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Guia da Saúde

Melissa na gravidez: contraindicada, e o motivo

Não. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa contraindica a melissa durante a gestação e a lactação, e a monografia europeia diz que o uso não é recomendado nas duas situações. Vale para o chá, para a cápsula, para a tintura e para o extrato fluido — todas as formas.

A razão está escrita, e ela é sobre ausência de dado

O Formulário justifica na mesma frase da proibição: o uso é contraindicado na gestação, na lactação e para menores de 12 anos “devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”.

A monografia europeia é mais explícita ainda sobre o que falta. A seção de segurança pré-clínica traz duas linhas curtas:

“Tests on reproductive toxicity and carcinogenicity have not been performed.”

E a seção de gravidez e lactação acrescenta: “No fertility data available.”

Junte as duas e o quadro fica claro: os estudos que responderiam a essa pergunta nunca foram feitos. Não existe experimento mostrando que a melissa prejudica a gestação; existe um vazio onde esse experimento deveria estar. O relatório de avaliação fecha o raciocínio: “There is insufficient information on carcinogenicity, reproductive and developmental toxicity. Use during pregnancy and lactation can thus not be recommended.”

Essa distinção importa porque muda o tom da conversa. Uma planta abortiva documentada e uma planta não estudada recebem a mesma etiqueta de “contraindicada”, mas não são o mesmo problema.

Por que a tintura é ainda mais restrita

Tintura e extrato fluido de melissa levam álcool etílico de 45 a 53% na formulação, e o Formulário as coloca numa categoria à parte: são “especialmente contraindicadas” a gestantes e lactantes, junto com pessoas com alcoolismo, diabéticos e menores de 18 anos.

Aqui o motivo declarado nem é a melissa — é o álcool. Qualquer preparação alcoólica ingerida na gestação carrega essa restrição por si só. Os números da fórmula estão em tintura de melissa.

O tempero e o remédio não são a mesma coisa

Uma nuance que o relatório europeu registra e que ajuda quem já usou a folha na cozinha: a melissa é usada para aromatizar vinho, chá e cerveja, está listada pelo Conselho da Europa como fonte natural de aromatizante alimentar na categoria N2 — o que significa que pode ser adicionada a alimentos em pequenas quantidades — e consta como GRAS na classificação da agência americana de alimentos.

Isso não anula a contraindicação, e não é uma autorização disfarçada. É uma questão de dose e de finalidade: uma folha aromatizando um prato não é 4,5 g de folha seca em infusão, três vezes ao dia, por duas semanas. A contraindicação da monografia se refere ao uso medicinal, com dose medicinal. Quem comeu um prato temperado com melissa não fez uso de fitoterápico.

O contraste que surpreende

Vale comparar com a planta vizinha na prateleira. A camomila é permitida na gestação e na lactação pelo mesmo Formulário — com uma ressalva pontual sobre aplicação no mamilo —, enquanto a melissa é contraindicada. Duas plantas com fama parecida de “chá calmante”, dois tratamentos regulatórios opostos, no mesmo documento.

A explicação é justamente a que aparece nesta página: as monografias não seguem uma regra geral sobre plantas, seguem o que foi estudado em cada uma. Os detalhes do caso da camomila estão em camomila na gravidez.

O que fica

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação, e “natural” não descreve nenhuma das três. Na gestação e na amamentação, a melissa está fora — e o motivo, dito por inteiro, é que ninguém testou. A lista completa de quem mais deve evitar está em quem não pode tomar melissa, e as idades mínimas por forma farmacêutica em melissa para crianças.

Perguntas frequentes

Tomei chá de melissa antes de saber que estava grávida. E agora?

Leve a informação para o pré-natal, sem entrar em pânico. A contraindicação existe porque a planta não foi estudada em gestação, não porque haja relato de dano: os documentos oficiais não registram nenhum caso de malformação, aborto ou evento grave ligado à melissa. É um cenário de incerteza, não de exposição a um agente conhecidamente tóxico — e quem acompanha a gravidez é quem deve avaliar isso.

Melissa aumenta ou diminui a produção de leite?

Nenhuma das duas coisas está documentada. O Formulário e a monografia europeia contraindicam o uso na lactação pelo mesmo motivo da gestação, ausência de dados, e não fazem qualquer afirmação sobre volume de leite. Quem diz que aumenta ou que seca o leite está indo além do que as fontes oficiais sustentam.

Existe algum chá calmante liberado na gravidez?

Depende da planta, e a resposta muda de monografia para monografia. A camomila, por exemplo, é uma das poucas do Formulário cujo uso é permitido na gestação e na lactação — só que ela não tem indicação registrada para ansiedade nem para insônia. Não existe um chá que seja ao mesmo tempo liberado na gravidez e reconhecido como calmante no Formulário brasileiro.

E chá de melissa em trabalho de parto ou no pós-parto?

A contraindicação vale para toda a gestação e para toda a lactação, sem distinção de fase. Não há na monografia qualquer indicação obstétrica, nenhuma menção a trabalho de parto e nenhum dado sobre passagem para o leite materno.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT048, Melissa officinalis L.: a contraindicação do uso durante a gestação e a lactação por falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações, e a contraindicação especial da tintura e do extrato fluido a gestantes e lactantes em razão do teor alcoólico
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196745/2012): a seção 4.6, segundo a qual a segurança na gravidez e na lactação não foi estabelecida e o uso não é recomendado na ausência de dados suficientes, sem dados de fertilidade, e a seção 5.3, que registra que não foram realizados testes de toxicidade reprodutiva e de carcinogenicidade
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Melissa officinalis L., folium (EMA/HMPC/196746/2012): a conclusão de que não há informação sobre carcinogenicidade e toxicidade reprodutiva e do desenvolvimento, e o registro de que a folha é usada como aromatizante de vinho, chá e cerveja, listada pelo Conselho da Europa na categoria N2 e como GRAS pela agência americana de alimentos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026