Passiflora: para que serve, e por que não é maracujá
A passiflora tem uma linha de indicação no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa: auxiliar no alívio da ansiedade e da insônia leves. Duas queixas, uma frase. E a espécie do fitoterápico é a Passiflora incarnata, nativa da América do Norte, da qual se usa a parte aérea seca — não a fruta, não a polpa, não o suco.
A espécie do vidro não é a espécie da feira
O Formulário registra a nomenclatura popular desta planta em uma palavra: maracujá. Sem qualificação, sem adjetivo, sem alerta. É desse registro que nasce a confusão mais cara do assunto.
A monografia da OMS é a que resolve o mal-entendido, porque descreve a planta em vez de só nomeá-la. Herba Passiflorae é definida ali como as partes aéreas secas de Passiflora incarnata L., e a seção de distribuição geográfica tem quatro palavras: “Indigenous to North America”. A mesma monografia lista, entre os nomes vernaculares, tanto maracujá quanto maypop, apricot vine e wild passion flower — nomes de uma trepadeira silvestre norte-americana.
O maracujá que se compra no Brasil, o azedo de polpa amarela, é outra espécie do mesmo gênero, e a diferença não é acadêmica: nenhum dos três documentos trata da fruta de nenhuma passiflora. As quatro fórmulas brasileiras partem de folha, caule, gavinha e flor secas. Quem quer os dados da fruta encontra composição, calorias e fibra em tabela nutricional do maracujá e suco de maracujá — e nenhum deles é o fitoterápico desta página.
Que o gênero não é intercambiável está escrito na própria bibliografia da monografia brasileira: um dos dois artigos que ela usa para sustentar as reações alérgicas da P. incarnata é sobre Passiflora alata, outra espécie, como se vê em passiflora: efeitos colaterais.
As quatro fórmulas registradas
| Fórmula | O que é | Composição registrada |
|---|---|---|
| 1 | infuso (o chá) | 1 a 2 g de parte aérea em 150 mL de água |
| 2 | tintura | 10 g de parte aérea, álcool 45% q.s.p. 80 mL (1:8) |
| 3 | extrato fluido | 100 g de parte aérea, álcool 70% q.s.p. 100 mL (1:1) |
| 4 | cápsula com derivado | extrato seco correspondente à dose de uma das três acima |
A divisão etária corta a lista em dois: as fórmulas 1 e 4 são de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos; as fórmulas 2 e 3, uso adulto. O motivo é o álcool, não a planta — e é o que separa a proporção descrita em chá de passiflora das doses em mililitros.
Onde a passiflora se encaixa entre as calmantes
Quatro plantas do eixo calmante já estão publicadas aqui, e cada uma se comporta de um jeito no documento oficial. A passiflora ocupa uma casa que estava vazia:
| Planta | Ansiedade | Insônia / sono | Situação na Europa |
|---|---|---|---|
| Camomila | não consta | não consta | indicações digestiva, respiratória, oral e cutânea |
| Erva-cidreira de arbusto | ansiedade leve | não consta | espécie brasileira, sem monografia europeia |
| Melissa | sim | sim | uso tradicional; coluna do bem estabelecido vazia |
| Valeriana | não consta | indutor do sono | uma preparação com uso bem estabelecido |
| Passiflora | sim | sim | uso tradicional; coluna do bem estabelecido vazia |
Na monografia europeia da passiflora, a coluna do uso bem estabelecido está vazia da primeira à última seção — como na melissa. O relatório de avaliação fecha com a frase correspondente: “The information available is still insufficient to establish that Passiflora incarnata L., herba has a recognised efficacy and a ‘well-established’ medicinal use”. A OMS é ainda mais curta na seção de usos: “Uses supported by clinical data: None”.
Mas há uma diferença que separa a passiflora da valeriana, e é a que mais importa na prática. A valeriana é explicitamente inadequada ao uso agudo — seu efeito leva de duas a quatro semanas. A passiflora é o contrário: a posologia é escrita para ser repetida até quatro vezes no mesmo dia, e a advertência brasileira manda não utilizar cronicamente. Uma foi feita para o mês; a outra, para a semana. O que cada uma sustenta em cada queixa está em passiflora para ansiedade e passiflora para insônia.
A molécula que sustentava a fama, e que ninguém mais achou
Este é o episódio menos contado da passiflora. Em 2004, um grupo isolou da planta um derivado benzoflavônico trissubstituído e o apresentou como o principal constituinte bioativo, com efeito ansiolítico em camundongos a 10 mg/kg por via oral e uma lista longa de outros efeitos.
