Quem não pode tomar passiflora: a lista, e a do álcool
A passiflora é contraindicada na gestação, na lactação, para menores de 12 anos e para quem tem hipersensibilidade aos componentes da formulação. O extrato fluido tem uma lista própria, mais longa, que inclui alcoolistas, diabéticos e menores de 18 anos — e o motivo dessa segunda lista não é a planta.
Os quatro grupos que não podem, ponto final
| Quem | O que diz o documento |
|---|---|
| Gestantes | contraindicado — e o extrato fluido, especialmente |
| Lactantes | contraindicado, por falta de dados de segurança |
| Menores de 12 anos | contraindicado no Brasil; “não recomendado” na Europa |
| Hipersensíveis à formulação | contraindicado |
Repare no que a monografia brasileira escreve como justificativa dos três primeiros: “devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”. Não é dano demonstrado — é ausência de estudo. A diferença entre as duas coisas, e por que ela não afrouxa a conduta, está em passiflora na gravidez e em passiflora para crianças.
A lista extra existe por causa do álcool, não da planta
Este é o item que quase nenhum texto separa. A monografia acrescenta que o uso do extrato fluido é especialmente contraindicado a gestantes, lactantes, alcoolistas, diabéticos e a menores de 18 anos — e diz por quê, na mesma frase: “em função do teor alcoólico na formulação”.
Ou seja, três dos cinco grupos dessa segunda lista não estão ali por nada que a passiflora faça. Estão ali porque a fórmula 3 é 100 g de parte aérea em álcool a 70%, e porque a fórmula 2, a tintura, usa álcool a 45%. Quem toma o infuso — que é só água quente e erva — não está exposto a esse vetor. As proporções e as doses em mililitros estão em tintura de passiflora.
A consequência prática é a inversa da intuição: trocar o chá pelas gotas não é “a mesma coisa mais concentrada”, é mudar de forma farmacêutica, de faixa etária e de lista de contraindicação ao mesmo tempo.
Três documentos, três tamanhos de lista
| Documento | Contraindicações que registra |
|---|---|
| Anvisa, FT056 | hipersensibilidade, gestação, lactação, menores de 12 anos, mais a lista do extrato fluido |
| EMA, monografia | hipersensibilidade à substância ativa — só isso |
| OMS, 2007 | gestação — só isso |
A diferença não é contradição de dado, é diferença de critério. A monografia europeia separa “contraindicação” de “advertência”: gestação, lactação e idade mínima aparecem lá, mas na seção de advertências e precauções, sob a fórmula “o uso abaixo de 12 anos não foi estabelecido por falta de dados adequados”. Somando as duas seções, a Europa chega ao mesmo lugar do Brasil.
A OMS é o caso mais chamativo: além da gestação, sua seção de outras precauções registra literalmente que não há informação disponível sobre precauções gerais nem sobre interações medicamentosas. Vazio de dado não é atestado de segurança. Para quem vai usar, a conduta prudente é a mais restritiva das três — que é a brasileira.
Dirigir, operar máquinas e a advertência que vale o dia inteiro
“Seu uso pode causar sonolência, portanto é desaconselhado operar máquinas e dirigir durante o período em que se faz uso do fitoterápico.” A frase brasileira é ampla de propósito: fala do período de uso, não das horas seguintes à dose. A europeia diz o mesmo em duas linhas — pode prejudicar a capacidade de dirigir e operar máquinas, e o paciente afetado não deve fazer nem uma coisa nem outra.
Isso colide com a posologia, que prevê até quatro doses ao longo do dia para uma queixa diurna. O conflito é real e não tem solução no papel: quem vai dirigir precisa saber como reage antes, e não descobrir na estrada. O NIH acrescenta ao quadro sonolência, tontura e confusão.
O uso longo não é o uso seguro
Duas frases do documento brasileiro andam juntas e costumam ser lidas separadas: “não utilizar cronicamente” e “caso não seja observada melhora sintomática durante duas semanas de uso, ou em caso de agravamento, um médico deverá ser consultado”.
