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Guia da Saúde

Ervas que são confundidas: 4 pares de risco real

Duas plantas dividirem o mesmo nome popular é comum no Brasil e, na maioria das vezes, é só confusão. O que torna alguns desses pares um problema de saúde é outra coisa: em quatro deles, uma das duas espécies aparece com restrição publicada pela Anvisa — teto de teor ou limitação de via de uso — e a outra, não. Trocar uma pela outra deixa de ser detalhe taxonômico.

Os quatro pares, e o que separa cada um

ParEspécie AEspécie BO que a norma diz da diferença
BoldoPeumus boldus (boldo-do-chile)Plectranthus barbatus (boldo-brasileiro)Só a A tem monitoramento obrigatório de ascaridol no Anexo II da IN 410/2025
SabugueiroSambucus nigraSambucus australisMonografias separadas, com idade mínima e limite de tempo de uso diferentes
HortelãMentha x piperitaMentha pulegium (poejo)Ambas entram na restrição de pulegona e mentofurano, com limites da EMA
ConfreiConsolda / confrei-verdadeiro (Symphytum officinale)Outras folhas grandes vendidas como “confrei”A norma restringe Symphytum officinale a uso externo em pele íntegra

Nenhuma dessas quatro linhas é opinião: todas saem do Anexo II da Instrução Normativa nº 410, de 17 de dezembro de 2025, ou das monografias oficiais das espécies.

Boldo: o par em que só um dos dois é monitorado

Este é o caso mais documentado do país, porque as duas plantas têm monografia própria no mesmo Formulário da Anvisa, com 10 minutos de infusão em uma e 20 minutos na outra, e listas de advertência que não coincidem. O comparativo completo está em boldo-do-chile ou boldo-brasileiro.

O que a IN 410/2025 acrescenta é a assimetria regulatória. O Anexo II traz uma linha só para uma das duas:

“Ascaridol em fitoterápicos e insumos vegetais obtidos a partir da espécie Peumus boldus — Deve-se incluir, nas análises de controle de qualidade do insumo ativo e do produto acabado, testes destinados ao monitoramento do teor de ascaridol (…).”

O boldo-brasileiro não aparece nessa lista. Ou seja: das duas plantas que o brasileiro chama de boldo, uma exige ensaio específico de uma substância e a outra não — e o nome popular não avisa qual você comprou. As duas páginas estão em boldo-do-chile e boldo-brasileiro.

Sabugueiro: mesmo nome, dois regimes de uso

Sambucus nigra e Sambucus australis têm monografias distintas, e as diferenças caem exatamente onde importa: faixa de massa por xícara, idade mínima e limite de dias de uso contínuo. Uma delas é a espécie europeia, que chega ao Brasil como flor seca comprada; a outra é nativa e cresce em quintal do Sul e Sudeste.

E as duas têm a mesma proibição no documento: não usar as folhas, por conterem glicosídeos cianogênicos tóxicos. É um bom lembrete de que a confusão perigosa nem sempre é entre duas espécies — às vezes é entre duas partes da mesma planta. Os dois verbetes estão em sabugueiro e sabugueiro-do-brasil.

Hortelã e poejo: o par que a química separa

Mentha x piperita e Mentha pulegium são as duas “hortelãs” do quintal brasileiro, e a IN 410/2025 as coloca na mesma linha de restrição:

“Espécies vegetais contendo pulegona e mentofurano, tais como Mentha x piperita, e Mentha pulegium — Seguir limites estabelecidos pela EMA no documento ‘Use of herbal medicinal products containing pulegone and menthofuran’ para uso oral e tópico, adulto e infantil.”

A norma trata as duas juntas, mas isso não as iguala: elas não trazem a mesma quantidade dessas substâncias, e é justamente por isso que o limite é por teor, e não por nome. O que muda quando o pote é de poejo está em poejo: perigo.

Confrei: a confusão está no que se faz com a folha

O confrei tem a restrição mais direta do Anexo II: “O IFAV só pode ser utilizado para uso externo e em pele íntegra”. E ele se soma à restrição geral de alcaloides pirrolizidínicos, cuja exposição diária não pode passar de 1 ppm, ou seja, 1 mcg/g.

