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Guia da Saúde

Valeriana: para que serve segundo Anvisa e EMA

A valeriana tem uma única indicação registrada no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa: auxiliar como sedativo leve e como indutor do sono. Não há indicação para ansiedade, dor, menopausa ou digestão. E o efeito, diz a própria monografia, tem início gradual — só aparece com uso continuado por duas a quatro semanas.

Oito fórmulas para a mesma indicação

O Formulário registra oito preparações de valeriana, o maior número de fórmulas de qualquer planta deste cluster. Todas apontam para a mesma finalidade, e mudam só a forma e a concentração:

FórmulaO que éComposição registrada
1infuso (o chá)0,3 a 3 g de raiz em 150 mL de água
2tintura10 g de raiz, álcool 56% q.s.p. 100 mL
3tintura20 g de raiz, álcool 70% q.s.p. 100 mL
4tintura20 g de raiz, álcool 60 a 80% q.s.p. 100 mL
5tintura10 g de raiz, álcool 60% q.s.p. 80 mL
6extrato fluido100 g de raiz, álcool 60% q.s.p. 100 mL (1:1)
7cápsula420 mg de extrato seco, obtido em água
8cápsula322 mg de extrato seco, obtido em álcool a 90%

A divisão etária corta essa lista ao meio: as fórmulas 1, 7 e 8 são de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos; as fórmulas 2 a 6, só adulto. Ou seja, o chá e as duas cápsulas atendem um adolescente; as quatro tinturas e o extrato fluido, não.

Nenhuma das oito é a preparação com ensaio clínico

Aqui está o dado que quase nenhum texto em português publica. A monografia europeia divide a valeriana em duas colunas: uso bem estabelecido (há ensaio clínico) e uso tradicional (aceito pelo tempo de uso). Na coluna do uso bem estabelecido existe uma única preparação: o extrato seco com razão droga-extrato de 3 a 7,4 para 1, obtido com etanol a 40–70%, em dose de 400 a 600 mg. Nada mais.

Comparando item a item, as oito fórmulas brasileiras correspondem a preparações que a Europa lista na coluna do uso tradicional — e a correspondência é exata, inclusive nas doses:

Fórmula brasileiraItem equivalente na monografia europeiaColuna
1 (infuso, 0,3 a 3 g)droga rasurada em chá, 0,3 a 3 g em 150 mLtradicional
2 (tintura 1:10, álcool 56%)tintura 1:10, etanol 56%, dose de 0,84 mLtradicional
3 (tintura 1:5, álcool 70%)tintura 1:5, etanol 70%, 1,5 mL ou 3 mLtradicional
4 (tintura 1:5, álcool 60–80%)tintura 1:5, etanol 60–80%, dose de 10 mLtradicional
5 (tintura 1:8, álcool 60%)tintura 1:8, etanol 60%, dose de 4 a 8 mLtradicional
6 (extrato fluido 1:1)extrato fluido 1:1, etanol 60%, 0,3 a 1,0 mLtradicional
7 (cápsula, 420 mg)extrato seco 4–6:1 em água, dose de 420 mgtradicional
8 (cápsula, 322 mg)extrato seco 5,5–7,4:1, dose de 322 mgtradicional

A leitura honesta é esta: o que se compra e se prepara no Brasil sob o nome de valeriana está, pela classificação europeia, no terreno do uso tradicional. Isso não quer dizer que não funcione; quer dizer que a evidência de ensaio clínico foi construída sobre um extrato específico, e que atribuir esses resultados ao chá é dar um passo que o documento não dá.

O que a valeriana não é

Não é comprimido para a noite de hoje. A monografia europeia é literal: “pelo seu início gradual de eficácia, a raiz de valeriana não é adequada ao tratamento agudo de tensão nervosa leve ou de distúrbios do sono”. A brasileira diz o equivalente: “o efeito terapêutico esperado só será obtido com o uso continuado durante duas a quatro semanas”. O prazo e o paradoxo que ele cria estão em por quanto tempo tomar valeriana.

Também não é a planta sem risco que a fama sugere. Ela pode comprometer a capacidade de dirigir, não deve ser combinada com álcool nem com sedativos sintéticos, e o uso deve ser suspenso 15 dias antes de uma cirurgia — a lista inteira está em quem não pode tomar valeriana.

Para preparar na proporção certa, veja chá de valeriana. O que a evidência sustenta em cada finalidade está separado em valeriana para insônia e valeriana para ansiedade. O índice das espécies já publicadas fica em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Que parte da valeriana se usa?

A raiz, seca e rasurada. É o que as oito fórmulas do Formulário especificam, sem exceção — a folha e a parte aérea não entram em nenhuma delas. O nome oficial da droga vegetal na Europa é Valerianae radix, literalmente raiz de valeriana, e o material precisa atender à monografia de qualidade 0453 da Farmacopeia Europeia.

Existe valeriana em cápsula registrada no Brasil?

Sim, duas. O Formulário traz uma cápsula com 420 mg de extrato seco preparado em água e outra com 322 mg de extrato seco preparado em álcool a 90%. As duas são de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, tomadas até três vezes ao dia — a de 420 mg também pode ser tomada 30 a 60 minutos antes de deitar.

A valeriana pode ser usada no banho?

Na Europa, sim: a monografia europeia registra a raiz rasurada como aditivo de banho, 100 g para um banho completo, água a 34–37 °C, de 10 a 20 minutos, no máximo um banho por dia. O Formulário brasileiro não registra essa preparação, mas herdou dela as contraindicações de uso externo — feridas, febre, infecção grave e insuficiência cardíaca.

Valeriana dá sonolência no dia seguinte?

A monografia não quantifica isso, mas registra cansaço e fadiga entre os efeitos possíveis e é explícita ao dizer que o fitoterápico pode comprometer a capacidade de conduzir e utilizar máquinas. A advertência vale para o dia inteiro, não só para as horas seguintes à dose.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT082, Valeriana officinalis L.: as oito fórmulas registradas (infuso de 0,3 a 3 g em 150 mL; quatro tinturas; extrato fluido 1:1; duas cápsulas com extrato seco de 420 mg e 322 mg), a indicação única de auxiliar como sedativo leve e indutor do sono, a advertência de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos e a informação de que o efeito tem início gradual
  2. European Medicines Agency (HMPC) — monografia da União Europeia sobre Valeriana officinalis L., radix (EMA/HMPC/150848/2015, adotada em 2 de fevereiro de 2016): a divisão entre uso bem estabelecido, restrito ao extrato seco etanólico DER 3–7,4:1 com etanol 40–70%, e uso tradicional, que abrange a droga rasurada, o pó, o suco, os extratos aquosos e metanólicos, o extrato fluido, as quatro tinturas e o aditivo de banho
  3. NCCIH / National Institutes of Health — Valerian: a avaliação de que o conhecimento sobre a planta é limitado porque poucas pesquisas examinaram seus efeitos, e de que a evidência sobre problemas de sono é inconsistente

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026