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Guia da Saúde

Passiflora: efeitos colaterais e os relatos de caso

A monografia europeia da passiflora escreve, no campo de efeitos indesejáveis, duas palavras: “None known”. O relatório de avaliação da mesma agência, publicado no mesmo dia, descreve vasculite, arritmia com prolongamento do intervalo QT, trombocitopenia e asma ocupacional. As duas coisas são verdadeiras, e entender a diferença é o assunto desta página.

Por que a monografia diz uma coisa e o relatório diz outra

Não é contradição, é divisão de trabalho entre dois documentos. A monografia é o texto que vira bula: só entra ali o que tem frequência conhecida e causalidade aceita. O relatório de avaliação é o dossiê que sustenta a monografia: nele entra tudo o que foi encontrado na literatura e na farmacovigilância, inclusive o que é isolado, duvidoso ou de causalidade incerta.

A própria EMA registra a decisão: o grupo de trabalho “agreed not to include references to single cases in the revised version of the Community monograph”. Casos isolados ficaram de fora da bula de propósito — e continuam existindo no anexo.

Por isso a leitura correta de “None known” não é “não faz mal”. É: nenhuma reação adversa tem frequência estabelecida, porque o dado de segurança convencional, nas palavras do relatório, é “virtually absent”.

Os relatos que existem, um a um

AnoO que foi descritoContexto
1993vasculite por hipersensibilidade com urticáriacomprimidos com extrato de passiflora
1997asma e rinite ocupacionais mediadas por IgEmanipulação em farmácia — e de outra espécie
2000náusea grave, vômito, sonolência, QT prolongado e taquicardia ventricularautomedicação em dose terapêutica
náusea e trombocitopenia isoladasnotificações da Irlanda, produtos não registrados
taquicardia, arritmia, tremor, agitação, função hepática anormalmesmas notificações, com outros fármacos em uso

Nas notificações irlandesas, a própria agência escreve que a causalidade não foi estabelecida e que havia uso concomitante de outros medicamentos na maioria dos casos. Isso não apaga a lista — qualifica.

O caso de 2000 é o mais incômodo, e o motivo é a dose

O relato publicado no Journal of Toxicology — Clinical Toxicology (PMID 10696928) descreve uma mulher de 34 anos que desenvolveu náusea grave, vômito, sonolência, QTc prolongado e episódios de taquicardia ventricular não sustentada depois de se automedicar com Passiflora incarnata. Ela precisou de internação para monitorização cardíaca e hidratação intravenosa, e a associação com a planta só foi levantada vários dias depois.

O detalhe que faz esse caso pesar mais que os outros está no resumo, em três palavras: “at therapeutic doses”. O relatório europeu confirma a conta: a quantidade ingerida correspondia a 1,5 a 2 g de droga vegetal por dia, durante dois dias — dentro da faixa de 1 a 2 g por dose que o chá de passiflora registra.

A EMA acrescenta que a causalidade não pode ser avaliada com certeza por falta de dados completos. Um caso não estabelece risco populacional. Mas é o único evento cardíaco publicado com dose registrada, e por isso ele vale como aviso: palpitação, vômito ou sonolência intensa depois de começar a planta são motivo para parar e procurar avaliação, não para aumentar a dose.

Um dos relatos citados é de outra espécie

Aqui está o achado desta página, e ele está na bibliografia da monografia brasileira. A FT056 escreve: “há relatos de hipersensibilidade, asma ocupacional mediada por IgE e rinite com o uso de P. incarnata”, e credita a frase a dois trabalhos, Smith 1993 e Giavina-Bianchi 1997.

Abrindo o segundo (PMID 9396980), o título já responde: “Occupational respiratory allergic disease induced by Passiflora alata and Rhamnus purshiana. Três coisas não batem com a frase que ele sustenta:

  • a espécie é outraPassiflora alata, não P. incarnata;
  • não houve “uso” no sentido de tomar: o paciente era um trabalhador de farmácia de manipulação, exposto ao pó dos extratos vegetais; a relação foi confirmada por teste cutâneo, Western blot e provocação brônquica;
  • e o primeiro artigo, Smith 1993, descreve vasculite, não asma nem rinite.

A conclusão prática não muda: hipersensibilidade aos componentes é contraindicação registrada, o gênero Passiflora tem sensibilização documentada e quem já reagiu a qualquer preparação não deve repetir. O que muda é a precisão. Quem manipula a erva seca a granel — e não só quem a bebe — está na população em que a reação foi de fato descrita. A lista completa está em quem não pode tomar passiflora.

O que fazer se aparecer alguma reação

A instrução brasileira é a mais objetiva de todo o documento: “em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico”. A europeia diz o mesmo com outras palavras.