O problema aqui não é confundir duas espécies parecidas — é que “confrei” virou nome guarda-chuva para folhas grandes e felpudas de plantas diferentes, todas vendidas com a mesma promessa de chá cicatrizante. A leitura da norma resolve a dúvida antes da botânica: não é para beber. O detalhe está em confrei: pode tomar?.

Por que o olho não resolve depois que a erva foi moída

Há uma frase da Farmacopeia Brasileira que fecha o assunto. No capítulo de exame sensorial e inspeção microscópica de drogas (5.4.1.2), o documento registra que a inspeção microscópica é indispensável quando o material estiver rasurado ou em pó.

É a razão técnica pela qual erva a granel em pedaço grande é mais auditável do que erva moída: com a folha inteira, sobram caracteres macroscópicos — nervura, borda, tricoma, cheiro. Moída, a identificação sai do alcance de quem compra. Isso está detalhado em como moer erva seca, e o procedimento que identifica de verdade uma espécie está em como identificar planta medicinal.

A regra prática

Nome popular não identifica espécie. Antes de usar erva identificada só pelo nome da feira:

  1. procure o nome científico no rótulo — sem ele, a dose da monografia não se aplica a nada;
  2. prefira material inteiro ou grosseiramente rasurado, que ainda dá para examinar;
  3. desconfie de nome guarda-chuva (“boldo”, “hortelã”, “confrei”, “cidreira”) quando a instrução que você vai seguir vier de uma fonte que fala de outra espécie;
  4. na dúvida sobre qual planta é, não use — a lista federal de espécies com restrição está em plantas tóxicas mais comuns.

Perguntas frequentes

Se as duas plantas têm o mesmo nome, dá na mesma tomar qualquer uma?

Não. Nos pares deste texto, as duas espécies têm documentos oficiais diferentes: tempo de infusão diferente, idade mínima diferente, limite de tempo de uso diferente e, em alguns casos, uma delas carrega substância com teto regulatório e a outra não. Nome igual não transfere segurança.

Como saber qual espécie está no meu pacote?

Pelo nome científico no rótulo, que é a única informação que identifica de fato. Sem ele, sobra o exame do material — e a Farmacopeia registra que a inspeção microscópica é indispensável quando a droga está rasurada ou em pó, o que significa que a olho nu, moída, não dá.

Erva do quintal do vizinho é confiável se ele usa há anos?

Uso prolongado sem incidente não identifica espécie. Vários dos pares aqui envolvem plantas que convivem no mesmo quintal e que muita gente chama pelo mesmo nome. Antes de usar planta identificada só por nome popular, a conduta razoável é confirmar a espécie ou não usar.

A troca de espécie muda a dose?

Muda tudo o que vem depois da espécie. Entre os dois boldos, o tempo de infusão passa de 10 para 20 minutos. Entre os dois sabugueiros, mudam a faixa de massa, a idade mínima e o limite de dias de uso. A dose só faz sentido colada ao nome científico a que ela pertence.

Fontes

  1. Instrução Normativa Anvisa nº 410, de 17 de dezembro de 2025 — Anexo II: o monitoramento obrigatório do teor de ascaridol em fitoterápicos e insumos obtidos de Peumus boldus; o limite de 1 ppm (1 mcg/g) de exposição diária a alcaloides pirrolizidínicos; o teto de 6 mg diários de tujona para espécies como Artemisia absinthium e Salvia officinalis; os limites da EMA para pulegona e mentofurano em espécies como Mentha x piperita e Mentha pulegium; e a restrição de Symphytum officinale a uso externo em pele íntegra
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): as monografias separadas de Peumus boldus e Plectranthus barbatus, com tempos de infusão de 10 e 20 minutos e listas próprias de advertência, e as monografias separadas de Sambucus nigra e Sambucus australis, com faixas de dose, idade mínima e limite de tempo de uso diferentes entre si
  3. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume I (Anvisa, RDC nº 1.026 de 15 de maio de 2026) — método geral 5.4.1.2, Exame sensorial e inspeção microscópica de drogas: o registro de que a inspeção microscópica é indispensável quando o material estiver rasurado ou em pó
  4. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume II — Plantas Medicinais (Anvisa): as monografias que fixam, para cada droga vegetal, os caracteres macroscópicos, microscópicos e os ensaios cromatográficos de identificação da espécie, incluindo Sabugueiro flor e Hortelã-pimenta folha

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026