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Guia da Saúde

Tintura de equinácea: 2 fórmulas, 45% e 55% de álcool

Existem duas tinturas de equinácea no Formulário de Fitoterápicos, e elas não são intercambiáveis: mudam a espécie, o teor alcoólico e a dose. Uma delas tem monografia europeia correspondente. A outra foi explicitamente excluída da monografia europeia por falta de documentação de uso — e mesmo assim entrou no documento brasileiro.

Duas fórmulas, dez pontos percentuais de álcool de diferença

As duas partem da mesma proporção — 20 g de raiz para 100 mL de preparação final, o que é uma tintura 1:5 — e divergem no solvente e na posologia:

FT024 (angustifolia)FT026 (purpurea)
Álcool etílico45%55%
Dose por vez1 a 2 mL3 mL
Vezes ao dia2 a 33
Diluir em50 mL de água50 mL
IndicaçãoAlívio do resfriado comumPrevenção e alívio do resfriado

Vale reparar na diferença de dose: a tintura de purpúrea é tomada em volume até três vezes maior que a de angustifólia, com teor alcoólico mais alto. São documentos separados, com fontes separadas, e não há no Formulário nenhuma tabela de conversão entre elas.

Do lado europeu, a tintura de angustifolia está na monografia com a mesma identidade — 1:5 em etanol 45% V/V — e posologia de 1 a 2 mL três vezes ao dia. O texto brasileiro admite duas ou três vezes; a europeia fixa três.

A tintura de purpúrea foi deixada de fora na Europa

Este é o achado desta página, e ele está escrito no relatório de avaliação da raiz de E. purpurea. Os avaliadores registram que a tintura e a raiz rasurada ou pulverizada aparecem na literatura, tabelam a posologia histórica — 60 gotas três vezes ao dia, correspondendo a três vezes 300 mg de raiz seca, numa tintura 1:5 em etanol 55% — e depois escrevem:

“There is no evidence of 30-year of medicinal use of the comminuted or powdered dried roots and of the tincture in the EU. These preparations are therefore not included in the monograph on Echinaceae purpureae radix.”

A monografia europeia da raiz de purpúrea saiu só com cápsulas. Os avaliadores ainda anotam, na própria tabela, que “it is not clear from the references if they report use in practice or use in the scope of the clinical trials” — ou seja, nem estava claro se aquela posologia histórica descrevia uso real ou uso dentro de ensaios.

O Formulário brasileiro seguiu por outro caminho e trouxe essa tintura, citando um vademecum espanhol de 2006. Os 3 mL da fórmula brasileira correspondem exatamente às 60 gotas da tabela europeia. Isso não torna a preparação perigosa — torna-a menos documentada do que a irmã de angustifólia, e é uma informação que quem manipula e quem toma tem direito de saber.

Por que a fórmula pede conservante

As duas orientações de preparo trazem a mesma frase: “em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes.”

Parece contraintuitivo chamar 45% ou 55% de “baixo”, mas o parâmetro aqui é microbiológico: o álcool é o conservante natural da tintura, e abaixo de certo teor ele deixa de garantir sozinho a estabilidade do produto ao longo do prazo de validade. Tintura de equinácea, portanto, não é uma preparação que se guarda indefinidamente num armário. O que separa tintura de extrato fluido, que tem outra relação droga-solvente, está em tintura ou extrato; a técnica geral de preparo está em como fazer tintura.

Quem não pode usar a tintura

A tintura carrega todas as restrições da planta, mais um bloco que é só dela e vem do álcool. O Formulário estabelece, como regra geral para tinturas e extratos fluidos, que não são recomendados a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos — e pede que se evite dirigir ou operar máquinas após a ingestão.

Somando as duas listas, ficam de fora: menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas, diabéticos, pessoas com alergia a plantas da família Asteraceae e pessoas com doença autoimune, imunodeficiência ou imunossupressão. O detalhamento está em quem não pode tomar equinácea.

