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Guia da Saúde

Guaco e remédios: as interações registradas

O Formulário de Fitoterápicos registra quatro interações para o guaco: com anticoagulantes, com anti-inflamatórios não esteroidais, com antibióticos e com o ipê-roxo. Duas delas estão escritas como proibição direta, e a mais antiga — a do anticoagulante — passou trinta anos sem teste até que um grupo brasileiro foi medi-la.

As quatro interações, como estão no documento

Com o quêComo a monografia escreveOnde aparece
Anticoagulantes”não utilizar (…) simultaneamente a anticoagulantes, pois as cumarinas podem potencializar esses efeitos e antagonizar a atividade da vitamina K”FT050 e FT051
Anti-inflamatórios não esteroidais”não utilizar em caso de tratamento com anti-inflamatórios não esteroidais”FT050 e FT051
Antibióticos”o uso concomitante com antibióticos deve ser evitado devido à potencial interação clínica”só FT050
Lapachol (ipê-roxo)“as saponinas presentes no guaco aumentam a absorção da naftoquinona lapachol”só FT050

A assimetria já diz algo: as duas espécies compartilham as proibições de anticoagulante e de anti-inflamatório, e só a monografia de Mikania glomerata menciona antibiótico e ipê-roxo. Quem lê apenas uma das duas termina com metade da lista — o mapa completo das diferenças está em guaco.

Anticoagulante: a proibição mais repetida e a menos testada

A justificativa do Formulário é química: o guaco tem cumarinas, e cumarinas antagonizariam a vitamina K, potencializando o efeito do anticoagulante. É um raciocínio que circula há décadas na literatura brasileira.

Em 2019, um grupo da Universidade Federal de Minas Gerais publicou um estudo que começa exatamente por questionar essa base. A frase, no resumo do artigo, é literal:

“The basis of this information is very theoretical, with no clinical evidence of such contraindication.”

Traduzindo: a base dessa informação é muito teórica, sem evidência clínica da contraindicação. É o tipo de achado que costuma ser usado para afrouxar uma regra — e aqui aconteceu o contrário, porque o mesmo grupo foi medir.

O que o teste in vitro de 2019 mediu

Extratos etanólicos de folha de Mikania laevigata foram incubados com um pool de plasma de pessoas saudáveis, em três concentrações — 1,67, 2,26 e 2,86 mg/mL. Os resultados:

  • prolongamento do tempo de protrombina e do tempo de tromboplastina parcial ativada nas três concentrações;
  • queda do potencial endógeno de trombina de 1.465 nM/min no plasma controle para 1.087 nM/min com o extrato a 2,26 mg/mL;
  • redução do fibrinogênio plasmático nas concentrações de 2,26 e 2,86 mg/mL;
  • identificação, no extrato, de ácido benzoilgrandiflórico, ácido cinamoilgrandiflórico, ácido o-cumárico, cumarina e quercetina-3-β-glicosídeo.

A conclusão dos autores é que o extrato demonstrou efeito anticoagulante in vitro, interferindo nas vias intrínseca, extrínseca e comum da coagulação.

Duas ressalvas honestas. Primeira: in vitro é plasma em tubo, não pessoa tomando chá — as concentrações testadas foram aplicadas diretamente sobre o plasma. Segunda, e mais importante: o efeito medido não é o mecanismo que a monografia descreve. O documento fala em antagonizar vitamina K, que é o mecanismo dos anticoagulantes cumarínicos clássicos; o experimento encontrou um efeito direto sobre as três vias da coagulação. A conduta não muda — se o efeito é real, o motivo para não somar guaco a anticoagulante fica mais forte, não mais fraco. O que muda é a qualidade da justificativa.

E existe um terceiro dado, este em pessoas: no ensaio clínico de fase I de 2024, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina aparecem entre os doze parâmetros alterados pela solução oral de M. laevigata em voluntários saudáveis — todos dentro da faixa de normalidade, mas na mesma direção. Os números completos desse ensaio estão em guaco: efeitos colaterais.

A referência que não sustenta o que a monografia afirma

Vale registrar um descasamento na bibliografia da FT050. A advertência sobre antibióticos é creditada a três trabalhos, e um deles é Leite et al., 2016. Esse artigo é um levantamento descritivo de consumo de plantas medicinais feito em um ambulatório de anticoagulação de hospital público brasileiro:

  • 280 pacientes cardiopatas em uso prolongado de varfarina;
  • 46 deles (16,4%) relataram usar plantas medicinais, em 59 ocorrências;
  • limão, erva-cidreira e tanchagem foram as mais citadas;
  • chá foi a forma predominante de consumo (87%);
  • 12 plantas (33,3%) apresentavam potencial de interação com varfarina segundo a literatura.

