Passiflora para ansiedade: 2 estudos e um paradoxo
Ansiedade é metade da indicação registrada da passiflora — “auxiliar no alívio da ansiedade e da insônia leves”. Do lado da evidência, o quadro é mais magro do que a fama sugere: a revisão Cochrane encontrou dois ensaios e 198 pessoas, e concluiu que não dava para concluir. E o estudo mais rigoroso em animais encontrou o efeito oposto.
A indicação existe, e a categoria dela tem nome
A monografia europeia é montada em duas colunas: uso bem estabelecido, sustentado por ensaio clínico, e uso tradicional, aceito pelo tempo de uso. Na passiflora, a coluna do uso bem estabelecido está vazia da primeira à última seção. A indicação — “relief of mild symptoms of mental stress” — está inteira na coluna da direita, com a fórmula padrão: “exclusively based upon long-standing use”.
O relatório de avaliação explica por que, sem rodeio: “the clinical data cannot be considered to fulfil the criteria required for ‘well-established medicinal use’”. E a monografia da OMS, sete anos antes, resume em duas palavras na seção de usos apoiados por dados clínicos: “None”.
Isso não é o mesmo que “não serve para nada”. É o mesmo que: a indicação existe oficialmente porque a planta é usada assim há décadas, não porque ensaios demonstraram que ela funciona. A mesma situação da melissa — e diferente da camomila, que sequer tem indicação registrada para esse fim.
Os dois ensaios que a Cochrane aceitou
A revisão sistemática Cochrane sobre passiflora para transtorno de ansiedade (PMID 17253512) foi conduzida pelo Centro Cochrane do Brasil, e o número que ela devolve é o mais importante desta página: de toda a literatura, dois estudos foram elegíveis, somando 198 participantes.
O mais citado dos dois é um ensaio piloto de 2001 (PMID 11679026), e vale abrir:
- 36 pacientes ambulatoriais com transtorno de ansiedade generalizada pelo DSM-IV;
- 18 receberam extrato de passiflora, 45 gotas por dia; 18 receberam oxazepam, 30 mg/dia; quatro semanas;
- ao final, nenhuma diferença significativa entre os dois na escala de ansiedade de Hamilton;
- o oxazepam teve início de ação mais rápido;
- e houve significativamente mais prejuízo de desempenho no trabalho no grupo do oxazepam.
A leitura fácil é “a planta empatou com o benzodiazepínico”. A leitura honesta está no relatório europeu, que lista os defeitos: não havia grupo placebo, 18 pacientes por braço é pouco demais, o tipo de preparação e os detalhes de posologia não foram descritos, e os participantes visitaram um psiquiatra seis vezes em 28 dias — contato clínico que, sozinho, tende a melhorar ansiedade. O comitê acrescenta que o estudo não foi desenhado como estudo de equivalência, de modo que conclusões sobre eficácia não podem ser tiradas. Ele vale como piloto e como apoio ao uso tradicional. Não como prova.
O segundo ensaio da revisão é um estudo japonês multicêntrico de 1993, contra mexazolam, descrito no relatório europeu: a passiflora mostrou efeito significativo em 4 dos 8 itens avaliados; o mexazolam, nos 8.
A conclusão dos autores da Cochrane é literal: os ensaios randomizados “are too few in number to permit any conclusions to be drawn”.
O ensaio pré-operatório mede outra coisa
Dois estudos testaram passiflora antes de cirurgia, e são os mais bem desenhados do conjunto. O de 2008 (PMID 18499602) deu 500 mg por via oral, 90 minutos antes, a 60 pacientes de cirurgia ambulatorial: os escores de ansiedade ficaram significativamente menores que os do placebo, e — o achado interessante — sem induzir sedação, com recuperação psicomotora comparável entre os grupos. Um segundo estudo, de 2012, encontrou diferença estatisticamente significativa mas pequena antes de raquianestesia.
O NIH resume assim: “a small amount of research suggests that oral passionflower might help to reduce symptoms of anxiety and anxiety before a surgical or dental procedure, but conclusions are not definite”. O comitê europeu vai além e classifica os dois como estudos piloto, concluindo que o uso nessa indicação não pode ser reconhecido como bem estabelecido nem como tradicional.
E há a ironia prática: é exatamente antes de cirurgia que o NIH desaconselha a planta, por possível interação com fármacos de anestesia. O assunto está em passiflora e remédios.
O paradoxo: cinco extratos, um camundongo mais ansioso
Este é o dado que quase nenhum texto em português publica. Em 2010, um grupo americano preparou cinco extratos diferentes a partir do mesmo lote de planta — extração quente e fria, com água e com etanol a 65%, erva fresca e seca — e os deu a camundongos na água de beber por uma semana (PMID 20382514).