Há ainda um dado pré-clínico que separa a tintura das demais formas: a inibição de CYP3A4 é mais de 50 vezes maior na tintura do que no suco da mesma planta, segundo o relatório europeu da parte aérea. É a forma farmacêutica com maior potencial teórico de interferir no metabolismo de medicamentos — assunto de equinácea e remédios.

Se você já tem o frasco em casa

Confira no rótulo qual espécie e qual teor alcoólico, porque a dose depende disso: 1 a 2 mL se for angustifólia a 45%, 3 mL se for purpúrea a 55%, sempre diluídos em água e nunca puros. Comece aos primeiros sinais do resfriado, respeite os prazos de reavaliação e suspenda ao primeiro sinal de reação alérgica, procurando atendimento se houver inchaço de rosto, lábios ou falta de ar.

A versão sem álcool da mesma raiz está em chá de equinácea, e o mapa das três monografias em equinácea.

Perguntas frequentes

Quantas gotas de tintura de equinácea equivalem à dose?

A tabela de dados históricos do relatório europeu registra 60 gotas três vezes ao dia para a tintura 1:5 em etanol 55%, o que corresponde aos 3 mL da fórmula brasileira da raiz de purpúrea. Ainda assim, o Formulário escreve a dose em mililitros, e gota varia com o conta-gotas — o volume é a medida confiável.

Tintura é mais forte que o chá de equinácea?

São extrações diferentes, não versões fracas e fortes da mesma coisa. O álcool retira substâncias que a água deixa na raiz, e por isso as doses não se convertem uma na outra. A tintura também carrega restrições próprias, de idade e de álcool, que o chá não tem.

Dá para fazer tintura de equinácea em casa?

As fórmulas do Formulário são de manipulação em farmácia, com álcool etílico em concentração especificada, droga vegetal pulverizada e controle de qualidade da matéria-prima. Reproduzir isso na cozinha com cachaça ou álcool de cereais não gera a mesma preparação, e a raiz precisa ser da espécie certa.

Por quanto tempo a tintura pode ser usada?

Vale o mesmo teto das demais formas orais: o uso contínuo não deve ultrapassar oito semanas, e a FT026 recomenda tratamentos descontínuos. O prazo de reavaliação é mais curto e muda conforme a monografia, indo de três a dez dias sem melhora.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — as duas tinturas de Echinacea: a Fórmula 2 da FT024, com 20 g de raiz de Echinacea angustifolia e álcool etílico 45% q.s.p. 100 mL, tomada de 1 a 2 mL diluídos em 50 mL de água, de duas a três vezes ao dia; e a Fórmula 1 da FT026, com 20 g de raiz de Echinacea purpurea e álcool etílico 55% q.s.p. 100 mL, tomada 3 mL diluídos em 50 mL, três vezes ao dia; mais a recomendação de conservantes em razão do baixo teor alcoólico e a contraindicação das tinturas a menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Echinacea purpurea (L.) Moench, radix (EMA/HMPC/424584/2016): a tabela de dados históricos com a tintura 1:5 em etanol 55% na posologia de 60 gotas três vezes ao dia, correspondendo a três vezes 300 mg de raiz seca, e a conclusão de que não há evidência de 30 anos de uso medicinal das raízes rasuradas ou pulverizadas nem da tintura na União Europeia, razão pela qual essas preparações não foram incluídas na monografia
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Echinacea angustifolia DC., radix (EMA/HMPC/688216/2008): a inclusão da tintura na proporção 1:5 com etanol 45% V/V entre as preparações da monografia, com posologia de 1 a 2 mL três vezes ao dia e uso não recomendado em menores de 12 anos
  4. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Echinacea purpurea (L.) Moench, herba recens (EMA/HMPC/557979/2013): o dado pré-clínico de que a inibição de CYP3A4 é mais de 50 vezes menor com o suco espremido da parte aérea do que com a tintura da mesma parte da planta

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026