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Guia da Saúde

Funcho ou erva-doce: por que são duas plantas

São espécies diferentes, de gêneros diferentes, com monografias separadas no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa: Pimpinella anisum (erva-doce, também chamada anis) e Foeniculum vulgare (funcho). No Brasil os dois nomes se cruzam no comércio — e a diferença chega à prática: a dose do chá varia em até sete vezes e as indicações não são as mesmas.

O que muda entre as duas

Erva-doceFuncho
EspéciePimpinella anisum L.Foeniculum vulgare Miller
MonografiaFT061FT032 (mais FT033 e FT034, das variedades)
Parte usadafrutofruto
Chá1,0 a 3,5 g em 150 mL5 a 7 g em 150 mL
Frequência3 vezes ao diaconforme a fórmula
Idade mínima12 anosfórmula 1 sem idade mínima escrita; as das variedades dizem “não recomendado abaixo de 4 anos”
Gestaçãouso não recomendadocontraindicado
Queixa digestivadistensão abdominal e flatulênciacólicas, distensão abdominal e flatulência
Tossesim — tosse produtiva do resfriadonão consta da fórmula 1
Alergia de famíliaApiaceae
Convulsãonão usar com histórico

A diferença de dose é o que mais importa

O teto da erva-doce é 3,5 g por xícara. O piso do funcho é 5 g. As faixas não se encostam — quem usa a orientação de uma para preparar a outra erra em qualquer direção que vá.

Isso transforma a confusão de nomes num problema prático. Como as duas são vendidas em saquinho parecido, com o mesmo nome popular e cheiro semelhante de anetol, o rótulo com o nome científico deixa de ser detalhe técnico: é o que permite usar a proporção certa.

Só uma delas tem indicação para tosse

A erva-doce é a única das duas cuja monografia registra, além das queixas digestivas, “auxiliar no alívio da tosse produtiva associada ao resfriado comum”.

A fórmula 1 do funcho cobre cólicas, distensão abdominal e flatulência — território digestivo. As variedades (funcho-amargo e funcho-doce) têm suas próprias redações.

Ou seja: para gases, as duas têm indicação registrada; para tosse, só uma.

As advertências não se cobrem

Cada monografia traz alertas que a outra não tem, e é aqui que ler a errada custa caro:

  • só o funcho contraindica quem tem hipersensibilidade à família Apiaceae — a mesma da cenoura, do aipo, da salsa e do coentro — e manda não usar em quem tem histórico de convulsões;
  • só a erva-doce registra idade mínima explícita de 12 anos na advertência principal e menciona possíveis alterações hormonais na gestação.

As listas completas estão em quem não pode tomar erva-doce e quem não pode tomar funcho.

E o bulbo que se vende como erva-doce?

Aquele bulbo branco e crocante, vendido em feira como “erva-doce”, é funcho — a parte comestível de Foeniculum vulgare. Ele é alimento, e a composição nutricional dele está em tabela nutricional da erva-doce.

Ou seja, o mesmo nome popular cobre três coisas diferentes: o fruto da Pimpinella anisum, o fruto do funcho e o bulbo do funcho. As fichas medicinais completas estão em erva-doce e funcho; os preparos, em chá de erva-doce e chá de funcho.

Nenhuma das duas é chá de bebê

Vale dizer com todas as letras, porque é o uso mais comum dos dois no Brasil: nenhuma das duas tem dose pediátrica registrada para lactente. A erva-doce é uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, e a própria monografia registra relatos de toxicidade do anetol em crianças. Para cólica de recém-nascido, a conduta é com o pediatra.

Perguntas frequentes

Então a erva-doce que eu compro é qual das duas?

Depende do que você comprou. Se são sementinhas pequenas vendidas como erva-doce ou anis, tende a ser Pimpinella anisum. Se é o bulbo branco e crocante da feira, é Foeniculum vulgare, o funcho. E há saquinhos rotulados erva-doce que contêm fruto de funcho. Sem o nome científico no rótulo, não há como ter certeza — e as doses registradas não são intercambiáveis.

As duas servem para cólica de bebê?

Nenhuma das duas tem dose registrada para bebê. A erva-doce é uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, e a monografia diz que o uso em menores de 12 anos não é recomendado por ausência de dados de segurança. É o oposto do costume brasileiro de dar esses chás a recém-nascido.

Qual das duas é mais forte?

A pergunta não tem resposta nos documentos, porque não há estudo comparando as duas. O que existe é uma faixa de dose para cada: 1,0 a 3,5 g de fruto para a erva-doce e 5 a 7 g para o funcho, na mesma xícara de 150 mL. Isso diz respeito à quantidade de planta que cada monografia avaliou, não à potência de uma contra a outra.

Grávida pode tomar alguma das duas?

Não. As duas são desaconselhadas na gestação, e por motivos que os documentos escrevem de forma diferente: o funcho é contraindicado, e a erva-doce tem o uso não recomendado por ausência de dados, com registro de possíveis alterações hormonais. Em ambos os casos a conduta prática é a mesma.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT061, Pimpinella anisum L. (erva-doce, anis): a fórmula com 1,0 a 3,5 g de fruto em 150 mL, a posologia de três vezes ao dia, as indicações de queixas gastrintestinais leves e tosse produtiva associada ao resfriado comum, e a advertência de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT032, Foeniculum vulgare Miller (funcho): a fórmula 1 com 5 a 7 g de fruto em 150 mL, as indicações de cólicas, distensão abdominal e flatulência, a contraindicação para hipersensibilidade à família Apiaceae e para gestantes, e a advertência para pessoas com histórico de convulsões

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026