Tintura de passiflora: a dose de 2 mL não é uma só
O Formulário registra duas preparações alcoólicas de passiflora: uma tintura e um extrato fluido. As duas se tomam na mesma quantidade — 2 mL diluídos em 50 mL de água, até três vezes ao dia — e as duas são de uso adulto. Mas os 2 mL de uma carregam oito vezes mais erva que os 2 mL da outra.
A mesma dose em mililitros, oito vezes mais erva
A razão droga-extrato é o número que resolve isso, e ele está escrito nas duas fórmulas. A tintura é 1:8: 10 g de parte aérea para 80 mL de produto, ou seja, cerca de 0,125 g de erva por mililitro. O extrato fluido é 1:1: 100 g para 100 mL, ou seja, 1 g de erva por mililitro.
| Tintura (fórmula 2) | Extrato fluido (fórmula 3) | |
|---|---|---|
| Parte aérea | 10 g | 100 g |
| Solvente | álcool 45% | álcool 70% |
| Volume final | 80 mL | 100 mL |
| Razão droga-extrato | 1:8 | 1:1 |
| Erva por mL | ~0,125 g | ~1 g |
| Dose registrada | 2 mL, até 3 vezes ao dia | 2 mL, até 3 vezes ao dia |
| Erva por dia, no teto | ~0,75 g | ~6 g |
O mesmo “2 mL, três vezes ao dia” produz, no fim do dia, 0,75 g de erva ou 6 g de erva conforme o vidro. Para efeito de comparação, o teto do infuso é de 8 g diários, como mostra chá de passiflora — o extrato fluido no topo chega perto disso; a tintura fica em menos de um décimo.
E isso não é peculiaridade brasileira: a monografia europeia traz exatamente as mesmas duas preparações com exatamente a mesma dose de 2 mL até três vezes ao dia. A consequência prática é uma só e vale escrever inteira: “tomo 2 mL de passiflora” não descreve dose nenhuma. Sem saber a razão droga-extrato do frasco, o número não significa nada — e copiar a dose de um vidro para outro é um erro com fator de oito.
Por que a tintura pede conservante
Uma instrução do documento que quase ninguém reproduz: “em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes”. Ela vale para a fórmula 2, a de álcool a 45%.
Abaixo de certa graduação, o próprio solvente deixa de garantir a conservação do produto. Junte a isso o acondicionamento obrigatório em frasco de vidro âmbar — que barra parte da luz e não reage com a preparação — e fica claro que se trata de uma forma farmacêutica com exigência de estabilidade, não de um vidro de conserva no armário. É o argumento mais concreto contra a versão caseira.
Os seis extratos líquidos que a Europa reconhece
O Brasil registra dois; a Europa reconhece seis extratos líquidos de uso tradicional, e a lista mostra que o solvente muda a posologia mesmo com a mesma razão droga-extrato:
| Preparação | Razão | Etanol | Dose única | Frequência |
|---|---|---|---|---|
| c | 1:8 | 25% | 2 a 4 mL | até 4 vezes ao dia |
| d | 1:8 | 45% | 2 mL | até 3 vezes ao dia |
| e | 1:3,6 | 60% | 1 mL | 3 a 5 vezes ao dia |
| f | 1:1 | 25% | 0,5 a 2 mL | até 4 vezes ao dia |
| g | 1:1 | 70% | 2 mL | até 3 vezes ao dia |
| h | 1:3,8–4,3 | com glicerina | 0,3 a 0,4 mL | 3 a 5 vezes (adulto) |
As fórmulas brasileiras são as linhas d e g — cópia exata, inclusive na dose. Repare nas duas linhas de razão 1:8: mudando só o etanol de 25% para 45%, o teto diário cai de 16 mL para 6 mL. A Europa trata a graduação do solvente como razão suficiente para duas posologias distintas.
A linha h é a única de toda a monografia com dose escrita separadamente para adolescente, e o detalhe está em passiflora para crianças.
Uso adulto, e o que isso significa aqui
As fórmulas 2 e 3 trazem, na advertência, apenas “uso adulto” — enquanto o infuso e a cápsula são de “uso adulto e pediátrico acima de 12 anos”. O álcool é a diferença material, e é ele também que puxa a lista extra de contraindicação do extrato fluido: gestantes, lactantes, alcoolistas, diabéticos e menores de 18 anos, explicitamente “em função do teor alcoólico na formulação”.