Duas coisas ajudam nessa consulta e quase nunca são levadas: qual preparação (infuso, tintura, extrato fluido ou cápsula) e há quantos dias. Reação a uma tintura pode ser do álcool; reação que começa no quinto dia conta uma história diferente da que começa na primeira dose. E se houver outro medicamento em uso, o assunto muda de página — está em passiflora e remédios. O que a espécie é e o que ela sustenta fica em passiflora.

Perguntas frequentes

Chá de passiflora pode causar taquicardia?

Não é efeito esperado nem listado como reação comum, mas há registro. O caso publicado em 2000 descreve taquicardia ventricular não sustentada com QT prolongado, e a farmacovigilância irlandesa notificou taquicardia, arritmia e fibrilação ventricular em produtos não registrados, quase sempre com outros medicamentos em uso e sem causalidade estabelecida. Palpitação depois de tomar é motivo para suspender e procurar avaliação.

Passiflora faz mal ao fígado?

Nenhum dos documentos registra hepatotoxicidade como efeito da passiflora. Função hepática anormal aparece uma vez, na lista de notificações irlandesas de produtos não registrados, num conjunto em que havia uso concomitante de outros fármacos e em que a própria agência diz que a causalidade não foi estabelecida. Não é o mesmo que uma reação atribuída à planta.

Sonolência no dia seguinte é esperada?

Os documentos não quantificam a duração. O que registram é que a preparação pode causar sonolência e prejudicar a capacidade de dirigir e operar máquinas, e a advertência brasileira vale para todo o período de uso, não só para as horas seguintes à dose. O NIH acrescenta tontura e confusão entre os efeitos possíveis.

Tomei uma dose maior que a indicada. Isso é sobredosagem?

A monografia europeia registra que nenhum caso de sobredosagem foi relatado, o que significa ausência de descrição na literatura e não margem de segurança medida. A orientação brasileira é direta e vale sempre: não utilizar em doses acima das recomendadas e, aparecendo evento adverso, suspender o produto e consultar um médico.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT056, Passiflora incarnata L.: a advertência de que o uso pode causar sonolência, a orientação de não utilizar em doses acima das recomendadas, a instrução de suspender o produto e consultar um médico em caso de evento adverso, e a frase que atribui relatos de hipersensibilidade, asma ocupacional mediada por IgE e rinite ao uso de P. incarnata, creditando-a a Smith e colaboradores (1993) e a Giavina-Bianchi e colaboradores (1997)
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669740/2013): a seção 4.8, que registra 'None known' no campo de efeitos indesejáveis, com a ressalva de procurar um médico se ocorrerem reações adversas; e a seção 4.9, segundo a qual nenhum caso de sobredosagem foi relatado
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669738/2013): a seção 5.3, que relata o caso de taquicardia ventricular com náusea grave, vômito, sonolência e prolongamento do QT correspondente a 1,5 a 2 g de droga vegetal por dia durante dois dias, a vasculite por hipersensibilidade de Smith 1993, e a lista de reações notificadas na Irlanda para produtos não registrados com passiflora como ingrediente único (náusea e trombocitopenia isoladas; taquicardia, vômito, insuficiência ventricular esquerda, fibrilação ventricular, função hepática anormal, arritmia, tremor, agitação e síndrome de abstinência com uso concomitante de outros fármacos, sem causalidade estabelecida)
  4. Fisher AA, Purcell P, Le Couteur DG. Toxicity of Passiflora incarnata L. Journal of Toxicology — Clinical Toxicology, v. 38, n. 1, p. 63-66, 2000 (PMID 10696928) — o relato de caso de uma mulher de 34 anos que desenvolveu náusea grave, vômito, sonolência, QTc prolongado e episódios de taquicardia ventricular não sustentada após automedicação com Passiflora incarnata em doses terapêuticas, exigindo internação para monitorização cardíaca e hidratação intravenosa
  5. Smith GW, Chalmers TM, Nuki G. Vasculitis associated with herbal preparation containing Passiflora extract. British Journal of Rheumatology, v. 32, n. 1, p. 87-88, 1993 (PMID 8422575) — o relato de vasculite associada a preparação fitoterápica contendo extrato de Passiflora, descrito pela monografia da OMS como caso único de hipersensibilidade com vasculite cutânea e urticária após ingestão de comprimidos
  6. Giavina-Bianchi PF Jr, Castro FF, Machado ML, Duarte AJ. Occupational respiratory allergic disease induced by Passiflora alata and Rhamnus purshiana. Annals of Allergy, Asthma and Immunology, v. 79, n. 5, p. 449-454, 1997 (PMID 9396980) — o caso de asma e rinite ocupacionais mediadas por IgE em um trabalhador de farmácia de manipulação, confirmadas por teste cutâneo, Western blot e provocação brônquica, envolvendo Passiflora alata e Rhamnus purshiana, e não Passiflora incarnata

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026