Mil-folhas para inflamação: uma indicação só do Brasil
“Como anti-inflamatório” é uma das cinco indicações que o Formulário de Fitoterápicos atribui à fórmula 1 da mil-folhas. Abrindo a monografia europeia da mesma parte da mesma planta, a palavra não aparece entre as indicações — nem em 2011, nem na revisão de 2020.
A palavra que só o Brasil escreveu na linha da indicação
A Europa aceita quatro usos tradicionais para a parte aérea: perda temporária de apetite, queixas gastrintestinais espasmódicas leves, espasmo menstrual leve e pequenas feridas superficiais.
O efeito anti-inflamatório existe no documento europeu — mas na seção de dados não clínicos, como um dos mecanismos que tornam plausíveis as indicações digestiva e de ferida. A frase é literal: “Non-clinical studies on anti-inflammatory activity may make the wound healing effect plausible.” Plausível. Não comprovado, não indicado.
No Brasil, esse mesmo mecanismo subiu de linha e virou indicação, apoiado em bibliografia farmacológica dos anos 1974, 1984 e 1993. É a mesma operação que aconteceu com o efeito colerético, descrita em mil-folhas para o fígado.
O número: 29% do edema, contra 45% do comparador
O experimento mais citado sobre atividade anti-inflamatória da espécie é de 1987, no modelo clássico de edema de pata de rato induzido por carragenina:
| Tratamento | Dose | Inibição do edema |
|---|---|---|
| Extrato seco etanólico 80% de mil-folhas | 100 mg/kg, via oral | 29% |
| Indometacina (comparador) | 5 mg/kg | 45% |
Duas leituras saem daí, e as duas são honestas. A primeira: houve efeito, e ele foi estatisticamente significativo. A segunda: o efeito ficou abaixo do comparador, com uma dose vinte vezes maior em miligramas por quilo. E o extrato testado não é o infuso — é extrato seco etanólico, padronizado em laboratório.
Há também sinal de mecanismo em bancada: extrato aquoso liofilizado a 0,2 mg/mL inibiu a exocitose de elastase induzida por PAF em neutrófilos humanos, e um extrato metanólico inibiu a biossíntese de prostaglandinas a partir de ácido araquidônico marcado. São achados coerentes com o rótulo — e são todos in vitro.
O teste que procurou inflamação e não achou
Entre as referências que a própria FT001 cita para sustentar essas indicações está um ensaio brasileiro de 2009, publicado na Phytotherapy Research. Aberto no PubMed sob o PMID 18844327, ele usou quatro modelos em camundongos — placa quente, contorções abdominais, formalina e trânsito intestinal.
O teste da formalina é o que interessa aqui, porque sua fase tardia é justamente a fase inflamatória. Resultado, no resumo do próprio artigo: nenhuma diferença nas respostas imediata nem tardia do teste da formalina, e nenhuma diferença no tempo de resposta da placa quente.
O único desfecho positivo foi o das contorções abdominais — e de forma curiosa: 500 mg/kg inibiram 65%, e 1.000 mg/kg inibiram apenas 23%. A dose maior funcionou menos.
O artigo apoia, portanto, uma antinocicepção periférica em camundongos. Ele não apoia o componente inflamatório. Um PMID válido citado no lugar certo pode, ainda assim, não dizer aquilo que a linha da indicação afirma — e conferir isso exige abrir o resumo.
O único dado em pessoas: 23 voluntários e um detergente
Existe um estudo clínico de inflamação com a espécie, e ele é de pele. Vinte e três voluntários tiveram a pele irritada artificialmente com laurilsulfato de sódio a 8%, num desenho duplo-cego e randomizado. Foram aplicados extratos da parte aérea preparados em azeite de oliva ou óleo de girassol, na proporção 1:5.
Três parâmetros foram medidos — capacitância, pH e índice de eritema — e os três voltaram aos valores basais após 3 e 7 dias de tratamento. Os autores registram que o efeito não pode ser atribuído aos óleos em si.
É um resultado a favor. E tem três limites que precisam vir junto: é tópico, é em irritação provocada por detergente (não em doença inflamatória), e o extrato oleoso não é uma preparação registrada em nenhuma das duas monografias. O que a espécie tem de registrado para pele é a compressa de infuso, discutida em mil-folhas para cicatrização.
O que a indicação permite, na prática
Ela não cria uma dose própria: a fórmula 1 é a mesma dos sintomas digestivos, 2 a 4 g em 250 mL, três a quatro vezes ao dia. E não abre exceção nenhuma na lista de restrições da espécie, que está em quem não pode tomar mil-folhas.
Traduzindo em conduta: a mil-folhas pode ser usada dentro das indicações registradas, e “inflamação” não é um diagnóstico. Inchaço, calor e vermelhidão localizados que aumentam, febre associada, dor que piora ou sintoma que dura mais de duas semanas de uso são motivo para procurar um serviço de saúde, não para insistir no chá. As demais indicações da fórmula 1 estão em mil-folhas: para que serve.
Perguntas frequentes
Serve para dor nas articulações ou artrite?
Não há indicação registrada para articulação em nenhum dos dois documentos, e nenhum estudo em pessoas testou isso. Dor articular persistente, com inchaço ou rigidez matinal prolongada, é motivo para avaliação, porque o tratamento depende da causa e o tempo até o diagnóstico conta.
Chá de mil-folhas desinflama a garganta?
Garganta não aparece entre as indicações da espécie. Quem tem monografia com indicação para boca e orofaringe, no mesmo Formulário, é a camomila, em bochecho ou gargarejo. Dor de garganta com febre alta, placas, dificuldade de engolir ou de respirar pede atendimento.
Existe dose anti-inflamatória diferente?
Não. A monografia lista o efeito anti-inflamatório junto das outras indicações da fórmula 1 e não cria posologia própria para ele: a dose é a mesma dos sintomas digestivos, de 2 a 4 g em 250 mL, três a quatro vezes ao dia. Aumentar por conta contraria a instrução expressa de não exceder as doses.
Posso substituir meu anti-inflamatório pelo chá?
Não. O estudo mais favorável comparou a planta a um anti-inflamatório de referência e ficou abaixo dele, em rato, com extrato padronizado que não é o infuso. Trocar medicamento prescrito por chá é decisão que só faz sentido com quem prescreveu, e nunca por conta própria.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT001-00, Achillea millefolium L.: a fórmula 1 indicada também como anti-inflamatório, com a lista de referências farmacológicas que sustenta a indicação, e a ausência de qualquer posologia específica para essa finalidade
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Achillea millefolium L., herba, Revision 1 (EMA/HMPC/376415/2019): o estudo de Mascolo et al. 1987, com inibição de 29% do edema de pata induzido por carragenina contra 45% da indometacina, o estudo de Tadi et al. 2017 em 23 voluntários com pele irritada por laurilsulfato de sódio, e os ensaios in vitro sobre elastase de neutrófilos humanos e biossíntese de prostaglandinas
- Pires JM, Mendes FR, Negri G, Duarte-Almeida JM, Carlini EA. Antinociceptive peripheral effect of Achillea millefolium L. and Artemisia vulgaris L. Phytother Res 2009;23(2):212-219 (PMID 18844327) — o ensaio brasileiro que a FT001 cita entre as referências da indicação e que não encontrou diferença nas respostas imediata nem tardia do teste da formalina, a etapa que avalia o componente inflamatório
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026