Guaco: para que serve e as duas espécies
O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa tem duas monografias de guaco, não uma: a FT050, de Mikania glomerata, e a FT051, de Mikania laevigata. As duas plantas recebem o mesmo nome popular, têm a mesma indicação registrada — alívio sintomático de afecções produtivas das vias aéreas superiores — e doses de chá que diferem em cinco vezes.
As duas plantas que se chamam guaco
Essa não é uma sutileza de botânico. A Anvisa escreveu duas monografias separadas, com números de fórmula, quantidades de folha e advertências que não coincidem — e o comércio vende as duas sob o mesmo nome de balcão.
| Mikania glomerata (FT050) | Mikania laevigata (FT051) | |
|---|---|---|
| Folha para 150 mL de chá | 2 a 3 g | 0,4 a 0,6 g |
| Técnica de preparo | infusão ou decocção | só decocção, por 5 minutos |
| Vezes por dia | 3 | 2 a 3 |
| Tintura | 10 g de folha por 100 mL | 10 a 20 g de folha por 100 mL |
| Xarope | não tem fórmula registrada | tem, e é a única preparação liberada a partir de 12 anos |
| Interação com antibiótico | consta da advertência | não consta |
A diferença de quantidade de folha é a que mais assusta: para a mesma xícara de 150 mL, uma monografia pede 2 a 3 gramas e a outra pede 0,4 a 0,6 grama. Quem trocar a espécie sem trocar a colher pode multiplicar ou dividir a dose por cinco. O detalhamento de cada preparo está em chá de guaco.
Três textos oficiais, três formas de dizer a mesma coisa
O guaco tem a sorte rara de aparecer em mais de um documento do governo — e os textos não usam as mesmas palavras:
| Documento | Como descreve o guaco |
|---|---|
| Formulário de Fitoterápicos, FT050 e FT051 (Anvisa) | “alívio sintomático de afecções produtivas das vias aéreas superiores” |
| Lista de fitoterápicos da Rename (Ministério da Saúde) | “apresenta ação expectorante e broncodilatadora” |
A segunda formulação é mais generosa: ela nomeia dois mecanismos, expectorante e broncodilatador, enquanto o Formulário fica no alívio do sintoma. E há um detalhe que quase ninguém repara: a Rename nomeia apenas Mikania glomerata. A espécie que o SUS distribui é uma só, enquanto o Formulário reconhece as duas.
Repare também no que nenhum dos dois faz: nenhum nomeia uma doença. Não há tratamento de asma, não há tratamento de bronquite, não há cura de gripe. “Afecção produtiva” é a descrição de um sintoma — tosse com secreção — e não de um diagnóstico. Os quadros por trás dessa queixa estão em tosse com catarro: o que pode ser, bronquite: sintomas e catarro amarelo: o que pode ser.
A cumarina não está onde a gente pensa
O guaco é conhecido como “a planta que tem cumarina” — é a cumarina que dá o cheiro de baunilha da folha seca e é ela que justifica a proibição de usar guaco com anticoagulante. Só que a química das duas espécies não é a mesma, e o resultado surpreende:
- a comparação publicada em 2018 encontrou cumarina em todas as amostras de folha de M. laevigata e ausente ou em baixa concentração nas folhas de M. glomerata;
- em compensação, os ácidos clorogênico e dicafeoilquínicos aparecem em concentrações mais altas em M. glomerata;
- o caule das duas contém cumarina, em concentrações diferentes — ou seja, o que entra no saquinho (folha, talo, ou os dois) muda o resultado.
Há uma medida que aponta em outra direção, e é honesto registrá-la: o estudo farmacológico de 2002 detectou 11,4% de cumarina na fração diclorometano obtida do extrato hidroalcoólico de M. glomerata. São análises de materiais diferentes — folha inteira em um caso, fração concentrada de extrato no outro —, mas a divergência mostra que “quanta cumarina o guaco tem” não é uma pergunta com uma resposta só. O que isso significa para quem toma anticoagulante está em guaco e remédios.
O que sustenta a indicação — e o que não sustenta
O estudo mais citado a favor do guaco é o de 2002 sobre broncodilatação. Ele é bom e é específico: extratos da folha de M. glomerata relaxaram traqueia isolada de cobaia pré-contraída com histamina, acetilcolina e potássio, e também brônquio humano isolado. A conclusão dos autores é que os resultados apoiam a indicação da planta para doença respiratória em que há broncoconstrição.
A ressalva é a mesma que vale para qualquer estudo desse desenho: tecido isolado não é gente respirando. Um brônquio numa cuba de órgão isolado responde a uma concentração aplicada diretamente sobre ele — não à xícara de chá que passa pelo estômago, pelo fígado e pela circulação.