Em 2010, outro grupo tentou repetir o isolamento em material cultivado na Índia e na França e não encontrou a substância; num material italiano, achou apenas traços. O relatório europeu registra o desfecho com todas as letras: a estrutura química do derivado “does not appear to be known” e a quantidade presente na droga vegetal nunca foi reportada na literatura.
O detalhe que fecha o círculo: dois dos ensaios clínicos de passiflora padronizaram o extrato justamente pelo teor de benzoflavona — 1,01 mg por comprimido em um, 2,8 mg por 5 mL em outro. Ou seja, o marcador que define a dose dos estudos é o mesmo cuja presença na planta foi contestada. Não invalida os resultados, mas explica por que os reguladores tratam esses ensaios como estudos piloto, e não como base de eficácia.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e na passiflora as três estão escritas. A lista de quem deve evitar está em quem não pode tomar passiflora, o que consta sobre remédios em passiflora e remédios, e o índice das espécies publicadas em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Passiflora e maracujá são a mesma coisa?
Popularmente sim, botanicamente não. O Formulário registra o nome popular da Passiflora incarnata como maracujá, e a monografia da OMS lista maracujá entre os nomes vernaculares dela — mas a mesma monografia diz que a espécie é nativa da América do Norte e que a droga vegetal são as partes aéreas secas. A fruta que se compra na feira vem de outra espécie do gênero, e nenhum dos três documentos trata da polpa.
Que parte da passiflora se usa?
A parte aérea seca e rasurada: folha, caule, gavinha e flor. É o que as quatro fórmulas do Formulário especificam e o que a Farmacopeia Europeia define como Passiflorae herba, com no mínimo 1,5% de flavonoides totais expressos em vitexina. A raiz não entra em nenhuma preparação registrada.
É verdade que a passiflora tem alcaloides?
Tem, em traços. As três fontes citam alcaloides beta-carbolínicos como harmana, harmol e harmalol, e o relatório europeu acrescenta que eles são indetectáveis na maioria dos materiais comerciais. A OMS trata o assunto como controle de qualidade e fixa um teto: no máximo 0,01% de alcaloides harmânicos na droga vegetal.
A passiflora contém um composto cianogênico?
Sim, a gynocardina, que aparece na lista de constituintes tanto do relatório europeu quanto da monografia da OMS. Nenhum dos dois documentos a trata como risco nas preparações e nas doses registradas, e nenhum publica limite para ela — mas é mais um motivo para a frase que fecha a monografia brasileira: não utilizar em doses acima das recomendadas.
Existe passiflora em cápsula no Brasil?
Existe, e é a fórmula 4 do Formulário. Ela não tem quantidade própria: é definida como o extrato seco correspondente à dose original de uma das outras três fórmulas, tomada até três ou quatro vezes ao dia conforme a preparação de referência. É a única das quatro que não traz um número de gramas ou mililitros no lugar da dose.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT056, Passiflora incarnata L.: a nomenclatura popular registrada como maracujá, as quatro fórmulas (infuso de 1 a 2 g em 150 mL, tintura, extrato fluido e cápsula com derivado), a indicação única de auxiliar no alívio da ansiedade e da insônia leves, a advertência de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos e a orientação de não utilizar cronicamente
- European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669740/2013, revisão de 25 de março de 2014): a indicação classificada exclusivamente como uso tradicional, a coluna de uso bem estabelecido vazia da primeira à última seção, as oito preparações reconhecidas, a dose de chá de 1 a 2 g em 150 mL de uma a quatro vezes ao dia e a não recomendação abaixo dos 12 anos
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669738/2013): a composição da parte aérea (flavonoides C-glicosídeos, maltol, óleo essencial em traços com mais de 150 componentes, o glicosídeo cianogênico gynocardina e alcaloides beta-carbolínicos indetectáveis na maioria dos materiais comerciais), o mínimo de 1,5% de flavonoides totais expressos em vitexina exigido pela Farmacopeia Europeia, o episódio do derivado benzoflavônico de Dhawan 2004 que Holbik 2010 não conseguiu reencontrar, e a conclusão de que a informação disponível continua insuficiente para uso bem estabelecido
- WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (Organização Mundial da Saúde, 2007) — monografia Herba Passiflorae: a definição da droga vegetal como as partes aéreas secas de Passiflora incarnata L., a distribuição geográfica nativa da América do Norte, a lista de nomes vernaculares que inclui maracujá e maypop, o limite de no máximo 0,01% de alcaloides harmânicos e a linha 'Uses supported by clinical data: None'
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026