmbar existe porque o produto é sensível à luz.

Tintura de funcho é mais forte que o chá?

É mais concentrada por volume, e por isso a dose é medida em mililitros e diluída antes de beber. Mas não são preparações intercambiáveis: a tintura é hidroalcoólica e extrai um perfil de substâncias diferente do da água quente, e as indicações registradas para ela na FT032 também não são exatamente as mesmas do infuso. Trocar uma pela outra na mesma proporção não tem respaldo em nenhuma das monografias.

Por que a tintura de funcho não tem monografia na Europa?

Porque o comitê europeu admitiu uma única forma farmacêutica para o fruto de funcho: a droga vegetal como chá para uso oral. Na seção de preparações vegetais das duas monografias em vigor está escrito not applicable. A tintura brasileira vem de outra fonte, um vademecum de plantas medicinais da Guatemala publicado em 2009.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT032, Foeniculum vulgare Miller: a fórmula 2 (10 g de fruto e álcool etílico 40% q.s.p. 100 mL), o preparo por trituração e percolação, a recomendação de conservantes pelo baixo teor alcoólico, o acondicionamento em frasco de vidro âmbar, a advertência de uso adulto, as indicações como antidispéptico, antiespasmódico e antiflatulento e a posologia de 1 a 3 mL diluídos em 50 mL de água, de uma a três vezes ao dia
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Foeniculum vulgare subsp. vulgare var. vulgare, fructus (EMA/HMPC/372841/2016 Rev. 1, 2024): a seção 2, que registra 'Herbal preparations: not applicable', e a seção 3, que admite uma única forma farmacêutica — a droga vegetal como chá para uso oral
  3. Alexandrovich I, Rakovitskaya O, Kolmo E, Sidorova T, Shushunov S — The effect of fennel (Foeniculum vulgare) seed oil emulsion in infantile colic: a randomized, placebo-controlled study (Alternative Therapies in Health and Medicine, 2003; 9(4):58-61): o ensaio com 125 lactentes de 2 a 12 semanas de idade tratados com emulsão de óleo de semente de funcho, citado pela FT032 como respaldo da indicação antiflatulenta da tintura de uso adulto

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026