A fotografia mais completa vem da revisão de escopo publicada em 2025, que varreu PubMed, Scopus e Web of Science e encontrou 57 estudos cobrindo 38 atividades biológicas das duas espécies. Dois achados dessa revisão merecem estar nesta página:
- a atividade mais estudada nas duas espécies é a anti-inflamatória, associada ao efeito sobre broncoconstrição;
- o mapa de lacunas mostra falta de evidência para vários usos populares — inclusive o de expectorante, além de antitérmico, artrite, reumatismo e neuralgia.
E o dado que fecha o quadro: uma busca no PubMed por ensaio clínico com as duas espécies devolve um único registro, e ele é um estudo de segurança em 19 voluntários saudáveis, não de eficácia. Os números desse ensaio estão em guaco: efeitos colaterais.
O que o guaco não substitui
Guaco é o xarope caseiro de tosse mais popular do Brasil, e é justamente por isso que a fronteira precisa estar escrita. As duas monografias terminam com a mesma ordem: “Ao persistirem os sintomas durante o uso do fitoterápico, um médico deverá ser consultado”. Tosse que não passa, falta de ar, febre que insiste e chiado no peito são motivo de consulta, não de mais uma xícara — e asma e bronquite têm tratamento próprio, que o chá não ocupa. As pistas de quando a tosse deixa de ser banal estão em tosse persistente: o que pode ser.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é exatamente isso que este índice publica, espécie por espécie, em plantas medicinais. Quem não pode tomar guaco, em nenhuma das duas espécies, está listado em quem não pode tomar guaco.
Perguntas frequentes
Como sei qual das duas espécies veio no saquinho que comprei?
Pelo nome popular, não dá — as duas se chamam guaco. Pelo rótulo, dá, se ele trouxer o nome científico. O estudo de 2018 que comparou as duas concluiu que nem a anatomia nem a morfologia separam com segurança: o que separa é o perfil químico da folha, e isso exige laboratório. Na prática, quem compra folha a granel sem nome científico não sabe qual espécie está levando.
Existe monografia europeia de guaco?
Não. O guaco é planta brasileira e não tem monografia de uso tradicional nem de uso bem estabelecido publicada pela agência europeia de medicamentos. Todo o respaldo oficial que esta página cita é nacional: o Formulário de Fitoterápicos da Anvisa e a lista de fitoterápicos da Rename, do Ministério da Saúde.
O guaco está disponível no SUS?
Sim. O guaco é um dos doze medicamentos fitoterápicos que constam da Rename e são ofertados pelo Sistema Único de Saúde. A retirada exige receita médica dentro do prazo de validade, documento de identificação com foto e Cartão Nacional de Saúde, e a disponibilidade varia por município.
Por que o guaco aparece associado a picada de cobra?
É um uso popular antigo que aparece na literatura científica. O estudo de 2002 sobre broncodilatação registrou, de passagem, que uma fração da folha reduziu o edema provocado por injeção de veneno de Bothrops jararaca em camundongos, e a revisão de escopo de 2025 lista o uso antiofídico entre os populares. Nada disso está na indicação oficial, e nada disso substitui soro antiofídico.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT050 (Mikania glomerata Spreng.) e FT051 (Mikania laevigata Sch.Bip. ex Baker): a mesma indicação de alívio sintomático de afecções produtivas das vias aéreas superiores para as duas espécies, as fórmulas de chá de 2 a 3 g e de 0,4 a 0,6 g em 150 mL, a tintura, o xarope, a advertência de uso adulto e o limite de 15 dias de uso contínuo
- Ministério da Saúde — Plantas Medicinais e Fitoterápicos: a lista de fitoterápicos da Rename, que registra o guaco apenas como Mikania glomerata Spreng e o descreve com ação expectorante e broncodilatadora, e a exigência de receita médica dentro do prazo de validade para retirar o produto na rede pública
- Costa VCO, Borghi AA, Mayer JLS, Sawaya ACHF (2018), Planta Medica 84(3):191-200 — comparação de morfologia, anatomia e perfil químico de Mikania glomerata e Mikania laevigata: a conclusão de que o perfil químico da folha é a característica que melhor separa as duas espécies, com cumarina presente em todas as amostras de folha de M. laevigata e ausente ou em baixa concentração nas de M. glomerata, e ácidos clorogênico e dicafeoilquínicos mais concentrados em M. glomerata
- Soares de Moura R et al. (2002), Journal of Pharmacy and Pharmacology 54(2):249-256 — efeito de extratos de folha de Mikania glomerata sobre traqueia isolada de cobaia e brônquio humano isolado: o relaxamento dependente da concentração em tecido pré-contraído, a presença de 11,4% de cumarina na fração diclorometano e a conclusão de que os resultados apoiam a indicação para doença respiratória com broncoconstrição
- Garcia TP et al. (2025), Pharmaceuticals 18(4):552 — revisão de escopo e mapa de lacunas de evidência das duas espécies de guaco: os 57 estudos e 38 atividades biológicas levantados, a atividade anti-inflamatória como a mais pesquisada e a falta de evidência que sustente usos populares como expectorante, antitérmico, para artrite, reumatismo e neuralgia
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026