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Guia da Saúde

Remédio natural para ansiedade: a valeriana não entra

Nove monografias do Formulário de Fitoterápicos trazem a palavra ansiedade na indicação, sempre acompanhada do adjetivo “leve”. A valeriana, que é o calmante vegetal mais conhecido do país, não é uma delas — a indicação dela é outra. E a agripalma, vendida como calmante, tampouco: o que a monografia registra é “tensão nervosa”.

Três redações para a mesma promessa

O documento não escreve “ansiedade” de um jeito só, e a variação diz algo sobre o que foi aceito:

  • “auxiliar no alívio da ansiedade e insônia leves” — sete monografias: laranja-amarga (FT018), crataego (FT020), capim-limão (FT022), mulungu (FT028), lavanda (FT041), melissa (FT048) e passiflora (FT056);
  • “auxiliar no alívio da ansiedade leve”, sem menção a sono — duas: colônia (FT008) e erva-cidreira de arbusto (FT044);
  • “como ansiolítico leve” — uma: aloisia (FT007).

O adjetivo leve aparece nas dez. Não é enfeite de redação: é a delimitação do que a indicação autoriza. Nenhuma monografia do Formulário registra planta para transtorno de ansiedade diagnosticado, e nenhuma delas foi avaliada nesse cenário.

As duas famosas que não dizem ansiedade

Valeriana (FT082). A indicação é “auxiliar como sedativo leve e como indutor do sono”. A palavra ansiedade não aparece na seção INDICAÇÕES, e a posologia é organizada em torno do sono, não do dia. O que ela cobre está em remédios naturais para insônia e a leitura popular da espécie em valeriana para ansiedade.

Agripalma (FT042). A indicação inteira cabe em uma linha: “como auxiliar no alívio dos sintomas da tensão nervosa”. Tensão nervosa e ansiedade não são a mesma entidade no vocabulário do documento — a primeira aparece uma vez em 85 monografias, a segunda em nove.

A diferença tem consequência prática: quem compra “chá de valeriana para ansiedade” está usando uma fórmula desenhada, no documento, para outra finalidade e outro horário.

A idade é o filtro que elimina mais da metade da lista

PlantaFórmula de cháPosologiaIdade mínima
Passiflora (FT056)1 a 2 g em 150 mL150 mL até 4x ao dia12 anos
Melissa (FT048)1,5 a 4,5 g em 150 mL150 mL até 3x ao dia12 anos
Lavanda (FT041)Infuso150 mL 3x ao dia12 anos
Crataego (FT020)Não tem — só cápsula1 cápsula 3 a 5x ao dia12 anos
Erva-cidreira de arbusto (FT044)0,4 a 0,6 g em 150 mL, infusão de 5 min150 mL 2 a 3x ao dia18 anos
Colônia (FT008)0,8 g de folha em 100 mLInfuso 3x ao dia18 anos
Capim-limão (FT022)1 a 3 g em 150 mL150 mL 3 a 4x ao dia18 anos
Mulungu (FT028)0,5 g de casca em 150 mL, decocção150 mL 3x ao dia, até 30 dias18 anos
Laranja-amarga (FT018)2 g de flor em 150 mL150 mL 30 min antes das refeições18 anos
Aloisia (FT007)Não tem — só tintura3 a 9 mL em 75 mL de água, 3x ao dia18 anos

Seis das dez são contraindicadas abaixo de 18 anos. E duas não têm fórmula de chá nenhuma: o crataego só existe em cápsula, e a aloisia só em tintura — o que significa que “chá de aloisia” não tem posologia oficial.

Duas advertências que só aparecem lendo linha a linha: a colônia pode agir como diurético e exige cautela em quem usa diurético; e a erva-cidreira de arbusto tem interação incomum registrada — “o uso concomitante com paracetamol pode aumentar a toxicidade desta droga, pelo uso da mesma via metabólica do citocromo P450”. Ver erva-cidreira para ansiedade.

Melissa: uso tradicional, e o comitê europeu explica por quê

A melissa é provavelmente a mais recomendada do grupo, e a página oficial da espécie na agência europeia diz de onde vem a indicação: as conclusões do comitê sobre uso da melissa para sintomas leves de estresse, auxílio ao sono e distúrbios digestivos leves baseiam-se no uso tradicional“embora não haja evidência suficiente de ensaios clínicos”.

Uso tradicional é uma categoria regulatória legítima: significa que a planta foi usada por tempo longo o bastante sem sinal de dano, com pelo menos 30 anos de uso documentado. Não significa que um ensaio demonstrou o efeito. A distinção vale para quase toda esta lista, e é o que separa “a Anvisa reconhece” de “está provado”. Ver melissa para ansiedade.

