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Guia da Saúde

Valeriana para insônia: o que os estudos mostram

Sono é a indicação mais bem amparada da valeriana — e ainda assim as três autoridades não dizem a mesma coisa. A Anvisa registra “indutor do sono”. A EMA dá status de uso bem estabelecido, mas só a um extrato específico. O NIH diz que a evidência é inconsistente, e cita a diretriz em que a Academia Americana de Medicina do Sono recomendou contra o uso na insônia crônica de adultos.

As três posições, com a fonte de cada uma

QuemO que sustentaQualificação
Anvisa, FT082auxiliar como indutor do sonoindicação registrada, válida para as oito fórmulas
EMA, coluna do uso bem estabelecidoalívio de tensão nervosa leve e de distúrbios do sonosó para o extrato seco etanólico, 400 a 600 mg
EMA, coluna do uso tradicionalauxiliar a dormirchá, tinturas, extrato fluido, cápsulas
NIH / NCCIHevidência inconsistentecita a diretriz da AASM de 2017

Repare no que a segunda linha implica. A valeriana tem uma preparação com status de uso bem estabelecido para sono — é o único caso do gênero neste cluster. Mas essa preparação é um extrato seco em forma sólida, e nenhuma das oito fórmulas brasileiras é ela, como mostra a comparação em valeriana: para que serve. O chá é, pela classificação europeia, uso tradicional para a mesma finalidade.

A meta-análise que a própria Anvisa cita

A monografia brasileira apoia sua indicação numa lista de referências, e uma delas é a revisão sistemática de Bent e colaboradores, publicada no The American Journal of Medicine em 2006 (PMID 17145239). Vale abrir, porque os números dela contam uma história mais matizada do que a citação sugere:

  • 16 estudos elegíveis, somando 1.093 pacientes;
  • em 6 estudos que relataram um desfecho dicotômico de qualidade do sono (melhorou ou não), o risco relativo de sono melhorado foi de 1,8, com intervalo de confiança de 95% entre 1,2 e 2,9 — um resultado estatisticamente significativo;
  • mas o próprio resumo registra evidência de viés de publicação nessa medida-resumo, e que a maioria dos estudos tinha problemas metodológicos importantes, com doses, preparações e duração de tratamento variando consideravelmente;
  • a conclusão dos autores é deliberadamente cautelosa: a evidência disponível sugere que a valeriana poderia melhorar a qualidade do sono sem produzir efeitos adversos, e estudos futuros deveriam testar faixas de dose de preparações padronizadas.

Viés de publicação, nesse contexto, quer dizer que estudos com resultado positivo têm mais chance de terem sido publicados do que os negativos — e que o efeito real tende a ser menor do que o número resumido indica. É por isso que a mesma meta-análise pode ser citada por um regulador como apoio a uma indicação e, por outro, como prova de que a evidência ainda não fechou.

A recomendação contrária de 2017

O NIH vai além de dizer que a evidência é inconsistente: ele cita o veredicto de uma sociedade médica. Na diretriz de prática clínica para o tratamento farmacológico da insônia crônica em adultos da Academia Americana de Medicina do Sono, publicada em 2017 no Journal of Clinical Sleep Medicine (PMID 27998379), a recomendação é textual:

“Sugerimos que os clínicos não usem valeriana como tratamento da insônia de início ou de manutenção do sono (em comparação a nenhum tratamento) em adultos.” — e a diretriz classifica essa recomendação como fraca.

“Fraca”, no vocabulário do método GRADE que a diretriz usa, indica menor grau de certeza no desfecho — e o próprio documento avisa que uma recomendação contrária não deve ser interpretada como indicação de ineficácia. É uma diferença que importa: o painel não afirmou que a valeriana não funciona; afirmou que a evidência não é suficiente para recomendá-la nesse cenário.

Isso não anula a indicação da Anvisa nem o status europeu — são perguntas diferentes. A diretriz americana responde “devo prescrever isto para tratar insônia crônica?”; o Formulário responde “esta preparação pode ser dispensada com esta finalidade?”. Mas quem procura a valeriana esperando resolver uma insônia que já dura meses precisa saber que a sociedade médica que estuda sono sugeriu que não — e disse isso por escrito, com o nome da planta.

