Guaco na gravidez: o que dizem as monografias
Não. As duas monografias do guaco — a de Mikania glomerata e a de Mikania laevigata — contraindicam o uso durante a gestação e a lactação. E as duas escrevem o motivo com todas as letras: “devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”.
A frase é idêntica nas duas espécies
Esse alinhamento não é comum. Em vários pontos as duas monografias divergem — quantidade de folha, técnica de preparo, idade mínima, lista de interações. Na gravidez, não: as duas usam a mesma construção e o mesmo argumento.
Há ainda uma segunda camada, específica das preparações alcoólicas. A tintura é descrita como “especialmente contraindicada” para gestantes e lactantes, e o motivo declarado ali não é a planta — é o álcool etílico a 70% que forma o extrato. Como o xarope registrado nasce da tintura, esse motivo o acompanha. As fórmulas estão em tintura de guaco.
Ausência de dado não é o mesmo que dano provado
É importante ler a justificativa pelo que ela diz. A monografia não afirma que o guaco provoca aborto, malformação ou trabalho de parto prematuro. Ela afirma que não há dado suficiente para dizer que é seguro — e, num cenário em que o desfecho é uma gestação, isso basta para contraindicar.
O tamanho dessa lacuna é mensurável. Uma busca por ensaio clínico com as duas espécies no PubMed devolve um único registro: o estudo de fase I de 2024, com 19 voluntários adultos saudáveis, que avaliou segurança ao longo de duas semanas de uso. Gestantes não entraram, e nenhum outro ensaio clínico existe para entrar depois.
O que o estudo em ratas prenhes encontrou
Existe um trabalho experimental que foi olhar exatamente essa pergunta, e o resultado merece ser publicado inteiro — inclusive porque ele não confirma o pior cenário.
Pesquisadores brasileiros administraram extrato de Mikania glomerata a ratas Wistar prenhes hipertensas e avaliaram ganho de peso na gestação, desempenho reprodutivo, parâmetros morfológicos e histologia placentária fetal. A conclusão dos autores:
- toxicidade, vasodilatação e hipotensão — os três efeitos que a literatura antecipava — não foram causados pelo guaco;
- as únicas alterações fetais observadas se deviam à hipertensão materna, não ao tratamento;
- os próprios autores encerram pedindo estudos com doses mais altas para conclusão definitiva, porque os estudos existentes são poucos e os efeitos reais permanecem desconhecidos.
Ou seja: o achado experimental disponível é tranquilizador dentro do que testou, e mesmo assim não muda a conduta. Um estudo em ratas hipertensas, com um número limitado de animais e uma faixa de dose, não transforma “sem dado adequado em humanos” em “seguro na gravidez”. A contraindicação continua de pé, e continua sendo a orientação a seguir.
Amamentação entra na mesma frase
Lactação aparece colada à gestação nas duas monografias, com a mesma justificativa. Não há, nos documentos consultados, medição de passagem do guaco para o leite materno nem descrição de efeito no lactente — há a mesma ausência de dado.
E há um agravante prático: o bebê é justamente quem não poderia receber guaco por via direta em nenhuma das preparações registradas, como está detalhado em guaco para crianças.
Uma tosse na gravidez continua sendo uma tosse
Tirar o guaco da mesa não resolve o sintoma que levou alguém a procurá-lo, e essa é a parte que não pode ficar de fora. Tosse persistente, febre, falta de ar e chiado na gestação são motivo de avaliação — não de trocar um chá por outro. As pistas de quando a tosse deixa de ser banal estão em tosse persistente: o que pode ser, e a lista completa de quem mais não pode tomar guaco está em quem não pode tomar guaco.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e no caso da gravidez a contraindicação está escrita, com o motivo, nas duas monografias reunidas em guaco.
Perguntas frequentes
Tomei antes de descobrir que estava grávida. Devo me preocupar?
A conduta oficial é suspender o uso, e a conversa é com quem faz o pré-natal. O que os documentos permitem dizer é que a contraindicação foi escrita por ausência de estudo em gestante, não por dano descrito em gestação humana — e o único estudo publicado em ratas prenhes não atribuiu ao guaco as alterações observadas. Isso informa a conversa; não a substitui.
O xarope de guaco também está proibido na gravidez?
Sim. A contraindicação de gestação e lactação está na advertência geral das duas monografias e alcança todas as preparações, incluindo o xarope. A tintura e o xarope feito a partir dela têm ainda um motivo adicional, o teor alcoólico, que a monografia nomeia explicitamente para gestantes e lactantes.
O guaco atrapalha a produção de leite?
Não é isso que está escrito. As monografias contraindicam a lactação pelo mesmo motivo da gestação — falta de dados adequados de segurança — e não descrevem efeito sobre o volume ou a qualidade do leite. Redução da produção de leite é uma advertência que existe em outras monografias do Formulário, mas não nas do guaco.
Existe algum estudo com gestantes tomando guaco?
Não há estudo clínico com gestantes indexado no PubMed para nenhuma das duas espécies. O único ensaio clínico existente é de fase I, com 19 voluntários adultos saudáveis, e mediu segurança ao longo de duas semanas. É exatamente essa lacuna que a contraindicação descreve.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT050 e FT051: a contraindicação do uso durante a gestação e a lactação nas duas espécies, o motivo declarado de falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações, e a contraindicação específica da tintura para gestantes e lactantes em função do teor alcoólico da formulação
- Fulanetti FB, Camargo GG, Ferro MC, Randazzo-Moura P (2016), Open Veterinary Journal 6(1):23-29 — estudo dos efeitos tóxicos da administração de Mikania glomerata durante a gestação de ratas hipertensas: a avaliação de ganho de peso, desempenho reprodutivo, parâmetros morfológicos e histologia placentária fetal, a conclusão de que toxicidade, vasodilatação e hipotensão não foram causadas pelo guaco, e a ressalva dos autores de que faltam estudos com doses maiores para conclusão definitiva
- Bertol G, Cobre AF, Campos ML, Pontarolo R (2024), Journal of Ethnopharmacology 318(Pt B):117018 — único ensaio clínico indexado com as duas espécies: estudo de fase I de segurança em 19 voluntários adultos saudáveis, que não incluiu gestantes nem lactantes e avaliou apenas duas semanas de uso
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026