O resultado, na frase do próprio resumo:
“Instead of the anxiolytic effects described by others, anxiogenic effects in the elevated plus maze were seen in mice receiving any of the 5 Passiflora extracts.”
Ansiogênico: mais comportamento de ansiedade, não menos. Nos cinco extratos, sem exceção.
O mesmo trabalho traz outro achado que reorganiza o assunto: o extrato de passiflora produziu correntes diretas de GABA nos neurônios do hipocampo — mas porque o próprio GABA é ingrediente proeminente do extrato, e as correntes desapareceram quando os aminoácidos foram removidos. Ou seja, parte do efeito medido em bancada vinha do neurotransmissor que está dentro do chá, não de um princípio ativo da planta agindo sobre o receptor.
Nada disso prova que a passiflora piora ansiedade em gente. Prova outra coisa, e é o que os reguladores dizem de outro jeito: o mecanismo não está esclarecido, e o resultado muda conforme o método de extração. Dois vidros de passiflora podem não ser o mesmo produto.
Mais não é mais: a curva em U
Em 2008, um extrato quimicamente caracterizado foi testado em camundongos no labirinto em cruz elevado (PMID 19006051). A 375 mg/kg, o efeito ansiolítico foi comparável ao do diazepam a 1,5 mg/kg. A dose menor, de 150 mg/kg, não fez efeito. E a dose maior, de 600 mg/kg, também não.
É uma curva de dose-resposta em U: fora da janela, nos dois sentidos, o efeito desaparece. Aumentar a dose porque “não senti nada” é a atitude que a monografia proíbe em uma linha — “não utilizar em doses acima das recomendadas” — e que este experimento explica: mais pode ser simplesmente menos. A faixa registrada está em chá de passiflora.
Sobre querer largar o calmante
É a busca por trás de boa parte do tráfego desta página, e a resposta precisa ser exata.
Existe um ensaio de passiflora em síndrome de abstinência (PMID 11679027), e ele é de opiáceos, não de benzodiazepínicos: 65 pacientes em desintoxicação, todos recebendo clonidina, metade recebendo também 60 gotas por dia de extrato de passiflora, por 14 dias. Os dois grupos tiveram resultado igual nos sintomas físicos; o grupo com passiflora foi superior nos sintomas mentais. O relatório europeu é categórico sobre o alcance disso: a indicação e a população não podem ser consideradas relevantes para avaliar o uso tradicional, e o uso da passiflora nessa indicação não é reconhecido na Europa.
Traduzindo para a prateleira: não há evidência de que passiflora ajude a reduzir ou substituir calmante prescrito, e as monografias desaconselham usá-la durante tratamento com sedativos e depressores do sistema nervoso central. Retirada de benzodiazepínico é decisão e cronograma de quem prescreve; suspender por conta própria pode devolver a ansiedade com juros.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação. A lista de quem deve evitar está em quem não pode tomar passiflora, e a outra metade da indicação, com um ensaio que ninguém cita direito, em passiflora para insônia.
Perguntas frequentes
Passiflora ou melissa, qual é melhor para ansiedade?
Nenhum documento publica comparação direta entre as duas, e as duas estão na mesma categoria regulatória: uso tradicional, com a coluna do uso bem estabelecido vazia na monografia europeia. A diferença é de arquivo clínico: a passiflora tem revisão Cochrane própria, ainda que inconclusiva; a melissa não tem. Comparar sem estudo é preencher o vazio com opinião.
Quanto tempo até a passiflora fazer efeito?
Os documentos não publicam tempo de início para o infuso. O que existe são pistas dos ensaios: no estudo pré-operatório, o comprimido foi dado 90 minutos antes do procedimento; no ensaio contra oxazepam, o comparador teve início de ação mais rápido que a planta. O prazo que as monografias fixam é outro — duas semanas para reavaliar o sintoma.
Posso tomar antes de uma prova ou apresentação?
Não é o cenário estudado, e há um detalhe que atrapalha: a advertência de sonolência e de não dirigir nem operar máquinas vale para todo o período de uso. Os dois ensaios que testaram ansiedade situacional mediram ansiedade pré-operatória em ambiente hospitalar, com dose e horário controlados, e mesmo eles são tratados pelos reguladores como estudos piloto.
Passiflora ajuda a largar o clonazepam?
Não há estudo que sustente isso, e a orientação vai no sentido contrário: as monografias desaconselham usar passiflora durante tratamento com sedativos e depressores do sistema nervoso central. Reduzir benzodiazepínico é procedimento médico, com plano e prazo, e interromper por conta própria pode piorar exatamente o que se queria resolver.
