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Guia da Saúde

Por quanto tempo tomar valeriana: 2 a 4 semanas

A monografia diz que o efeito da valeriana só aparece com uso continuado por duas a quatro semanas. E diz, no mesmo parágrafo, que se os sintomas persistirem ou se agravarem após duas semanas de uso contínuo, um médico deve ser consultado. As duas frases juntas desenham uma janela bem mais estreita do que o rótulo sugere.

A janela de duas semanas

Poucas plantas do Formulário criam uma tensão tão visível dentro do próprio texto. De um lado:

“O efeito deste fitoterápico tem início gradual. O efeito terapêutico esperado só será obtido com o uso continuado durante duas a quatro semanas.”

Do outro, algumas linhas antes:

“Se os sintomas persistirem ou se agravarem após duas semanas de uso contínuo, um médico deverá ser consultado.”

Junte as duas e o desenho fica assim: o efeito começa a aparecer perto do dia 14, que é exatamente o dia em que o documento manda reavaliar se ele não apareceu. A monografia europeia tem as mesmas duas frases, na mesma seção, e acrescenta a razão de fundo: “pelo seu início gradual de eficácia, a raiz de valeriana não é adequada ao tratamento agudo de tensão nervosa leve ou de distúrbios do sono”.

Não é erro de redação. É a diferença entre um prazo farmacológico (quanto a planta demora para fazer o que faz) e um prazo de autocuidado (a partir de quando insistir sozinho deixa de ser razoável). Eles se sobrepõem, e a leitura prática é simples: quatro semanas é o teto do que está publicado, e a segunda semana é quando a conversa muda de lugar se nada melhorou.

O paradoxo do uso longo: insônia

Aqui está o item que o senso comum não prevê. A lista de efeitos do uso por longos períodos, na monografia brasileira, é: cefaleia, cansaço, insônia, midríase e desordens cardíacas.

Insônia. A queixa que leva à planta aparece na lista do que o uso prolongado pode produzir. Não é raridade em farmacologia — vale para vários hipnóticos —, mas é uma informação que muda a leitura de “estou tomando há meses e piorei, vou aumentar a dose”. Aumentar é a decisão mais provável e a menos apoiada pelo documento.

Os quadros de efeito e as combinações a evitar estão em quem não pode tomar valeriana.

Parar de repente, depois de muito tempo

Outra frase pouco reproduzida: “o uso em altas dosagens por longos períodos aumenta a possibilidade de ocorrência de síndrome de abstinência com a retirada abrupta do fitoterápico”.

O NIH descreve o mesmo fenômeno com nome e sobrenome: alguns podem apresentar sintomas de retirada — ansiedade, irritabilidade, alterações cardíacas, insônia e, em casos raros, alucinações — se o uso crônico for interrompido de repente. É o contrário do que a expressão “não vicia porque é natural” faz esperar, e é mais uma razão para não deixar o uso escorregar de semanas para meses sem avaliação.

Até onde vai a segurança que alguém mediu

O único prazo com dado de segurança atrás dele vem do NIH: a valeriana parece geralmente segura para uso de curto prazo pela maioria dos adultos, em doses de 300 a 600 mg por dia, por até 6 semanas. Duas ressalvas grandes acompanham a frase:

  1. essa dose é de extrato em cápsula, não de chá — a fórmula 1 do Formulário trabalha com 0,3 a 3 g de raiz por dose, que é outra unidade e outra preparação, como explica chá de valeriana;
  2. a segurança do uso prolongado é desconhecida — não é “é seguro”, é “não foi estudado”.

E a dose, não só o tempo

Prazo e quantidade andam juntos aqui. A monografia registra que cerca de 20 g ao dia produziram fadiga, cólica abdominal, dor precordial, vertigem, tremor nas mãos e midríase, todos transitórios e resolvidos em cerca de 24 horas. Repetindo a fórmula do chá no topo da faixa, três a quatro vezes ao dia, chega-se a 9 a 12 g — a margem é menor do que parece, e por isso o documento fecha com “não utilizar em doses acima das recomendadas”.

Se o problema de sono já dura semanas, o assunto deixou de ser qual chá tomar. O que a evidência sustenta e o que não sustenta nessa finalidade está em valeriana para insônia. E remédio prescrito para dormir não se suspende para dar lugar a uma planta: essa é uma decisão de quem prescreveu.

Perguntas frequentes

Pode tomar chá de valeriana todo dia?

Dentro da janela publicada, o uso diário é justamente o esperado: sem continuidade, o efeito descrito não aparece. Fora dela é que não há respaldo — nenhum dos documentos descreve uso indefinido, e o prazo mais longo com segurança medida que se encontra é o de 6 semanas citado pelo NIH, para o extrato em cápsula.

A valeriana faz efeito já na primeira noite?

Não é o que os documentos descrevem. Os dois dizem que o início é gradual, e a monografia europeia acrescenta que a planta não é adequada ao tratamento agudo. Uma dose isolada numa noite ruim é o uso mais comum da valeriana no Brasil e o menos amparado pela posologia registrada.

Posso parar de tomar de uma vez?

Depois de uso curto e nas doses da monografia, não há descrição de problema. O alerta é específico: o uso em altas dosagens por longos períodos aumenta a possibilidade de síndrome de abstinência com a retirada abrupta. Se esse é o seu caso, a interrupção é assunto para o médico, não para a próxima segunda-feira.

Depois das 4 semanas, dá para fazer uma pausa e recomeçar?

Nenhum dos documentos publica esquema de pausa, ciclo ou retomada. O que existe é o oposto: um ponto de reavaliação em duas semanas. Inventar um ciclo de descanso é preencher com palpite um espaço que a fonte deixou em branco de propósito.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT082, Valeriana officinalis L.: a informação de que o efeito tem início gradual e só será obtido com uso continuado durante duas a quatro semanas, a orientação de consultar um médico se os sintomas persistirem ou se agravarem após duas semanas de uso contínuo, os efeitos do uso por longos períodos (cefaleia, cansaço, insônia, midríase e desordens cardíacas), a síndrome de abstinência na retirada abrupta e o quadro descrito com cerca de 20 g ao dia
  2. European Medicines Agency (HMPC) — monografia da União Europeia sobre Valeriana officinalis L., radix (EMA/HMPC/150848/2015), seção 4.2: a afirmação de que, pelo início gradual de eficácia, a raiz de valeriana não é adequada ao tratamento agudo de tensão nervosa leve ou de distúrbios do sono, a recomendação de uso continuado por 2 a 4 semanas para alcançar o efeito ótimo e a orientação de consultar médico ou farmacêutico se os sintomas persistirem ou piorarem após 2 semanas
  3. NCCIH / National Institutes of Health — Valerian: a informação de que a valeriana parece geralmente segura para uso de curto prazo pela maioria dos adultos em doses de 300 a 600 mg por dia por até 6 semanas, de que a segurança do uso prolongado é desconhecida e de que pode haver sintomas de retirada após interrupção abrupta de uso crônico

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026