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Guia da Saúde

Remédio natural para dor nas costas: o que foi aprovado

As palavras lombar e coluna não aparecem uma única vez no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa — nem nas indicações, nem em nenhuma outra seção das 85 monografias. Fora do Brasil, porém, existe uma planta com dor lombar aprovada por regulador na categoria mais exigente: a casca de salgueiro. E existe uma que o mesmo comitê avaliou e recusou para a mesma queixa: a garra-do-diabo. As duas histórias explicam por que “chá para as costas” é um assunto quase sem documento.

O que a Europa aprovou, e em que categoria

As monografias da EMA têm duas colunas. Uso tradicional aceita a indicação pelo tempo de uso, sem exigir ensaio clínico. Uso bem estabelecido exige eficácia demonstrada. A esmagadora maioria das plantas medicinais tem a segunda coluna vazia.

Na monografia da casca de salgueiro (EMA/HMPC/80630/2016 Corr1), a coluna de uso bem estabelecido está preenchida com uma frase:

“Herbal medicinal product used for the short-term treatment of low back pain.”

E ela vem com números precisos, porque a coluna exige isso: a preparação é extrato seco 8-14:1 extraído com etanol a 70% e padronizado em 15% de salicina total; a dose única vai de 393 a 786 mg, até duas vezes ao dia; a dose diária, de 393 a 1.572 mg; o uso é contraindicado abaixo de 18 anos; e o tratamento não deve passar de quatro semanas, com reavaliação já se a dor persistir na primeira semana.

Nada disso descreve um chá. Casca fervida em água não tem teor de salicina conhecido, e a diferença entre 393 e 1.572 mg por dia não sobrevive a uma xícara caseira. O infuso e o decocto da casca estão na outra coluna, a tradicional, e para outras indicações — as fórmulas brasileiras estão em chá de salgueiro.

A recusa da garra-do-diabo, com a frase que a explica

A garra-do-diabo passou pelo mesmo comitê. O relatório de avaliação (EMA/HMPC/627058/2015) dedica páginas aos ensaios de lombalgia e conclui:

“There are several trials that evaluated the use of devils claw for the treatment of lower back pain. However the majority are small with methodological weakness. Many have been reported by the same authors. In addition, the results are limited by the known large placebo effect in the treatment of this condition, therefore the evidence of efficacy in not sufficient for a well-establish use indication.”

Três motivos, e o terceiro é o que mais importa para quem lê rótulo: o efeito placebo é grande nessa condição. Dor lombar melhora sozinha com frequência, e isso torna difícil provar que qualquer coisa funcionou. A planta ficou com uma indicação só, de uso tradicional, para dor articular menor — o recorte está em garra-do-diabo para dor nas articulações.

O que o documento brasileiro fez com esse texto

A FT069-01, monografia brasileira do salgueiro, cita a monografia europeia de 2017 como fonte de suas seis fórmulas. Comparando indicação por indicação, aparece o desencontro:

Monografia europeia (2017)Formulário brasileiro (FT069-01)
Uso bem estabelecidotratamento de curta duração da dor lombarnão consta
Tradicional 1dor articular menorconsta
Tradicional 2febre associada ao resfriado comumconsta
Tradicional 3cefaleianão consta

Duas de quatro. E há um detalhe que revela o caminho do texto: a advertência brasileira “ao persistirem os sintomas por período maior que uma semana, um médico deverá ser consultado” é justamente a regra de duração que, na monografia europeia, pertence à coluna do uso bem estabelecido, ou seja, à indicação de dor lombar. O prazo atravessou a fronteira; a indicação, não.

Isso não libera nada. No Brasil o salgueiro não tem indicação para dor nas costas, e as contraindicações continuam inteiras: úlcera péptica, deficiência de G6PD, distúrbio de coagulação, gestação, lactação e menores de 18 anos pelo risco de síndrome de Reye. A leitura completa está em salgueiro e em salgueiro efeitos colaterais.

