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Guia da Saúde

Valeriana na gravidez: por que é contraindicada

Não. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa contraindica a valeriana durante a gestação e a lactação, e a monografia europeia diz que a segurança nesses períodos “não foi estabelecida”. A proibição vale para todas as oito fórmulas — chá, tinturas, extrato fluido e cápsulas — e o motivo declarado é falta de dados, não dano comprovado.

A frase exata da monografia

O texto brasileiro reúne gestação, amamentação e infância na mesma sentença: “o uso é contraindicado durante a gestação, lactação e para menores de 12 anos, devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”.

A monografia europeia chega ao mesmo lugar por um caminho mais cauteloso: a segurança durante gravidez e lactação não foi estabelecida e, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado. O NIH resume em uma linha: pouco se sabe sobre a segurança do uso de valeriana durante a gravidez ou a amamentação.

Três documentos, três formulações, uma só conduta. E o dado que falta é o mesmo nos três: não existe estudo de segurança em gestantes humanas. Testes de toxicidade reprodutiva, diz a EMA, não foram realizados.

O estudo que aparece na advertência — e o que ele de fato mostra

Logo depois de contraindicar, a monografia brasileira acrescenta uma justificativa: “foi observado retardo da ossificação fetal ao se administrar valepotriatos isolados a camundongos”, citando Tufik e colaboradores, de 1994. Vale abrir o artigo, porque ele diz um pouco menos e um pouco mais do que a frase sugere.

O trabalho está indexado no PubMed sob o PMID 8170157, saiu no Journal of Ethnopharmacology e foi feito no Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina. Três pontos do resumo:

  • o modelo animal são ratas, não camundongos — a monografia troca a espécie;
  • a administração por 30 dias não alterou a duração média do ciclo estral, o número de fases de estro nem o índice de fertilidade, e o exame externo dos fetos não mostrou diferença;
  • o aumento de ossificação retardada apareceu no exame interno e nas doses mais altas empregadas, de 12 e 24 mg/kg. E a conclusão do próprio resumo é que as alterações vieram sobretudo pela via intraperitoneal: “as doses administradas por via oral foram inócuas para as ratas prenhes e sua prole”.

Por que a conduta continua sendo a mesma

Poderia parecer que o achado enfraquece a proibição. Não enfraquece — só desloca o argumento para onde ele sempre esteve.

A valeriana não é contraindicada na gravidez porque um estudo provou que ela causa dano em gestantes. É contraindicada porque nenhum estudo mostrou que ela é segura em gestantes, e porque os testes de toxicidade reprodutiva que responderiam a isso não foram feitos. O trabalho em ratas serve como sinal de alerta em doses altas, não como prova de risco humano — e sinal de alerta sem contraprova é exatamente a situação em que um regulador escreve “contraindicado”.

É uma distinção que muda o discurso, não a decisão: na gravidez, não se toma valeriana. E “natural” não entra na conta, porque a substância estudada, os valepotriatos, é um constituinte da própria planta.

Amamentação e as versões alcoólicas

A lactação está na mesma frase de contraindicação, com a mesma justificativa. Some-se a isso que as fórmulas 2 a 6 — as quatro tinturas e o extrato fluido — são de uso adulto e carregam de 56% a 80% de álcool na formulação, o que é uma segunda razão, independente da planta, para não entrarem no período de amamentação. As proporções de cada uma estão em tintura de valeriana.

Se a queixa é insônia durante a gestação, a resposta não é trocar a planta por outra por conta própria: sono na gravidez tem causas próprias e conduta própria, e o lugar dessa conversa é o pré-natal. Para comparação, a camomila na gravidez é um dos poucos casos em que o Formulário permite o uso — planta por planta, e não por categoria.

O quadro completo de contraindicações está em quem não pode tomar valeriana, e a idade mínima, em valeriana para crianças.

Perguntas frequentes

Tomei chá de valeriana antes de saber que estava grávida. E agora?

A contraindicação é preventiva, por ausência de dados humanos, não por dano demonstrado em gestantes. Isso não autoriza continuar, mas também não é motivo para pânico: leve a informação ao pré-natal, com a quantidade e por quanto tempo, e siga a orientação de quem acompanha a gestação.

Existe algum chá liberado para grávida?

Sim, alguns. A camomila, por exemplo, é uma das poucas plantas do Formulário cujo uso na gestação e na lactação é permitido, com ressalvas. É por isso que 'chá é chá' não funciona como raciocínio: a permissão ou a proibição é escrita planta por planta, e não vale para o grupo todo.

E a tintura de valeriana na gravidez, muda alguma coisa?

Muda para pior. Além da contraindicação que vale para a planta, as quatro tinturas e o extrato fluido são de uso adulto e trazem de 56% a 80% de álcool na formulação. São duas razões independentes para ficarem fora do período gestacional e da amamentação.

Valeriana atrapalha a fertilidade ou o ciclo?

A monografia europeia é explícita: não há dados de fertilidade disponíveis, e testes de toxicidade reprodutiva não foram realizados. No estudo em ratas citado pela Anvisa, os valepotriatos não alteraram a duração média do ciclo estral nem o índice de fertilidade. Não há dado humano publicado nessas monografias.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT082, Valeriana officinalis L.: a frase que contraindica o uso durante a gestação, a lactação e para menores de 12 anos por falta de dados adequados que comprovem a segurança, a menção ao retardo de ossificação fetal observado com valepotriatos isolados e a advertência de que as fórmulas 2 a 6, alcoólicas, são de uso adulto
  2. European Medicines Agency (HMPC) — monografia da União Europeia sobre Valeriana officinalis L., radix (EMA/HMPC/150848/2015), seção 4.6: a segurança durante a gravidez e a lactação não foi estabelecida e, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado nesses períodos; não há dados de fertilidade; testes de toxicidade reprodutiva não foram realizados
  3. Tufik S, Fujita K, Seabra ML, Lobo LL. Effects of a prolonged administration of valepotriates in rats on the mothers and their offspring. Journal of Ethnopharmacology, v. 41, n. 1-2, p. 39-44, 1994 (PMID 8170157) — o estudo citado pela monografia brasileira: aumento de ossificação retardada nas doses mais altas, de 12 e 24 mg/kg, e a conclusão de que as doses administradas por via oral foram inócuas para as ratas prenhes e sua prole
  4. NCCIH / National Institutes of Health — Valerian: a constatação de que pouco se sabe sobre a segurança do uso de valeriana durante a gravidez ou a amamentação

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026