O ensaio que testou a ansiedade e não achou efeito

O capim-limão tem indicação registrada para ansiedade leve — e o único ensaio humano brasileiro sobre o assunto foi negativo nesse desfecho. Dezoito voluntários com escore alto de ansiedade-traço foram submetidos a um teste indutor de ansiedade depois de receber o abafado da planta ou placebo, em condição duplo-cega. Os níveis de ansiedade dos dois grupos foram semelhantes, e os autores concluíram que o abafado “não tem propriedades ansiolíticas”.

O mesmo estudo mostrou que a planta é atóxica no uso descrito, sem alteração de exames bioquímicos, EEG ou ECG. Segurança demonstrada e eficácia não demonstrada são resultados diferentes, e é honesto publicar os dois. Ver capim-limão para ansiedade.

Quando ansiedade deixa de ser “leve”

O adjetivo do documento é a régua. Procure avaliação com profissional de saúde mental se a ansiedade atrapalha trabalho, estudo ou relações, se há crises com falta de ar, taquicardia e sensação de morte iminente, se você evita sair de casa ou situações comuns, se surgiram pensamentos de morte ou de autolesão, se há uso crescente de álcool ou remédio para aguentar o dia, ou se o quadro não melhora nas duas semanas que as próprias monografias fixam como prazo de reavaliação.

Ansiedade também se manifesta no corpo, e nem sempre é reconhecida como tal — o quadro de gastrite nervosa e o de cansaço mental descrevem essa fronteira. Em situação de risco imediato, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia, gratuitamente.

O índice das demais queixas está em chá para cada sintoma.

Perguntas frequentes

Chá calmante substitui o remédio para ansiedade?

Não, e as monografias não sugerem isso em nenhum momento. Todas as indicações carregam o adjetivo leve, e nenhuma cobre transtorno de ansiedade diagnosticado. Interromper medicação psiquiátrica por conta própria é perigoso e deve ser conversado com quem prescreveu.

Chá calmante dá sono durante o dia?

Pode. Várias dessas monografias avisam que o fitoterápico compromete a capacidade de conduzir veículos e operar máquinas — melissa, lavanda, aloisia e valeriana entre elas. O capim-limão, em doses elevadas, pode causar síncope e sedação segundo a própria monografia.

Adolescente pode tomar chá calmante?

Só quatro das nove espécies descem até os 12 anos: passiflora, melissa, lavanda e crataego. As outras cinco são de uso adulto e contraindicadas abaixo de 18 anos. Ansiedade em adolescente é assunto de avaliação profissional, não de escolha de chá.

Erva-cidreira e melissa são a mesma planta?

Não. No Formulário são duas monografias distintas: melissa é Melissa officinalis (FT048) e erva-cidreira de arbusto é Lippia alba (FT044). Doses, idades mínimas e advertências são diferentes — a Lippia alba é contraindicada abaixo de 18 anos, a Melissa officinalis desce a 12.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): as nove monografias cuja indicação contém a palavra ansiedade — FT008 (colônia), FT018 (laranja-amarga), FT020 (crataego), FT022 (capim-limão), FT028 (mulungu), FT041 (lavanda), FT044 (erva-cidreira de arbusto), FT048 (melissa) e FT056 (passiflora) —, mais a FT007 da aloisia, indicada como ansiolítico leve e sem fórmula de chá; a FT082 da valeriana, cuja indicação é sedativo leve e indutor do sono e não menciona ansiedade; e a FT042 da agripalma, indicada para os sintomas da tensão nervosa
  2. European Medicines Agency (HMPC) — página da folha de melissa (Melissa officinalis, folium): a informação de que as conclusões do comitê sobre o uso da melissa para sintomas leves de estresse, auxílio ao sono e distúrbios digestivos leves se baseiam no uso tradicional, porque não há evidência suficiente de ensaios clínicos, e a lista dos documentos oficiais da espécie, incluindo a monografia EMA/HMPC/196745/2012 e o relatório de avaliação EMA/HMPC/196746/2012
  3. Leite JR, Seabra ML, Maluf E, Assolant K, Suchecki D, Tufik S, Klepacz S, Calil HM, Carlini EA. Pharmacology of lemongrass (Cymbopogon citratus Stapf). III. Assessment of eventual toxic, hypnotic and anxiolytic effects on humans. Journal of Ethnopharmacology 1986;17(1):75-83 (PMID 2429120): os 18 voluntários com escore alto de ansiedade-traço submetidos a um teste indutor de ansiedade após capim-limão ou placebo em condição duplo-cega, cujos níveis de ansiedade foram semelhantes, e a conclusão de que a planta não tem propriedades ansiolíticas

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026