Insônia crônica não é a mesma coisa que uma noite ruim

A distinção resolve a maior parte da confusão. As posições oficiais mais duras são sobre insônia crônica — um quadro que se define por persistência ao longo de meses e por prejuízo diurno. A posologia da valeriana, ao contrário, foi escrita para um incômodo passageiro: dose noturna, prazo de reavaliação em duas semanas, teto de quatro semanas de uso continuado, como detalha por quanto tempo tomar valeriana.

Se o problema já é crônico, o caminho útil é diagnóstico, não prateleira. Instrumentos simples ajudam a organizar a queixa antes da consulta — a calculadora de qualidade do sono e a sonolência excessiva durante o dia apontam o que descrever ao médico. E vale checar o básico antes: horário de deitar, exposição à luz e a meia-vida da cafeína no organismo, que é longa o bastante para o café das quatro da tarde ainda estar agindo na hora de dormir.

O que não fazer

Não trocar remédio prescrito por chá. O Formulário orienta evitar a coadministração de valeriana com benzodiazepínicos, barbitúricos e anestésicos, porque ela potencializa a depressão do sistema nervoso central desses fármacos — e nenhum documento sugere que ela substitua qualquer um deles. Suspender ou reduzir um hipnótico prescrito é decisão de quem prescreveu, e feita de forma abrupta pode piorar exatamente o que se queria resolver.

O restante das restrições está em quem não pode tomar valeriana, e a finalidade diurna, com outra posologia e outro nível de evidência, em valeriana para ansiedade.

Perguntas frequentes

Quanto tempo antes de deitar devo tomar?

Depende da preparação. O chá e a cápsula de 420 mg são tomados de 30 a 60 minutos antes de deitar, com uma dose adicional no início da noite se necessário. As tinturas das fórmulas 2 e 3 têm horário mais apertado: meia hora antes. É o único parâmetro em que os documentos são precisos ao minuto.

Valeriana é melhor que melatonina?

Nenhum dos documentos consultados publica comparação direta entre as duas. São substâncias com histórias regulatórias, mecanismos e evidências separadas, e a ausência de estudo comparativo significa exatamente isso: não há resposta publicada, e quem afirma uma está preenchendo o vazio com opinião.

A valeriana dá sono na hora, como um comprimido?

Não é o que os documentos descrevem. A monografia europeia é literal ao dizer que a planta não é adequada ao tratamento agudo de distúrbios do sono, pelo início gradual de eficácia. A dose noturna existe na posologia, mas o efeito descrito depende de continuidade, não de uma noite isolada.

Se a valeriana não resolver, o que fazer?

Os dois documentos convergem: sintoma que persiste ou piora depois de duas semanas de uso contínuo pede avaliação médica. Insônia que dura tem causas investigáveis — apneia, ritmo circadiano deslocado, dor, medicamentos, transtornos do humor — e nenhuma delas se resolve trocando de chá.

Fontes

  1. Bent S, Padula A, Moore D, Patterson M, Mehling W. Valerian for sleep: a systematic review and meta-analysis. The American Journal of Medicine, v. 119, n. 12, p. 1005-1012, 2006 (PMID 17145239) — a revisão citada pela própria monografia da Anvisa: 16 estudos elegíveis e 1.093 pacientes, risco relativo de sono melhorado de 1,8 (IC 95% 1,2–2,9) em 6 estudos, com evidência de viés de publicação nessa medida-resumo e problemas metodológicos importantes na maioria dos estudos
  2. Sateia MJ et al. Clinical Practice Guideline for the Pharmacologic Treatment of Chronic Insomnia in Adults: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, v. 13, n. 2, p. 307-349, 2017 (PMID 27998379) — a recomendação textual de que os clínicos não usem valeriana como tratamento da insônia de início ou de manutenção do sono em adultos, classificada como fraca, e a ressalva de que recomendação contrária não deve ser interpretada como indicação de ineficácia
  3. NCCIH / National Institutes of Health — Valerian: a avaliação de que a evidência sobre a valeriana ser útil para problemas de sono é inconsistente, a citação da diretriz de 2017 da Academia Americana de Medicina do Sono e a informação de doses de 300 a 600 mg por dia por até 6 semanas
  4. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT082, Valeriana officinalis L.: a indicação de auxiliar como indutor do sono, a posologia de 150 mL do infuso de 30 a 60 minutos antes de deitar-se com dose adicional no início da noite se necessário, e a lista de referências que inclui Bent e colaboradores, de 2006

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026