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Guia da Saúde

Passiflora na gravidez: a origem da contraindicação

Não se toma passiflora na gravidez. Anvisa, OMS e NIH convergem, e a monografia brasileira ainda destaca o extrato fluido como especialmente contraindicado a gestantes. Mas a frase que circula como explicação — “causa contrações uterinas” — tem uma origem que vale abrir, porque ela é mais frágil do que o motivo verdadeiro.

De onde vem a frase das contrações uterinas

A monografia brasileira escreve: o extrato fluido “é especialmente contraindicado a gestantes (de acordo com estudos em animais pode causar contrações uterinas)”, e credita a informação à monografia da OMS de 2007.

Abrindo a OMS, a frase correspondente é: “Herba Passiflorae has been shown to stimulate uterine contractions in animal models”, com uma referência única — a de número 22. E a referência 22 é Ruggy GH & Smith CS, Journal of the American Pharmaceutical Association, 1940.

A própria OMS descreve o experimento, na seção de farmacologia, com uma precisão que a citação resumida perde:

um extrato fluido das partes aéreas, a 1,0 mol/L, estimulou contrações fortes no útero de cobaia e coelho — não grávidas — in vitro.

Três qualificações desaparecem no caminho até a bula: in vitro, útero isolado e não grávido. É um ensaio de banca de 1940, em órgão fora do animal, sem gestação envolvida.

A frase seguinte, no mesmo parágrafo

O que torna o achado incômodo não é a fragilidade do estudo de 1940 — é o que a OMS escreve duas linhas depois, e que não sobe para a seção de contraindicações:

“However, a fluidextract, 1.0–2.0 mol/l, did not stimulate contractions in the isolated uterus from pregnant guinea-pigs.”

A referência dessa segunda frase é Pilcher JD & Mauer RT, Surgery, Gynecology and Obstetrics, 1918 — um trabalho ainda mais antigo, feito justamente para testar o efeito de “remédios femininos” sobre o útero íntegro de animais. Ou seja: no útero prenhe, o extrato fluido não contraiu.

O documento tem, lado a lado, um resultado positivo em útero não grávido e um resultado negativo em útero grávido — e usa o primeiro, sozinho, como base da contraindicação. Registrar isso não muda a conduta. Muda o argumento.

O motivo que realmente sustenta a contraindicação

O argumento sólido está do lado europeu, e é o oposto de um estudo antigo: é a ausência completa de estudo. O relatório de avaliação da EMA, de 2014, diz textualmente que não há estudos disponíveis sobre carcinogenicidade e toxicidade reprodutiva e do desenvolvimento, e que também não há dados de fertilidade.

Três consequências saem daí, e nenhuma depende de 1940:

  • a segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida — e por isso o uso não é recomendado;
  • nenhum efeito adverso foi relatado com o uso de passiflora na gestação e na lactação, o que é informação verdadeira e insuficiente ao mesmo tempo: relato espontâneo não é vigilância;
  • faltando até o dado mínimo de mutagenicidade (teste de Ames), o comitê europeu não recomendou a inclusão da passiflora na lista comunitária de substâncias vegetais tradicionais.

Esse último ponto é o que dá o tamanho do vazio. Não é que a passiflora tenha reprovado num teste de segurança reprodutiva: é que o arquivo está vazio, do teste mais básico em diante. Gravidez é exatamente a situação em que arquivo vazio pesa mais.

Amamentação e o caso do extrato fluido

A lactação recebe a mesma resposta e pela mesma razão. O Brasil contraindica; a Europa não recomenda; o NIH diz que a segurança durante a amamentação é desconhecida. Nenhum dos três descreve passagem para o leite, porque nenhum mediu.

O extrato fluido é o caso mais fechado dos três, e por um motivo somado: além de tudo o que está acima, ele é 100 g de parte aérea em álcool a 70%, e a monografia o contraindica a gestantes e lactantes explicitamente por causa do teor alcoólico. As proporções estão em tintura de passiflora; a lista completa de quem deve evitar, em quem não pode tomar passiflora.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. Na gravidez, a conclusão da passiflora é simples de escrever e não muda com o achado desta página: não se toma — e insônia ou ansiedade na gestação são assunto do pré-natal, não da prateleira. O que a espécie é e o que ela sustenta está em passiflora; a faixa etária mínima, em passiflora para crianças.

Perguntas frequentes

Tomei chá de passiflora sem saber que estava grávida. E agora?

Converse com quem faz o pré-natal, levando a informação de quanto e por quantos dias. O que os documentos registram é ausência de dado, não dano demonstrado: o relatório europeu diz textualmente que nenhum efeito adverso foi relatado com o uso na gestação. Isso não libera continuar, mas também não descreve um cenário de emergência.

Chá de maracujá comum tem o mesmo problema?

São coisas diferentes e não dá para transferir a conduta. O fitoterápico é a parte aérea seca de Passiflora incarnata, uma trepadeira norte-americana; a fruta que se compra aqui é de outra espécie do gênero, e nenhuma das monografias trata da polpa ou do suco. Ausência de monografia não significa ausência de risco — significa ausência de avaliação.

Existe planta calmante liberada na gravidez?

Entre as publicadas aqui, só a camomila tem permissão explícita de uso na gestação e na lactação no Formulário. Mas há um detalhe que muda a resposta: a camomila não tem indicação registrada para ansiedade nem para insônia. Ou seja, a planta liberada não é a planta com essa finalidade, e a saída honesta é falar com quem acompanha o pré-natal.

Passiflora atrapalha a fertilidade ou a tentativa de engravidar?

O relatório europeu responde em quatro palavras: não há dados de fertilidade disponíveis. Nenhum dos três documentos registra efeito sobre fertilidade em qualquer direção — nem prejuízo, nem benefício. Quem está em tratamento de fertilidade deve informar o uso de qualquer planta à equipe.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT056, Passiflora incarnata L.: a contraindicação durante a gestação e a lactação por falta de dados adequados que comprovem a segurança, e a frase de que o extrato fluido é especialmente contraindicado a gestantes porque, de acordo com estudos em animais, pode causar contrações uterinas, atribuída à monografia da OMS de 2007
  2. WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (Organização Mundial da Saúde, 2007) — monografia Herba Passiflorae: a contraindicação na gestação apoiada na referência 22 (Ruggy GH, Smith CS, Journal of the American Pharmaceutical Association, 1940), estudo in vitro em útero não grávido de cobaia e coelho; e, no mesmo parágrafo, a referência 29 (Pilcher JD, Mauer RT, Surgery, Gynecology and Obstetrics, 1918), segundo a qual o extrato fluido não estimulou contrações no útero isolado de cobaias prenhes
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669738/2013): a declaração de que não há estudos disponíveis sobre carcinogenicidade e toxicidade reprodutiva e do desenvolvimento; o registro de que nenhum efeito adverso foi relatado com o uso na gestação e na lactação; a ausência de dados de fertilidade; e a conclusão de que, faltando o dado mínimo de mutagenicidade (teste de Ames), a espécie não foi recomendada para a lista comunitária
  4. NCCIH / National Institutes of Health — Passionflower: a orientação de que a passiflora não deve ser usada durante a gravidez porque pode induzir contrações uterinas, e a informação de que a segurança durante a amamentação é desconhecida

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026