É um bom estudo — mas do assunto anticoagulante, não do assunto antibiótico. Ele descreve o que os pacientes tomam e conclui que o achado pode orientar intervenções do farmacêutico. Não mede interação entre guaco e antibiótico, e não é sobre guaco em particular.

Isso não libera a combinação: a advertência tem outras duas referências, e “evitar por potencial interação clínica” continua sendo a orientação escrita no documento vigente. O que se ganha ao registrar o descasamento é saber quanto peso essa advertência carrega — e ela carrega menos do que a do anticoagulante, que tem medição.

Os dois itens que passam batido

Anti-inflamatório não esteroidal. É a interação mais provável de acontecer na vida real, porque esses medicamentos são de venda livre e ninguém pensa neles como “remédio de tarja”. A monografia não pede cuidado: escreve não utilizar.

Ipê-roxo. O Formulário registra que as saponinas do guaco aumentam a absorção do lapachol, o princípio ativo de Handroanthus impetiginosus. É uma interação entre duas plantas, não entre planta e comprimido — e é justamente o tipo de combinação que quem toma vários chás por conta própria não desconfia.

A lista completa de quem já não deveria estar tomando guaco, com ou sem outro remédio, está em quem não pode tomar guaco, e o prazo máximo de uso em por quanto tempo tomar guaco.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e no guaco a interação é a parte do documento com mais texto e menos evidência clínica. É por isso que a decisão sobre combinar guaco com qualquer medicamento é de quem prescreve, e não de quem vende a folha.

Perguntas frequentes

Quem toma varfarina pode tomar guaco?

Não. As duas monografias proíbem o uso simultâneo de guaco com anticoagulantes, e essa é uma das poucas frases do documento redigidas como proibição direta. O ponto reforçado pela pesquisa recente é que a preocupação deixou de ser apenas teórica: extrato de guaco prolongou as provas de coagulação em laboratório e o único ensaio clínico registrou variação dessas mesmas provas em voluntários.

E se eu tomar dipirona ou paracetamol junto?

A advertência do Formulário nomeia especificamente os anti-inflamatórios não esteroidais, e não cita dipirona nem paracetamol, que não pertencem a essa classe. Ausência de menção, porém, não é liberação avaliada: significa que o documento não tratou desses medicamentos. Quem usa analgésico com frequência tem o que conversar com quem prescreve.

O guaco corta o efeito do antibiótico?

O que a monografia da Mikania glomerata escreve é que o uso concomitante deve ser evitado por potencial interação clínica — sem dizer em que direção. A da Mikania laevigata não traz essa advertência. E, das três referências citadas para sustentá-la, uma é um levantamento de consumo de plantas em ambulatório de anticoagulação, que não trata de antibióticos.

Preciso avisar antes de fazer exame de sangue?

Se o exame for de coagulação, sim: o ensaio de fase I registrou alteração do tempo de protrombina e do tempo de tromboplastina em voluntários que usaram Mikania laevigata, e o teste in vitro de 2019 mostrou o mesmo sentido de efeito. Contar o que se está tomando ajuda quem vai interpretar o resultado.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT050 e FT051: a proibição de uso em tratamento com anti-inflamatórios não esteroidais, a proibição de uso simultâneo com anticoagulantes com a justificativa de que as cumarinas podem potencializar esses efeitos e antagonizar a atividade da vitamina K, a orientação exclusiva da FT050 de evitar o uso concomitante com antibióticos, e o registro de que as saponinas do guaco aumentam a absorção do lapachol, princípio ativo de Handroanthus impetiginosus
  2. Leite PM, Miranda APN, Amorim JM, Duarte RCF, Bertolucci SKV, Carvalho MDG, Castilho RO (2019), Journal of Cardiovascular Pharmacology 74(6):574-583 — avaliação in vitro do extrato etanólico de folha de Mikania laevigata sobre a coagulação: a constatação dos autores de que a base da contraindicação era teórica e sem evidência clínica, o prolongamento do tempo de protrombina e do tempo de tromboplastina parcial ativada nas três concentrações testadas, a queda do potencial endógeno de trombina de 1.465 para 1.087 nM/min e a redução do fibrinogênio plasmático
  3. Leite PM, Castilho RO, Ribeiro AL, Martins MA (2016), International Journal of Clinical Pharmacy 38(2):223-227 — levantamento do consumo de plantas medicinais por 280 pacientes cardiopatas em uso prolongado de varfarina num ambulatório de anticoagulação: os 16,4% que relataram uso de plantas, o chá como forma predominante e as 12 plantas com potencial de interação com varfarina segundo a literatura
  4. Bertol G, Cobre AF, Campos ML, Pontarolo R (2024), Journal of Ethnopharmacology 318(Pt B):117018 — ensaio clínico de fase I em 19 voluntários saudáveis: a alteração do tempo de protrombina e do tempo de tromboplastina entre os doze parâmetros afetados pela solução oral de Mikania laevigata, todos dentro da faixa de normalidade

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026