Por que esta página não fala de exercício, agulha nem postura

Porque o recorte aqui é planta. Dor nas costas é uma das queixas com mais evidência acumulada fora da fitoterapia, e essa parte já está detalhada em outras duas páginas do site, com as diretrizes e os desfechos medidos: acupuntura para dor nas costas e ioga para dor nas costas. Quem procura o que fortalecer encontra a seleção em exercícios para costas.

A separação é útil também na prática: as condutas não vegetais para lombalgia comum têm mais respaldo do que qualquer chá, e nenhum documento oficial de fitoterapia disputa esse lugar.

Antes de qualquer chá: os sinais que mudam a conduta

Procure atendimento imediato se a dor nas costas veio depois de queda ou acidente; se houver perda de força numa perna, dormência na região entre as coxas ou dificuldade para segurar ou iniciar a urina; se houver febre com a dor; se você tem ou teve câncer, usa corticoide há muito tempo ou tem osteoporose e a dor começou sem motivo; se a dor acorda você à noite e não melhora deitado; ou se houve perda de peso sem explicação.

Dor que muda de lado, sobe para as costelas ou vem com ardência ao urinar pode não ser da coluna — a diferenciação está em dor nas costas ou nos rins. As causas mais comuns da dor baixa estão em dor lombar causas, e o mapa geral, em dor nas costas: o que pode ser.

O índice das demais queixas fica em chá para cada sintoma.

Perguntas frequentes

Chá de salgueiro serve para dor lombar?

A indicação europeia de dor lombar é de um extrato seco padronizado em 15% de salicina, em dose contada em miligramas, e não do chá. O infuso da casca aparece na coluna de uso tradicional, com outras indicações. No Brasil, a monografia do salgueiro sequer registra dor lombar.

Por que a garra-do-diabo não foi aprovada para dor lombar?

O relatório europeu diz que os ensaios eram em maioria pequenos, metodologicamente frágeis, muitos assinados pelos mesmos autores, e que o efeito placebo é grande nessa condição. A conclusão foi que a evidência não bastava para uso bem estabelecido. A planta ficou só com dor articular leve, por tradição.

Existe pomada de planta com indicação para as costas?

Nenhuma monografia brasileira registra dor nas costas, em qualquer via. As indicações tópicas registradas são para contusão, entorse e dor muscular localizada, que descrevem trauma, não lombalgia. Aplicar pomada nas costas não está errado, mas também não está descrito em documento oficial.

Quanto tempo de dor nas costas justifica procurar médico?

A própria monografia europeia da casca de salgueiro manda consultar se a dor persistir durante a primeira semana de uso, e limita o tratamento a quatro semanas. Antes disso, há sinais que não esperam prazo nenhum: dor após trauma, febre, perda de força ou alteração no controle da urina.

Fontes

  1. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Salix [various species including S. purpurea L., S. daphnoides Vill., S. fragilis L.], cortex (EMA/HMPC/80630/2016 Corr1, 31 de janeiro de 2017): a coluna de uso bem estabelecido com a indicação de tratamento de curta duração da dor lombar, o extrato seco 8-14:1 em etanol 70% com 15% de salicina total, a dose única de 393 a 786 mg até duas vezes ao dia e a diária de 393 a 1572 mg, o teto de quatro semanas, a orientação de consultar médico ou farmacêutico se a dor persistir na primeira semana e as três indicações de uso tradicional, entre elas cefaleia
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Harpagophytum procumbens DC. and/or Harpagophytum zeyheri Decne., radix (EMA/HMPC/627058/2015): a conclusão da seção 4.4 de que os ensaios de garra-do-diabo em dor lombar são em maioria pequenos, com fragilidade metodológica, muitos publicados pelos mesmos autores e limitados pelo grande efeito placebo dessa condição, e por isso a evidência de eficácia não é suficiente para uma indicação de uso bem estabelecido
  3. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a ausência total das palavras lombar e coluna no documento, e a monografia FT069-01 do salgueiro, que cita a monografia europeia de 2017 e reproduz apenas duas das quatro indicações dela — dor articular leve e febre associada ao resfriado comum —, mantendo o prazo de uma semana para reavaliação e a contraindicação para menores de 18 anos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 9 de agosto de 2026