Some a isso a orientação de não utilizar o fitoterápico simultaneamente ao consumo de bebidas alcoólicas, e a conta fica evidente: quem escolhe a versão em gotas já está somando álcool à conta, ainda que em volume pequeno.
Na Europa a preocupação virou obrigação de rótulo — extratos líquidos com etanol precisam trazer a rotulagem específica prevista na diretriz de excipientes. Quem prefere a preparação sem álcool encontra a proporção e a técnica em chá de passiflora; a lista completa de restrições, em quem não pode tomar passiflora; e o que a espécie é, em passiflora.
Perguntas frequentes
Quantas gotas de tintura de passiflora devo tomar?
Nenhum dos documentos publica a dose em gotas — todos trabalham em mililitros. O tamanho da gota muda com o conta-gotas, com a viscosidade e com o teor alcoólico, e converter de cabeça é onde a dose se perde. Um dos ensaios clínicos publicados usou 45 gotas por dia de um extrato cujo tipo nem foi reportado, o que ilustra o problema em vez de resolvê-lo.
Dá para fazer tintura de passiflora em casa?
As fórmulas especificam álcool etílico em concentração definida, parte aérea seca pela técnica do próprio documento, razão droga-extrato controlada, conservante e frasco de vidro âmbar. Mudado o solvente, muda a graduação, muda o que é extraído e muda a estabilidade — e, com isso, a dose de 2 mL deixa de corresponder ao que foi registrado.
Tintura é mais forte que o chá?
Depende de qual tintura, e a conta não é intuitiva. Uma dose de 2 mL da tintura 1:8 leva cerca de 0,25 g de erva, enquanto uma xícara do infuso leva de 1 a 2 g. Já 2 mL do extrato fluido 1:1 levam cerca de 2 g, o topo da xícara. Ou seja, a forma em gotas pode ser mais fraca ou equivalente, conforme a preparação.
Por que a dose vai diluída em 50 mL de água?
É o que a posologia especifica nas duas fórmulas, sem exceção. A diluição padroniza o volume ingerido e evita o contato direto de uma solução com 45% a 70% de álcool com a mucosa. Não é sugestão de sabor: faz parte do modo de usar registrado.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT056, Passiflora incarnata L.: a fórmula 2 (parte aérea 10 g e álcool etílico 45% q.s.p. 80 mL, com razão droga-extrato de 1:8) e a fórmula 3 (parte aérea 100 g e álcool etílico 70% q.s.p. 100 mL, com razão droga-extrato de 1:1); a recomendação de conservantes na tintura em razão do baixo teor alcoólico; o acondicionamento em frasco de vidro âmbar; a posologia de 2 mL diluídos em 50 mL de água até três vezes ao dia nas duas fórmulas; a advertência de uso adulto; e a contraindicação do extrato fluido a gestantes, lactantes, alcoolistas, diabéticos e menores de 18 anos em função do teor alcoólico
- European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669740/2013): os seis extratos líquidos de uso tradicional, com razões droga-extrato de 1:8, 1:3,6, 1:1 e 1:3,8–4,3 e solventes de etanol a 25%, 45%, 60% e 70%; as doses únicas correspondentes de 0,3 a 4 mL e as frequências de até três, quatro ou cinco vezes ao dia; e a exigência de rotulagem específica de etanol nos extratos líquidos que o contenham
- Akhondzadeh S, Naghavi HR, Vazirian M, Shayeganpour A, Rashidi H, Khani M. Passionflower in the treatment of generalized anxiety: a pilot double-blind randomized controlled trial with oxazepam. Journal of Clinical Pharmacy and Therapeutics, v. 26, n. 5, p. 363-367, 2001 (PMID 11679026) — o ensaio que administrou o extrato de passiflora na forma de 45 gotas por dia, sem que o tipo de preparação e os detalhes de posologia fossem descritos, defeito apontado no relatório de avaliação da EMA
- WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (Organização Mundial da Saúde, 2007) — monografia Herba Passiflorae: a posologia de tintura 1:8 em dose de 1,0 a 4,0 mL de três a quatro vezes ao dia, e a lista de formas farmacêuticas que inclui parte aérea seca em pó, cápsulas, extratos, extrato fluido e tinturas, com armazenamento em recipiente bem fechado ao abrigo do calor e da luz
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026