Pular para o conteúdo
Guia da Saúde

Tintura de melissa: fórmula, dose e quem não pode

A tintura de melissa registrada é 20 g de folha com álcool etílico de 45 a 53%, completando 100 mL, numa relação droga-extrato de 1:5. A dose é de 2 a 6 mL diluídos em 50 mL de água, de uma a três vezes ao dia, e a preparação é de uso adulto.

”45 a 53%” não é uma faixa de força

Parece que o Formulário está autorizando qualquer graduação entre dois extremos. Não está — e a explicação veio de uma nota técnica da revisão da monografia europeia, reproduzida no relatório de avaliação.

Álcool pode ser declarado de duas maneiras: em massa por massa (m/m) ou em volume por volume (V/V). São escalas diferentes para o mesmo líquido. Quando a EMA padronizou tudo em V/V, registrou a equivalência:

“45% m/m ethanol (=53% V/V) preparations are considered to be corresponding products and are thus also covered by the monograph.”

Ou seja: 45% m/m e 53% V/V são o mesmo álcool, escrito de dois jeitos. A faixa “45 a 53%” que aparece na fórmula brasileira nasceu de acomodar as duas notações históricas dentro do mesmo texto, não de permitir tinturas mais fracas ou mais fortes conforme a conveniência de quem manipula.

A conta que a proporção permite fazer

O Formulário declara a relação droga-extrato de cada preparação, e isso torna possível compará-las na única unidade que interessa: quanto de folha há em cada dose. A conta abaixo é aritmética direta a partir das proporções declaradas no documento.

PreparaçãoProporçãoDose registradaFolha por dose
Infuso (fórmula 1)1,5 a 4,5 g em 150 mL150 mL do infuso1,5 a 4,5 g
Tintura (fórmula 2)RDE 1:5 — 1 g de folha a cada 5 mL2 a 6 mL0,4 a 1,2 g
Extrato fluido (fórmula 3)RDE 1:1 — 1 g de folha a cada 1 mL2 a 4 mL2 a 4 g

O resultado inverte a intuição. A tintura é a preparação que menos folha entrega por dose — bem abaixo do piso do chá —, enquanto o extrato fluido, cinco vezes mais concentrado que ela, cai praticamente em cima da faixa do infuso. E ainda assim a dose em mililitros da tintura (2 a 6 mL) é maior que a do extrato fluido (2 a 4 mL).

Daí a regra que vale para qualquer preparação líquida: “tomar tantos mL de tintura” não significa nada sem a proporção de extração escrita ao lado. Duas tinturas de melissa com proporções diferentes não são intercambiáveis, mesmo com o mesmo nome no rótulo.

Conservante e vidro âmbar: duas exigências que revelam a fragilidade

O Formulário faz uma observação sobre as fórmulas 2 e 3 que quase nenhum site reproduz:

“Em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes.”

Álcool é, ele mesmo, um conservante — mas só acima de certa graduação. Uma tintura na faixa dos 45% está no limite em que o próprio solvente já não garante a estabilidade microbiológica do produto, e daí a recomendação. Some a isso a exigência de acondicionar em frasco de vidro âmbar, que barra parte da luz, e a orientação geral de proteger o fitoterápico de luz e umidade.

É a descrição de uma preparação que pede controle de fabricação — e é o argumento mais concreto contra a versão improvisada em vidro de conserva.

A tintura de melissa é a forma mais restrita da planta

A idade mínima da melissa é 12 anos para o chá e para a cápsula. Nas preparações alcoólicas ela sobe para 18, e a lista de quem não pode ganha três nomes que não aparecem no infuso. São “especialmente contraindicadas” para:

Todas as advertências gerais da planta continuam valendo por cima dessas: hipotireoidismo, glaucoma, hiperplasia benigna de próstata, cautela na hipotensão, não dirigir durante o uso e reavaliar em duas semanas. A lista completa está em quem não pode tomar melissa.

Na Europa, a preocupação com o álcool virou obrigação de rótulo: tinturas e extratos fluidos de melissa precisam trazer a rotulagem específica para etanol prevista na diretriz de excipientes.

Quem prefere a preparação sem álcool encontra a gramatura, a técnica e o tempo de infusão em chá de melissa — e o quadro geral da espécie em melissa: para que serve.

Perguntas frequentes

Dá para fazer tintura de melissa em casa com vodca?

A fórmula especifica álcool etílico em graduação definida, folha seca pela técnica do próprio Formulário, proporção de extração 1:5 e ainda recomenda conservante. Vodca comum fica bem abaixo dessa graduação, o que muda o que é extraído e a estabilidade do produto. Mudando isso, a dose de 2 a 6 mL deixa de corresponder à preparação que foi registrada.

A tintura de melissa pode ser tomada pura, direto no copo?

A posologia registrada diz diluir em 50 mL de água antes de tomar, tanto para a tintura quanto para o extrato fluido. A diluição faz parte do modo de usar, não é sugestão de sabor: ela reduz o contato de uma solução alcoólica concentrada com a mucosa da boca e do esôfago.

A tintura serve para as mesmas coisas que o chá?

Sim. A seção de indicações da monografia é única e vale para as quatro fórmulas: auxiliar no alívio da ansiedade e da insônia leves e no tratamento sintomático de queixas gastrintestinais leves. O que muda entre as fórmulas é a concentração, a dose, a idade mínima e as restrições ligadas ao álcool, não a indicação.

Por que a tintura de melissa é contraindicada para diabéticos?

Pelo álcool da formulação, não pela planta. O Formulário agrupa a mesma restrição para gestantes, lactantes, pessoas com alcoolismo, menores de 18 anos e diabéticos, e declara o motivo na própria frase: em função do teor alcoólico na formulação. Quem precisa evitar álcool tem no infuso a forma sem esse componente.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT048, Melissa officinalis L.: a fórmula 2 de tintura (20 g de folha e álcool etílico de 45 a 53% q.s.p. 100 mL, RDE 1:5), a fórmula 3 de extrato fluido (100 g de folha, RDE 1:1), a recomendação de conservantes em razão do baixo teor alcoólico, o acondicionamento em frasco de vidro âmbar, as posologias de 2 a 6 mL e de 2 a 4 mL diluídos em 50 mL de água e a contraindicação a gestantes, lactantes, alcoolistas, menores de 18 anos e diabéticos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196745/2012): a tintura na proporção 1:5 com etanol de 45 a 53% V/V e dose de 2 a 6 mL de uma a três vezes ao dia, o extrato fluido DER 1:1 com dose de 2 a 4 mL, a restrição a adultos e adolescentes acima de 12 anos e a exigência de rotulagem de etanol
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196746/2012): o esclarecimento de que as porcentagens de etanol foram padronizadas em V/V na revisão da monografia e de que preparações com etanol a 45% m/m equivalem a 53% V/V, sendo consideradas produtos correspondentes

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026