Guaco: efeitos colaterais registrados
As reações que as monografias do guaco descrevem são vômito, diarreia e taquicardia — e as duas espécies as ligam a duas condições específicas: dose acima da recomendada e uso prolongado de extrato. A monografia de Mikania laevigata acrescenta sintomas dispépticos.
A lista das duas monografias
| Reação | Onde aparece | Em que condição |
|---|---|---|
| Vômito | FT050 e FT051 | dose acima da recomendada; uso prolongado de extrato |
| Diarreia | FT050 e FT051 | dose acima da recomendada; uso prolongado de extrato |
| Taquicardia | FT050 e FT051 | dose acima da recomendada; uso prolongado de extrato |
| Sintomas dispépticos | só FT051 (M. laevigata) | dose acima da recomendada |
| Quadros hemorrágicos | FT050 e FT051 | observados em estudos com animais |
Repare no padrão: quase tudo nessa tabela tem gatilho de quantidade ou de tempo. Não é uma lista de coisas que acontecem com a dose registrada — é uma lista do que aparece quando se passa dela. É o argumento mais direto contra a ideia de que reforçar a folha melhora o resultado, e a proporção correta está em chá de guaco.
O que apareceu no único ensaio clínico com pessoas
Em 2024, um grupo da Universidade Federal do Paraná publicou o primeiro e até agora único ensaio clínico com as duas espécies. O desenho, em uma linha: estudo de fase I, randomizado, aberto, de doses múltiplas e cruzado, com 19 voluntários saudáveis.
Cada braço recebeu solução oral de uma espécie: 15 mL duas vezes ao dia por 7 dias, depois 30 mL duas vezes ao dia por mais 7 dias. Ao fim das duas semanas, um período de washout de 7 dias e a troca para a outra espécie. Eventos adversos, parâmetros clínicos e marcadores sanguíneos foram medidos no início e ao fim de cada semana, ao longo de seis semanas.
Os resultados, espécie por espécie:
- Mikania glomerata — nenhum evento adverso foi correlacionado ao produto. Três parâmetros se alteraram: proteína total, pressão arterial diastólica e ureia;
- Mikania laevigata — um evento adverso moderado de pirose (azia) foi correlacionado ao produto, e doze parâmetros se alteraram;
- todas as alterações ficaram dentro da faixa de normalidade para pessoas saudáveis, e a conclusão dos autores é que as duas espécies são seguras no regime de dose testado.
Os doze parâmetros que só uma das espécies mexeu
Vale abrir a lista da M. laevigata, porque ela é a informação mais específica que existe sobre o guaco em seres humanos: eritrócitos, hemoglobina, hematócrito, monócitos, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina, albumina, fosfatase alcalina, proteína total, ureia, potássio e sódio.
Dois itens dessa lista merecem destaque, e é aqui que os documentos conversam entre si. Tempo de protrombina e tempo de tromboplastina são exatamente as duas provas de coagulação, e são exatamente o que um teste in vitro de 2019 já havia encontrado prolongado com extrato de M. laevigata. A observação de quadros hemorrágicos em animais, que as duas monografias registram, ganha assim uma explicação plausível — e é o motivo pelo qual a combinação com anticoagulante é proibida, assunto de guaco e remédios.
Nada disso quer dizer que sangramento seja esperado com o chá na dose e no prazo do documento. Quer dizer que a via existe, foi medida duas vezes e explica por que as advertências estão ali.
A dose e o tempo são o gatilho
Duas leituras práticas fecham o quadro. A primeira: a maior parte da lista de reações do guaco não descreve o uso correto, e sim o excesso — de quantidade ou de duração. A segunda: o ensaio clínico usou 14 dias, e o teto de uso contínuo das monografias é de 15 dias. Ou seja, o único dado humano disponível cobre o prazo do documento e nada além dele. O que fazer quando esse prazo acaba está em por quanto tempo tomar guaco.
A instrução para qualquer reação é única nas duas monografias, e vale repetir literalmente: “Em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico”.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. Quem já não deveria estar tomando, antes mesmo de qualquer reação, está listado em quem não pode tomar guaco, e as duas espécies estão comparadas em guaco.
Perguntas frequentes
Coração acelerado depois do chá pode ser do guaco?
Taquicardia está escrita nas duas monografias, associada a duas situações específicas: dose acima da recomendada e uso prolongado de extrato de guaco. Não é uma reação descrita como comum na dose e no prazo do documento. Diante dela, a instrução oficial é a mesma de qualquer evento adverso: suspender o uso e procurar um médico.
Azia depois de tomar guaco tem explicação?
Tem, e ela é recente. No ensaio de fase I de 2024, o único evento adverso classificado como moderado e correlacionado ao produto foi justamente pirose, a azia, e apareceu no braço da Mikania laevigata. A monografia dessa mesma espécie também acrescenta sintomas dispépticos à lista de efeitos de dose excessiva.
O guaco faz mal ao fígado?
Não há relato de lesão hepática atribuída ao guaco nas duas monografias. O ensaio de fase I registrou variação de fosfatase alcalina e de albumina no braço da Mikania laevigata, mas os próprios autores relatam que todas as alterações ficaram dentro da faixa de normalidade para pessoas saudáveis, ao longo de duas semanas de uso.
Uma reação some sozinha se eu continuar tomando?
Não é isso que o documento manda esperar. As duas monografias terminam com a mesma instrução: em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico. Não há, no texto, nenhuma previsão de adaptação ou de tolerância que justifique insistir.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT050 e FT051: o registro de que doses acima das recomendadas e o uso prolongado de extrato de guaco podem provocar vômito, diarreia e taquicardia, o acréscimo de sintomas dispépticos na monografia da Mikania laevigata, a observação de quadros hemorrágicos em estudos com animais e a instrução de suspender o uso e consultar um médico diante de qualquer evento adverso
- Bertol G, Cobre AF, Campos ML, Pontarolo R (2024), Journal of Ethnopharmacology 318(Pt B):117018 — ensaio clínico de fase I randomizado, aberto, cruzado e de doses múltiplas em 19 voluntários saudáveis: 15 mL de solução oral duas vezes ao dia por 7 dias e depois 30 mL duas vezes ao dia por mais 7 dias, com um evento adverso moderado de pirose associado à Mikania laevigata, alteração de 12 parâmetros com essa espécie e de 3 com a Mikania glomerata, todas dentro da faixa de normalidade
- Leite PM et al. (2019), Journal of Cardiovascular Pharmacology 74(6):574-583 — avaliação in vitro do efeito do extrato etanólico de folha de Mikania laevigata sobre a coagulação: o prolongamento do tempo de protrombina e do tempo de tromboplastina parcial ativada em todas as concentrações testadas e a redução do potencial endógeno de trombina, que dá plausibilidade laboratorial ao relato de quadros hemorrágicos
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026