Elas não dizem que a planta é perigosa no mês dois. Dizem que ninguém estudou o mês dois — e que ansiedade ou insônia que atravessam duas semanas de chá são queixas para investigar, não para insistir. Nada disso autoriza suspender ou substituir tratamento prescrito por conta própria; essa decisão é de quem prescreveu. O que consta sobre combinar com medicamento está em passiflora e remédios, e as reações já descritas, em passiflora: efeitos colaterais.
Perguntas frequentes
Quem vai operar precisa suspender a passiflora?
Nenhuma das duas monografias fixa um prazo, ao contrário do que acontece com a valeriana, que tem regra escrita de 15 dias. O que existe é a orientação do NIH: a passiflora pode interagir com fármacos de anestesia, e quem a usa não deve mantê-la antes de uma cirurgia sem aprovação médica. Na dúvida, o certo é avisar a equipe, mesmo tendo parado.
Quem tem pressão alta ou problema no coração pode tomar?
Hipertensão e cardiopatia não constam como contraindicação em nenhum dos três documentos. O que existe é um relato de caso isolado, publicado em 2000, de arritmia e prolongamento do intervalo QT com uso em dose terapêutica, cuja causalidade os próprios reguladores dizem não estar estabelecida. Quem toma medicação cardíaca deve falar com quem prescreve antes de somar qualquer planta.
Diabético pode tomar chá de passiflora?
A restrição registrada é ao extrato fluido, e o motivo declarado é o teor alcoólico da formulação, não um efeito da planta sobre a glicemia. O infuso não carrega álcool e não aparece nessa lista. Ainda assim, quem usa hipoglicemiante ou insulina decide isso com quem acompanha o tratamento, não com um rótulo.
Alergia a maracujá impede tomar passiflora?
A contraindicação registrada é hipersensibilidade aos componentes da formulação, e não a uma família botânica inteira, como acontece com a camomila e as Asteraceae. Mas há relatos de reação alérgica ligados ao gênero Passiflora, inclusive a uma espécie diferente da que está no fitoterápico. Quem já teve reação a qualquer preparação de passiflora não deve repetir.
Passiflora pode causar dependência?
Nenhum dos três documentos registra síndrome de abstinência para a passiflora — é uma diferença em relação à valeriana, cuja monografia descreve abstinência após retirada abrupta de uso crônico e prolongado. O que a passiflora tem é a orientação de não utilizar cronicamente, que existe justamente porque o uso longo nunca foi estudado.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT056, Passiflora incarnata L.: a contraindicação por hipersensibilidade aos componentes da formulação; a contraindicação na gestação, na lactação e para menores de 12 anos por falta de dados adequados de segurança; a lista adicional do extrato fluido (gestantes, lactantes, alcoolistas, diabéticos e menores de 18 anos) em função do teor alcoólico; a advertência de não dirigir nem operar máquinas; a orientação de não utilizar cronicamente; e o prazo de duas semanas para reavaliação
- European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669740/2013): a seção 4.3, cuja única contraindicação é hipersensibilidade à substância ativa; a seção 4.4, que registra o uso abaixo de 12 anos como não estabelecido por falta de dados adequados e exige rotulagem de etanol nos extratos líquidos; e a seção 4.7, segundo a qual a preparação pode prejudicar a capacidade de dirigir e operar máquinas
- WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (Organização Mundial da Saúde, 2007) — monografia Herba Passiflorae: a seção de contraindicações, que registra apenas a gestação; o aviso de que a planta pode causar sonolência e prejudicar a condução de veículos; e a seção de outras precauções, que declara não haver informação disponível sobre precauções gerais nem sobre interações medicamentosas
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669738/2013): o relato de caso de taquicardia ventricular não sustentada com prolongamento do intervalo QT correspondente a 1,5 a 2 g de droga vegetal por dia durante dois dias, cuja causalidade a agência diz não poder ser avaliada com certeza; e o registro de que, mesmo sem dados clínicos sobre a passiflora isolada, o uso concomitante com sedativos sintéticos não é recomendado
- NCCIH / National Institutes of Health — Passionflower: a orientação de que a passiflora pode interagir com fármacos usados em anestesia e de que quem a utiliza deve evitá-la antes de uma cirurgia sem aprovação médica, e os efeitos possíveis de sonolência, tontura e confusão
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026