Fontes
- Miyasaka LS, Atallah AN, Soares BG. Passiflora for anxiety disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 1, CD004518, 2007 (PMID 17253512) — a revisão sistemática conduzida pelo Centro Cochrane do Brasil: dois estudos elegíveis, com 198 participantes no total, ausência de diferença de eficácia entre benzodiazepínico e passiflora em um deles, taxas de abandono semelhantes, e a conclusão de que os ensaios randomizados são poucos demais para permitir qualquer conclusão
- Akhondzadeh S, Naghavi HR, Vazirian M, Shayeganpour A, Rashidi H, Khani M. Passionflower in the treatment of generalized anxiety: a pilot double-blind randomized controlled trial with oxazepam. Journal of Clinical Pharmacy and Therapeutics, v. 26, n. 5, p. 363-367, 2001 (PMID 11679026) — o ensaio piloto em 36 pacientes ambulatoriais com transtorno de ansiedade generalizada pelo DSM-IV, 18 com extrato de passiflora a 45 gotas por dia e 18 com oxazepam a 30 mg por dia durante quatro semanas, sem diferença significativa ao final, com início de ação mais rápido do oxazepam e significativamente mais prejuízo de desempenho no trabalho no grupo do oxazepam
- Elsas SM, Rossi DJ, Raber J, White G, Seeley CA, Gregory WL, Mohr C, Pfankuch T, Soumyanath A. Passiflora incarnata L. (Passionflower) extracts elicit GABA currents in hippocampal neurons in vitro, and show anxiogenic and anticonvulsant effects in vivo, varying with extraction method. Phytomedicine, v. 17, n. 12, p. 940-949, 2010 (PMID 20382514) — a constatação de que o GABA é ingrediente proeminente do próprio extrato, de que as correntes desaparecem quando os aminoácidos são removidos, e de que, em vez do efeito ansiolítico descrito por outros, os cinco extratos preparados do mesmo lote produziram efeito ansiogênico no labirinto em cruz elevado em camundongos
- Movafegh A, Alizadeh R, Hajimohamadi F, Esfehani F, Nejatfar M. Preoperative oral Passiflora incarnata reduces anxiety in ambulatory surgery patients: a double-blind, placebo-controlled study. Anesthesia and Analgesia, v. 106, n. 6, p. 1728-1732, 2008 (PMID 18499602) — o ensaio em 60 pacientes de cirurgia ambulatorial que receberam 500 mg de Passiflora incarnata por via oral 90 minutos antes do procedimento, com escores de ansiedade significativamente menores que os do placebo, sem indução de sedação e com recuperação psicomotora comparável entre os grupos
- Grundmann O, Wang J, McGregor GP, Butterweck V. Anxiolytic activity of a phytochemically characterized Passiflora incarnata extract is mediated via the GABAergic system. Planta Medica, v. 74, n. 15, p. 1769-1773, 2008 (PMID 19006051) — o efeito ansiolítico comparável ao do diazepam a 1,5 mg/kg obtido com 375 mg/kg do extrato em camundongos, a curva de dose-resposta em U, com ausência de efeito a 150 mg/kg e a 600 mg/kg, e o antagonismo pelo flumazenil, mas não pelo antagonista de 5-HT1A
- European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669740/2013): a indicação de uso tradicional redigida como 'relief of mild symptoms of mental stress and to aid sleep', apoiada exclusivamente em uso prolongado, e a coluna de uso bem estabelecido vazia da primeira à última seção
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669738/2013): a conclusão de que os dados clínicos não cumprem os critérios de uso medicinal bem estabelecido; as falhas apontadas no ensaio de Akhondzadeh 2001a (ausência de grupo placebo, amostra pequena, preparação e posologia não descritas, seis consultas psiquiátricas em 28 dias e desenho que não permite conclusão de eficácia); a descrição do ensaio japonês multicêntrico de Mori 1993 contra mexazolam, com efeito significativo em 4 dos 8 itens contra 8 de 8; e a descrição do ensaio de Aslanargun 2012, com diferença estatisticamente significativa mas pequena antes de raquianestesia
- Akhondzadeh S, Kashani L, Mobaseri M, Hosseini SH, Nikzad S, Khani M. Passionflower in the treatment of opiates withdrawal: a double-blind randomized controlled trial. Journal of Clinical Pharmacy and Therapeutics, v. 26, n. 5, p. 369-373, 2001 (PMID 11679027) — o ensaio de 14 dias em 65 dependentes de opiáceos, com 60 gotas diárias de extrato de passiflora somadas a até 0,8 mg de clonidina contra clonidina isolada: eficácia equivalente nos sintomas físicos da abstinência e superioridade da combinação nos sintomas mentais, com os próprios autores pedindo estudo maior
- NCCIH / National Institutes of Health — Passionflower: a avaliação de que uma pequena quantidade de pesquisa sugere que a passiflora por via oral pode ajudar a reduzir sintomas de ansiedade e a ansiedade antes de procedimento cirúrgico ou odontológico, mas que as conclusões não são definitivas, e o alerta de possível interação com fármacos de anestesia
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026